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| VLEF - por Tiago Mattos |
Terminei
de ler o livro VLEF (a sigla para o mantra da Perestroika: “Vai lá e faz”),
escrito pelo educador, futurista e empreendedor Tiago Mattos. O que me levou a
dedicar horas à leitura desse livro foi a profunda admiração que eu passei a
ter pelo autor, desde que fiz o curso “Tomorrow”, ministrado por ele. O Tiago,
por si só, já é um cara inspirador, inteligente, gentil, divertido e cheio de
histórias bacanas. Só isso já bastaria pra ir com a cara dele. Mas, como se não
bastasse, ele possui interesses muito parecidos com os meus: futurismo, ficção
científica, educação, futebol, cerveja... e desinteresses também: ele é
anti-tabagista, odeia burocracia e é totalmente leigo no assunto “carros”.
Mais: suas perspectivas com relação ao futuro conseguem ser ainda mais
otimistas do que as minhas. E é sempre bom conviver e dialogar com pessoas assim,
afinal, sou da opinião de que o convívio com gente negativa contamina o
ambiente com aquele ar podre que, consequentemente, nos corrói por dentro.
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| Tiago Mattos, gaúcho de Porto Alegre, é o autor do livro. |
Por
isso, quando li o VLEF, confesso que esperava algo mais aprofundado nessa minha
linha de interesse. Mas acho que a melhor definição para essa publicação é: “um
guia e um incentivo ao empreendedorismo”. Sim, empreendedorismo é o tema central do
livro. E o Tiago tem autoridade e competência pra falar sobre o assunto,
afinal, ele é o mentor de um grande case de sucesso como a Perestroika e, com
apenas 35 anos, já tem um histórico invejável, que inclui passagem pela
Singularity University e pelo TIP, em Israel.
Sua
devoção pelo empreendedorismo justifica-se pela percepção que ele tem do mundo
atual e de um futuro iminente. A mesma percepção que eu tenho: o trabalho
formal e “industrial”, moldado há dois séculos atrás, já não é mais compatível
com o mundo de hoje. O mundo em que vivemos é bem diferente daquele que fora
lapidado pela Revolução Industrial. O problema é que nem a escola e nem as
grandes empresas parecem ter acompanhado essa mudança. Ainda vemos coisas
retrógradas nos dias de hoje que em nada contribuem com o ambiente criativo e
autônomo: burocracia, rigidez, hierarquia, verticalização... O
empreendedorismo, a criatividade, a autonomia, a informalidade e a hierarquia
horizontal é o que, segundo o Tiago, deve ditar as regras no atual mundo
corporativo. E exemplos no decorrer do livro é o que não falta.
Concordo
com toda essa abordagem e com essa visão de mundo. Mas, toda vez que eu penso
sobre o assunto, minha visão vai bem além do tal empreendedorismo e do próprio
sistema defasado no qual estamos imersos. Eu quero acreditar que esse novo
modelo que o Tiago tanto defende será não somente um êxodo para uma nova
geração de empreendedores: será uma das formas de redefinirmos de uma vez por
todas o sentido da palavra “trabalho”.
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| Empreendedorismo é o tema central do livro. |
Se
você me conhece, já deve saber de algumas convicções que eu tenho sobre o
assunto: “ninguém (ninguém!) deveria trabalhar no que não gosta”; “hoje somos
escravos do dinheiro e dedicamos 1/3 do nosso dia alimentando o sistema que nos
escraviza”; “trabalhos operacionais, repetitivos e que não exigem intelecto
deveriam ser substituídos por máquinas”; "o mundo seria bem melhor sem dinheiro".
Mas
essa realidade só vai mudar completamente se nós abandonarmos o sistema
capitalista e vivermos numa Economia Baseada em Recursos. Apesar de concordar
com praticamente tudo que o Tiago escreveu, não acho que o empreendedorismo
seja a solução definitiva para as pessoas serem felizes no exercício de suas
atividades.
Digo
isso porque, apesar do empreendedor ideal ser aquela pessoa bem sucedida e
benfeitora, ela ainda será escravizada pelo dinheiro, por mais rica e
independente que seja. Todos somos!
