sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Como seria o futebol na EBR?



  
Jacque Fresco acredita que, numa eventual Economia Baseada em Recursos, os esportes competitivos darão lugar aos esportes mais cooperativos e recreativos, reflexo de um sistema que incentiva menos a competição entre indivíduos e/ou equipes. No entanto, acho pouco provável que esportes populares como o futebol percam sua relevância. Muito pelo contrário, acho que o fato das pessoas não se preocuparem com dinheiro, trabalho e sustento seria um bom motivo para que peladeiros, que hoje fazem isso por hobby, dedicassem mais tempo do seu dia praticando o esporte, seja o futebol ou qualquer outro que os faça se sentirem bem.
O futebol se tornaria algo mais recreativo e menos “capitalista” (óbvio). Sabemos que, no mundo de hoje, esse esporte é uma máquina de fazer dinheiro e, como via de regra, um amplo e fértil playground para os corruptos encherem seus bolsos de grana, lavarem dinheiro sujo e tudo aquilo que cansamos de ver nos noticiários. A entidade máxima do futebol mundial não me deixa mentir.
Sem dinheiro pra roubar, sem gananciosos pra corromperem coisa alguma e sem todo esse mar de lama que envenena o futebol, teríamos um cenário bem diferente, certo? Então eliminemos a FIFA e seus pilantras engravatados da equação, pra começo de conversa. Felizmente, o futebol sobreviveria sem eles. No começo, seria tudo muito confuso e desorganizando, cada um por si, mas aos poucos surgiriam “associações” entre alguns clubes de mesmo interesse (não confunda com o Clube dos 13) pra estabelecer um mínimo de ordem.
Os presidentes dos clubes seriam como “representantes de ONGs” ou de “torcidas organizadas”: pessoas muito identificadas com seu clube e que farão o possível pra ganhar os principais títulos e “contratar” os melhores jogadores. Exclui-se aqui a necessidade de um paletó, lobby político, rabo preso com patrocinadores ou salário astronômico.


MERCADO DA BOLA


Quem contrataria quem sem o dinheiro na jogada?


Quem gosta de jogar e assistir futebol continuaria fazendo a mesma coisa. A diferença é que os jogadores teriam outros tipos de critério na hora de escolher o clube a ser defendido. Neymar, por exemplo, nunca trocaria o seu amado Santos pelo Barcelona. Carlitos Tevez passaria a vida toda jogando no Boca Júniors, inclusive no auge da sua carreira. Ronaldinho Gaúcho nunca deixaria o Grêmio (quer dizer...). Ao invés do dinheiro, o que faria um jogador ir para o clube X, ao invés do clube Y, seria a sua identificação com o mesmo.
Mas se fosse por isso, clubes como Flamengo e Corinthians teriam que colocar milhões de jogadores em campo, certo? Não, acredito que continuaríamos com onze jogadores pra cada lado e mais uns doze no banco. Jogar no Flamengo seria para pouquíssimos: os melhores! Seria como trabalhar no Google: todo mundo quer, mas as vagas são limitadas. Então, um jogador que ama o Flamengo e sonha jogar no rubro-negro carioca precisaria ser muito bom pra conseguir essa façanha. Do contrário, teria que se contentar em jogar num clube menor até fazer por merecer uma chance (ou desistir). Não é muito diferente do que vemos hoje, exceto pela parte da grana. A expressão “amor à camisa” finalmente passaria a fazer sentido.
Mas e quem determinaria que o fulano pode vestir ou não a camisa do Flamengo? O técnico do time, oras! E quem define o técnico do time? O presidente e seu respectivo conselho (talvez a torcida poderia opinar e participar da escolha, mas isso dependeria da política de inclusão do time). Nesse aspecto, seria mais parecido com uma seleção do que com um clube: ao invés de contratações, teríamos convocações (na verdade, convites, porque o jogador pode recusar a proposta, caso não vá com a cara do time). Alguns jogadores iriam desenvolver uma relação tão forte e profunda com seu clube e sua torcida que passariam a carreira toda atuando no mesmo time. Outros não seriam tão fiéis assim e agiriam como “putas”, passando por vários tipos de clube do mundo. Digamos que seja o “poliamor” do futebol.