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| Somos todos escravos do sistema. |
Vou
dar meu exemplo particular: eu já me aventurei bastante como empreendedor entre
2005 e 2008, na época em que eu trabalhava com eventos multitemáticos em Porto
Alegre. Considero a minha trajetória nesse cenário bem bacana até: eu comecei
como staff (peão mesmo) de sala de exibição num evento de pequeno porte em
Canoas e, dois anos depois, já estava organizando meu próprio evento de médio
porte em Porto Alegre. Cheguei até a desbancar a empresa que tinha me empregado
anteriormente. Lógico que, nesse meio tempo, eu fui promovido a coordenador de
salas de exibição, passei pra empresa concorrente, virei coordenador geral e,
finalmente, dei a cara à tapa, tirei grana do meu próprio bolso e “fui lá e fiz”.
Deu tudo muito certo: lucro, pessoas felizes, muita gente envolvida e
realizada... mas não teve continuidade. No ano seguinte, eu abandonei
completamente os eventos (ok, tive uma “recaída” em 2013) e passei a trabalhar
como funcionário da instituição para a qual eu trabalho até hoje. Um trabalho
que eu amo e que me diverte!
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| Meu sócio Marcelão e eu na época em que organizávamos eventos em PoA (olha só a cara de nojento). |
Mas
sabe o que era o mais legal dessa época? Eu não estava nem aí pro dinheiro! É
bem verdade que, na época, eu era sustentado pelos meus pais e não tinha tantas
preocupações financeiras (ainda não era um legítimo escravo do sistema). O
dinheiro que vinha fácil ia fácil. Mas a sensação de crescer, de evoluir, de fazer
um bom trabalho e de tornar nossos clientes “mais felizes” era irremunerável. Eu
tava cagando pra grana!
Hoje
eu sinceramente não consigo desassociar empreendedorismo (o trabalho em geral,
na verdade) com lucro. E o lucro é a base do capitalismo. Esse discurso de “seja
um empreendedor” é muito bonito e encorajador, mas representa um altíssimo
risco e, dadas as regras do jogo, não é garantia de sucesso. Conheço muita
gente competente, séria e apaixonada pelo que faz que, ao transformar-se em
empreendedor, caiu do cavalo. Infelizmente, o sistema atual nos diz que vale
mais a pena ser concursado ou um “escravo do sistema” com as contas em dia do
que um empreendedor endividado.
Mas,
assim como o Tiago, eu sou um otimista. Acredito que esse mesmo sistema de
merda está por ruir. Não me pergunte “quando”, pois eu não faço a menor ideia. E
se isso acontecer, eu espero que as pessoas já tenham maturidade e condições de
perceber que temos condições de gerar abundância plena de todos tipos de
recurso. Yes, we can! Abundância se gera com tecnologia, e isso a gente tem! Mão-de-obra
e trabalhos chatos podem ser feitos por robôs, e isso a gente também pode ter! Então,
jovem, quem precisa de dinheiro num mundo de abundância?
Ok,
o assunto já é batido e acho que esses mesmos argumentos já foram ditos várias
e várias vezes em meus textos anteriores. Mas como o assunto aqui é o livro do
Tiago, reformularei a questão: “O que seria do empreendedor numa EBR?” Fácil: o
empreendedor iria continuar trabalhando pra fazer aquilo que realmente gosta de
fazer, sem precisar pensar no lucro, nem nas contas do mês, nem na remuneração
de seus colaboradores, nem com o risco do fracasso.
Eu
provavelmente voltaria a me envolver com eventos multitemáticos. Também iria
passar boa parte do meu tempo desenhando, criando historinhas, confeccionando
anúncios para coisas que eu considero relevantes, apresentando shows ou vídeos...
faria tudo isso de graça e de boa vontade! Talvez até me arriscaria a aprender
coisas novas, como algum idioma, algum instrumento musical, algum esporte... Viajaria
pelo mundo inteiro pra aprender novas culturas e estilos de vida! Lógico que eu
também dedicaria boa parte do meu tempo assistindo e produzindo vídeos de
super-heróis! Mas esse Bruno Seidel só poderia existir numa EBR.
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| Viver fazendo o que gosta = Foda-se o dinheiro! |
O
Tiago toca nesse ponto num dos primeiros capítulos do livro. Ele aposta que o
empreendedor, num futuro próximo, terá tempo, liberdade e condições de se
aventurar em várias áreas distintas, tornando-se um profissional com várias
habilidades e interesses, sem medo de arriscar. Sorry, Tiago, com o dinheiro
mandando na vida das pessoas, isso se torna bem mais complicado do que parece. Mas
eu também jogo no time dos otimistas e torço para que isso aconteça.
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| Jacque Fresco (100 anos) é autor do termo "Resource Based Economy". |
Ok...
vamos retomar o foco e falar do livro. TVP já virou assunto batido por aqui.