ESTÁDIOS 

Quantas cabeças cabem no "Xoxotão" de Doha, no Qatar?


Com robôs trabalhando no lugar das pessoas, teríamos estádios “padrão FIFA” no mundo inteiro (e não somente em cidades-sede da Copa do Mundo). Estádios lindos, confortáveis, com altíssima tecnologia e sofisticação. Mas não daria pra colocar um milhão de espectadores no mesmo lugar, certo? E sem o dinheiro em questão, ficaria complicado de vender ingressos ou estabelecer um valor monetário para quem quisesse ver a partida. Seria um evento público e gratuito, mas de altíssima demanda.
Sendo assim, quem chegar primeiro, pega o melhor lugar. É como ficar na primeira fila de um show: ou você chega com bastante antecedência, ou dá uma de malandro e vai tomando a frente dos outros. De qualquer forma, é bem provável que tenhamos gente acampando na frente do estádio até a abertura dos portões, chegando na arquibancada com 12 horas de antecedência, vivendo intensamente aquele momento. Ei, mas não é isso que as torcidas organizadas fazem hoje?
Lógico que muita gente teria que se contentar em assistir à partida no conforto do lar. Ou num telão disponibilizado em praça pública, que é o que costuma acontecer nos eventos Fan Fest da FIFA durante a Copa do Mundo. A opção de ver um jogo no estádio provavelmente ficaria com os torcedores mais fanáticos. Se um pai quiser levar o filho pra ver o time jogar, aí teria que chegar mais cedo e entrar com antecedência. Esse provavelmente seria o “custo do ingresso”. 


PAÍSES X CLUBES

O "japonês" (???) André Santos. Mundo globalizado é isso aí.
 
Com ou sem EBR, o nacionalismo é uma coisa que tende a perder sua importância na próximas décadas. Conforme a tecnologia e a comunicação avançam, a globalização se consolida e as fronteiras caem por terra. Viajar pelo mundo já não é um sonho tão distante. Conhecer e conversar com pessoas de outros continentes também se tornou tão cômodo quanto ter amigos em cidades vizinhas. Nesse aspecto, o mundo se tornou uma coisa só. Logo, as fronteiras deixam de fazer sentido.
Na EBR, viajar pelo planeta inteiro seria gratuito. Teríamos pessoas que passariam a vida toda viajando. Conhecer os cinco continentes seria tão banal quanto conhecer todos os bairros de uma pequena cidade. Muita gente se tornaria nômade, preferindo morar uma semana em cada país ao invés de estabelecer residência fixa no mesmo lugar.
Com o nacionalismo em baixa e sem a necessidade de exaltar a pátria mãe, poucos seriam aqueles que iriam bater no peito pra ostentar esse tipo de orgulho. Mas sabemos que o ser humano é uma criatura que tem um forte “sentimento de pertencimento”. O meu palpite é que será muito mais comum ver as pessoas idolatrarem o clube do coração do que a seleção nacional. De certa forma, isso é um movimento que já está acontecendo. Só depois que o Brasil deixou de ser “o país do futebol” (e, principalmente, depois do 7 a 1) é que algumas pessoas passaram a desacreditar e perder o amor pela Seleção Brasileira.
Com clubes isso raramente acontece. O clube possui uma relação diferente com o torcedor, pois existem outros motivos que te levam a torcer por ele. A seleção não te dá motivo nenhum: “você nasceu aqui, então torça pelo seu país!” Tá certo que muitos torcedores acabam adotando um clube porque o pai determinou (ou um tio, um amigo, um padrinho...). Ainda assim, me parece uma relação mais amorosa e sincera do que “você nasceu aqui”. Gosto de comparar a relação “clube X seleção” com “amigo X parente”: “amigo a gente escolhe, parente vem no pacote”.
Além do mais, o clube tem aquela questão saudável da “flauta na segunda-feira”. Corinthianos convivem com palmeirenses e vice-versa. Acompanhar o desempenho de ambos os times é quase um complemento à rotina. Já um brasileiro que nunca saiu do país raramente vai ter aquele gostinho de tirar sarro da cara do outro: “nós temos cinco títulos mundiais, você não!” Num mundo mais globalizado, contudo, seria comum ver torcedores do Flamengo discutindo com torcedores do Barcelona, Corinthianos batendo boca com torcedores do Real Madrid, fãs do Boca Júniors com os do Manchester United...