Antes
de começar a folhear o VLEF, eu dei uma espiada na bibliografia e vi que lá
estavam o Abundance (2012) do Diamandis e as duas publicações mais famosas do Kurzweil:
A Era das Máquinas Espirituais (2007) e The Singularity is Near (2005). Havia
também o livro do Federico Pistono: Robots will steal your job, but that’s ok
(2012) e mais uns quarenta. Lógico que essas referências me deixaram ainda mais
a fim de devorar a obra.
O
assunto “futurismo”, contudo, só deu as caras nas páginas finais. E, ainda
assim, não foi tão a fundo como eu gostaria. Mas totalmente compreensível: o
livro é sobre empreendedorismo, falar sobre Singularidade, transhumanismo e as
previsões mais ousadas do Kurzweil seria fugir demais do tema central e daria
quase um outro livro.
Gostei
muito da forma como o Tiago estabeleceu as três revoluções que a humanidade já
viveu até hoje: a Agrícola (de 9.000 a.C. a 3.000 a.C.); a Industrial (Séculos
XVII e XVIII) e; a Digital (right now). Um dos primeiros caras a perceber isso
foi Alvin Toffler, autor de “A Terceira Onda”.
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| A Terceira Onda: livro que divide a história da humanidade em três eras. |
Mas Tiago bate o pé ao dizer que estamos diante três novas revoluções que estão chegando com tudo e ao mesmo tempo. É o trio GNR, claro! Genética, Nanotecnologia e Robótica (a.k.a. Inteligência Artificial). Eu costumo dizer que essas três são decorrentes da Revolução Digital, uma vez que começaram a emergir junto ao advento da internet e da evolução dos computadores. Seja como for, é exatamente o que o Kurzweil defende ao prometer que, sim, senhoras e senhores, a Singularidade está chegando!
Mas
o pileque futurista acaba por aqui. Tiago sequer toca no assunto “imortalidade”,
por exemplo. Isso certamente lhe evitou umas boas doses de Neosaldina.
Gostei
muito da página 478, que faz menção ao best seller Peter Diamandis, Abundance –
The future is better than you think (resenha AQUI). Tiago recorre a um exemplo
científico que justifica o porquê das pessoas serem tão pessimistas (lembrando
sempre que 100% dos pessimistas se consideram realistas). É tudo culpa daquela
moradora velha e rabugenta do nosso cérebro que vive reclamando da vida e
comentando notícias trágicas: a tal da Dona Amígdala. Entenda:
A amígdala é uma espécie de radar que temos no sistema nervoso central. O objetivo da amígdala é filtrar os milhares de estímulos que recebemos por minuto, deixando em evidência aqueles que sejam fundamentais para a nossa sobrevivência. Um recurso fundamental para a perpetuação da nossa espécie. Então, se você abrir o seu feed, e vir duas notícias lado a lado – uma falando de um novo método de alfabetização revolucionário, e uma falando de um assassinato – você provavelmente ficará mais interessado pela segunda. Culpa da amígdala. E como a imprensa se remunera de audiência, é natural que o caso do goleiro Bruno fique por semanas no ar. Em inglês, existe até uma expressão. What bleeds, leads (o que sangra, circula).
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| Vai tomar no cu, Dona Amígdala! |
O
livro termina (já deu pra perceber que vem spoilers por aí, né?) com um exemplo
de “evolução exponencial”: a pecinha de dominó que pode derrubar a peça
seguinte, que é 50% maior. Ou seja: uma peça de 5cm pode derrubar uma peça de 7,5cm,
que vai derrubar uma de 11,25cm, que vai derrubar outra de 16,87cm, depois uma
de 25,3cm... pra nossa surpresa, a 23ª pecinha já vai ter o tamanho da Torre
Eiffel! A 57ª é quase o tamanho da distância entre a Terra e a Lua!!! Esse
mesmo exemplo poderia ser substituído pelo do copo d’água (que dobra a quantia
de água a cada segundo) ou pela P.G. do nº 0,0000001 que vai dobrando até fazer
a curva exponencial. Quem manja de evolução exponencial já entendeu.
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| A famosa "curva do Kurzweil". |
Enfim...
Indico o VLEF para pessoas que curtem empreendedorismo, para os que já são ou
para os que ainda pretendem mergulhar nessa. São textos curtos e diretos com
várias dicas interessantes e pinceladas de quem manja do assunto. Uma leitura
extremamente agradável! Pode “ir lá e ler”.
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