PATROCÍNIOS

Ninguém merece ter que olhar pra esse tipo de aberração, né?

Nem preciso explicar essa parte, né? O patrocínio seria totalmente dispensável. Camisetas que mais parecem páginas de classificados iriam finalmente dar um descanso aos nossos olhos. Talvez, no máximo, teríamos alguma “causa” no lugar de uma marca: “Doe sangue!”, “Feliz Natal!”, “Paz nos estádios”, “Somos todos macacos”. Ainda assim, o bom senso prevaleceria.


REGRAS

"Pode isso, Arnaldo?"

Não acho que o Capitalismo ou a fome da FIFA pelo lucro interfira em alguma regra do futebol. Talvez, no máximo, teríamos uma modernização maior em termos de uso da tecnologia. Num mundo menos desigual, não haveria problemas de implementar chips, por exemplo, ou goleiras inteligentes em campeonatos disputados na África. É bem provável que a adesão por auxílios tecnológicos fosse maior, o que no mundo de hoje é algo bem discutível e que esbarra numa restrição bastante contestada por parte da FIFA. Talvez o bandeirinha finalmente seja substituído por um robô.


COPA DO MUNDO

Imagina na Copa!
 
Acho que uma competição entre clubes tomaria o lugar da Copa do Mundo entre nações. Assim, teríamos um sistema semelhante ao que vemos em competições nacionais: Primeira Divisão, Segunda Divisão, Terceira Divisão... Mas dessa vez seria a nível global!

E qual seria o número ideal para clubes na Primeira Divisão, a elite do futebol mundial? Penso que 20 seria uma boa quantia. É o mesmo número seleto de clubes que temos hoje no Campeonato Brasileiro, no Espanhol, no Italiano, no Inglês...
Para estruturar bem a competição, uma boa opção seria dividir os 20 clubes em quatro grupos de cinco. Essa divisão seria determinada por sorteio. Dentro dos grupos, os clubes jogariam entre si em jogos de ida-e-volta, ou seja, cada clube disputaria um total de oito jogos na primeira fase.
Apenas os dois primeiros colocados de cada grupo garantiriam vaga para as quartas-de-final. O último colocado de cada chave seria rebaixado para a Segunda Divisão. Nas quartas e nas semi-finais teríamos novamente confrontos de ida-e-volta. A final, porém, seria realizada em um jogo único, ao estilo Liga dos Campeões, com toda a pinta de “Super Bowl”. O local do confronto seria pré-determinado antes do início da competição.
Seguindo esse modelo, os clubes finalistas teriam que encarar um total de 13 partidas na competição. É o número de semanas de uma estação do ano (ou o número de episódios de uma temporada de seriado). Isso significa que o torneio poderia ser disputado numa única temporada anual. Dessa forma, cada clube disputaria no máximo um jogo por semana, engrandecendo a exclusividade de cada confronto.
O campeonato seria anual. Ao invés da Copa do Mundo da FIFA, que acontece a cada quatro anos, esta seria de quatro em quatro estações.
Simulei um sorteio de grupos no qual teríamos os vinte principais times do mundo disputando o torneio. Adotei como critério os dez times de maior torcida no mundo, seguindo daqueles que possuem maior número de fãs no Facebook. A formação dos grupos ficou assim:




Acredito que a primavera do hemisfério norte seria uma boa época para a disputa do torneio (nem tão quente e nem tão frio para os times de ambos os continentes). Ou seja, a competição iniciaria em meados de 21 de março, encerrando-se aos 21 dias do mês de junho. O restante do ano poderia ser dedicado a amistosos e competições menores.
Digamos que, no ano de 2045, o torneio comece em 24/3 (sexta-feira) e termine num domingo, 25/6.

O Flamengo, da maior torcida do mundo, teria muitos adeptos jogando por "amor à camisa".
 

Séries B, C e D

Diferente da “Série A”, a Segunda Divisão poderia ser menos “escassa” e ter 40 times, ao invés de 20. Os quatro melhores desses 40 garantiriam acesso à Primeira Divisão do ano seguinte. Já os oito piores (para manter 1/5 da totalidade) despencariam para a Série C.
Pra seguir o padrão, poderíamos fazer uma série C com um total de 60 equipes: sobem oito e caem doze. Já na Série D, você já deve estar imaginando, teríamos 80 clubes: sobem doze, caem dezesseis.
Repare que, somando as séries A, B, C e D já temos um total de 200 clubes!
Os dezesseis piores colocados da Série D seriam substituídos, no ano seguinte, pelos dezesseis melhores “desabrigados” (equipes fora do “Top 200”) colocados no Ranking. Esse Ranking envolveria todos os clubes do mundo e seguiria um critério coerente de pontuação (ou seja, bem diferente do atual Ranking da FIFA).

40 Clubes da Série B: Sevilla, Wolfsburg, Internacional, Atlético Madrid, Napoli, Villarreal, Fiorentina, Athletic de Bilbao, Porto, Valencia, Borussia Dortmund, Santos, Dynamo Kyiv, PSG, Jeonbuk Motors, Atlético Mineiro, Zenit, Seoul, Sporting CP, Borussia M'gladbach, Al Hilal, Monaco, Suwon Bluewings, Grêmio, Bayer Leverkusen, Santa Fé, Palmeiras, Dnipro Dnipropetrovsk, Cruzeiro, Seongnam, Lazio, Shakhtar Donetsk, Benfica, Liverpool, Al Ahly, Racing Club, Atlético PR, Roma, Schalke e Tigres-MEX.

60 Clubes da Série C: Tottenham Hotspur, Club Brugge, Sporting Braga, Guangzhou Evergrande, Sport Recife, Fluminense, Al Ahli, Ajax, Gamba Osaka, Chapecoense, San Lorenzo, Pohang Steelers, Torino, Estudiantes, Huracán, Krasnodar, Internazionale, CSKA Moskva, Al Nassr, Basel, Espanyol, Celta de Vigo, Independiente, Saint-Étienne, Everton, Incheon United, PSV, Olympiakos Piraeus, Garaní-PAR, Ulsan, Ponte Preta, Rosario Central, Southampton, Jeonnam Dragons, Smouha, Leicester City, Figueirense, Vasco da Gama, Lanús, Real Sociedad, Gent, Stoke City, Deportivo La Coruña, Anderlecht, Jeju United, Zorya, Partizan, Rayo Vallecano, Crystal Palace, Rapid Wien, Guingamp, Coritiba, Ismaily, Legia Warszawa, West Bromwich Albion, Nacional-POR, Málaga, Mainz 05.

80 Clubes da Série D: Hertha BSC, Banfield, Augsburg, Hamburgo, Belgrano, Avaí, Belenenses, Olympique Marseille, Köln, Atlético Nacional, Sparta Praga, Swansea City, Kashiwa Reysol, Werder Bremen, Olympique Lyonnais, Querétaro, Libertad, Santos Laguna, Rio Ave, Bordeaux, Al Ittihad (SAU), Pachuca, AZ, Goiás, Eibar, Lokomotiv Moskova, Sassuolo, Feyenoord, Rubin Kazan, Al Mokawloon, Getafe, Dinamo Moskova, Celtic, Slovan Liberec, West Ham United, Bastia, Beijing Guoan, Atlas, Al Ahli, Viktoria Plzen, Rosenborg, Lille, Al Ittihad (EGI), Lech, Poznan, Sampdoria, Chievo, Vorskla, Gwangju, Gimnasia La Plata, Sion, Hoffenheim, Levante, Herediano, Vitesse, Al Merreikh, Astra, Quilmes, Tigre, TP Mazembe, Panathinaikos, Tencín, Granada, Salzburg, Genoa, Midtjylland, Petrojet, Caen, Molde, Empoli, Marítimo, Eintracht Frankfurt, Aldosivi, PAOK, Rostov, Veracruz, El Daklyeh, Atalanta, Groningen.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

UBI x EBR



Recentemente, bati um papo com o futurista italiano Federico Pistono, que esteve em Porto Alegre no início de setembro. Tinha algumas perguntas na ponta da língua pra fazer a ele e, felizmente, foi possível conversarmos numa boa. Fiquei surpreso com sua paciência, atenção e entusiasmo ao falar sobre o assunto.

Jacque Fresco e Federico Pistono em 2010.

Pistono é um importante membro do Movimento Zeitgeist, o mesmo que tornou o Venus Project conhecido pra muita gente (eu, inclusive). Ele também tem passagem pela Singularity University e circula no meio de bacanas como Peter Diamandis, Ray Kurzweil e Elon Musk.

No ombro do Bozo!

Seu livro “Robots will steal your job, but that’s okay” já foi citado várias vezes nesse blog e é também um feroz defensor daquilo que o TVP tanto argumenta: ninguém deveria trabalhar no que não gosta; ninguém deveria ser escravizado pelo sistema; ninguém deveria depender do dinheiro/trabalho pra sobreviver. O mesmo livro chegou a ser citado e recomendado pelo CEO do Google, Larry Page.
Contudo, Pistono simplesmente parou de falar no TVP de uns tempos pra cá. Em seu livro não há nenhuma menção ao projeto, nem ao Jacque Fresco e nem mesmo a algo que sugira uma Economia Baseada em Recursos. Essa era a principal dúvida que eu tinha pra tirar com ele: “Por que?” Se ele conhece o TVP e até admira as ideias do Jacque Fresco (acho que AQUI isso fica bem claro), por que não o mencionou nenhuma vez em seu livro, sendo que são dois assuntos que se complementam?
Bom... no Congresso da ADVB, Pistono sugeriu o tal da UBI (Unconditional Basic Income) como uma das grandes soluções para sobrevivermos à automação que está crescendo em uma escala assustadoramente exponencial. Já falei sobre isso em outro post: é uma espécie de “subsídio que custeia plenamente a vida de uma pessoa, de forma que ela possa sobreviver sem a necessidade de ter um trabalho e rentabilidade financeira.”

Bolsa Família chique

O que os anti-assistencialismo que desdenham o Bolsa Família diriam da UBI?

Quando eu ouvi falar pela primeira vez de algo do tipo, a associação com um presságio de EBR foi inevitável. Lógico que temos algumas diferenças aqui: numa EBR, a necessidade do dinheiro deixaria de existir por completo e o Capitalismo naturalmente perderia o sentido. Numa UBI, o Capitalismo continua existindo, bem como o incentivo ao consumismo, a busca pelo lucro, as hierarquias sociais... Ainda assim, eu continuo vendo a UBI (não confundir com UBER) como uma espécie de “meio termo” entre o Capitalismo dos dias atuais com uma eminente EBR. Um processo de transição, talvez.
Ao responder a pergunta sobre o TVP, Pistono disse que considera o Jacque Fresco um excelente engenheiro, um talentoso arquiteto e um senhor de ideias muito louváveis. Mas acaba por aí. Em termos práticos, tudo o que ele já fez foram belas maquetes, as mesmas que ele vem apresentando ao Larry King e ao mundo desde os anos 1970. Mas maquetes e desenhos pertencem ao mundo das ideias. Cientistas de verdade não trabalham só com ideias. Cientistas e os verdadeiros protagonistas da mudança são aquelas pessoas que, parafraseando o Tiago Mattos, vão lá e fazem. Nesse ponto eu até concordo com o Pistono.
Em termos práticos, os trabalhos do Jacque Fresco nunca chegaram a impactar diretamente a sua vida ou a minha, certo? Apesar dele já ter trabalhado como engenheiro na época em que nossos pais sequer tinham nascido (afinal, são 99 primaveras nas costas), as grandes obras do TVP só existem em forma de maquete. É como se fosse um “John Lennon” cantando Imagine (exemplo que peguei emprestado do meu colega Pedro Becker). Um artista.

TVP: nada mais do que belas maquetes?
 
Ok... apesar de pagar pau pras maquetes do TVP e reconhecer que o trabalho de designer do Fresco também é “VLEF”, reconheço que falta uma dose de prática pra coisa realmente ganhar vida. Foi por isso que eu perguntei ao Pistono: “Como é que figurões como Peter Diamandis, Ray Kurzweil, ou Larry Page ou Elon Musk nunca ouviram falar do Venus Project? Como é que ninguém nunca apresentou um ao outro? Seria o encaixe perfeito! Já pensou se o Google, ou a Space X, ou a Tesla, ou a X Prize resolvem abraçar o TVP e começar a botar o projeto na prática?”

Vai lá e faz, porra!


Se eu fosse você

Já tive a oportunidade de conversar pessoalmente com JacqueFresco e Roxanne Meadows,  perguntei a eles sobre o Ray Kurzweil e sobre o que eles pensam sobre a Singularidade. Fresco já conhecia as ideias do Kurzweil, mas discorda em vários pontos (com a própria ideia de imortalidade, inclusive). Falou também que sua visão é meramente tecnológica e que há pouca preocupação social. Roxanne diz que Kurzweil imagina um mundo com dinheiro e que isso é um problema.


Fresco e eu em abril de 2014.

Por outro lado, Kurzweil e Diamandis provavelmente nunca ouviram falar do Jacque Fresco ou do TVP (eis a prova). Detalhe: Peter Diamandis escreveu um excelente livro sobre Abundância no qual fala sobre exatamente as mesmas coisas que o Fresco defende: um mundo com recursos suficientes pra eliminar o principal problema do mundo: a escassez (de saúde, de educação, de alimento, de água, de energia, de agasalho, de tudo!). São duas ideias que se complementam perfeitamente, mas que não se conhecem!
Quando falei isso pro Pistono, ele me lançou o seguinte desafio: “Ok, então! Vamos fazer de conta que você é o Federico Piscoto e eu sou o Peter Diamandis. Eu converso com ele toda semana, somos bons amigos, logo não haveria problemas pra eu pedir para que ele conhecesse melhor as ideias do Venus Project. Agora tente me convencer disso.” Confesso que me senti bloqueado naquele momento, pois fiquei sem ter o que falar. Ainda assim, argumentei que o Venus Project e a ideia de promover a abundância têm muita coisa em comum e que as cidades inteligentes projetadas pelo Fresco se encaixariam perfeitamente nesse sistema. Pistono (interpretando o Diamandis), contudo, disse: “Tá, ok. Eu diariamente recebo várias ideias pró-abundância. Na Singularity University há pessoas de todo lugar do mundo inteiramente dedicadas a isso. O que essa sua ideia tem de tão especial?”. Tentei argumentar que o Jacque Fresco possui uma boa experiência de causa, dado o fato de ter presenciado a Crise de 1929, de ter vivido duas guerras mundiais e de ter dedicado uma vida inteira (uma longa vida) a isso. Veja bem: não estou propondo uma sociedade entre ambos, apenas sugerindo uma referência a nível de curiosidade.
Senti que havia uma certa birra do Pistono com relação ao TVP. Perguntei, na cara dura, se tinha a ver com o divórcio com o TZM, que ocorrera em 2012. Suas respostas, contudo, dificilmente eram precisas e diretas.

Eu estou envergonhado?

Meu colega Pedro Becker acompanhou de perto a conversa e até trocou uma ideia comigo dias depois. Fiquei surpreso ao saber que ele já conhecia o Venus Project antes mesmo de fazer o Tomorrow. Pedro disse que, pela sua percepção, o Pistono já deixou de lado essa vibe mais “ativista” e está mais focado em participar de forma influente como cientista ou Google Advisor. “Eu cheguei a dizer a ele que o conhecia por causa do Movimento Zeitgeist, e percebi que ele não esboçou nenhum contentamento.”
Pedro Becker participou do debate.

Conversando com o Pedro, levantamos a questão de que o Pistono possa estar tentando desvincular sua imagem a movimentos como o TZM. Esse tipo de associação, sabemos, pode confundi-lo com anarquista, marxista, ativista, "neo hippie"... Não pega bem para um cientista chancelado pelo Google. Sua atitude de defender a UBI já é suficientemente polêmica por si só (principalmente para aqueles que a comparam com um Bolsa Família ou incentivo à vagabundagem).
Quando perguntei ao Pistono se a UBI poderia ser considerada um “meio termo” entre Capitalismo e Singularidade, ele também não foi direto na resposta. Disse que a UBI, caso consolidada, levaria um bom tempo e poderia ressignificar muita coisa, inclusive a EBR. Poderia ser uma transição para uma EBR, sim, como poderia ser a transição para qualquer outro tipo de sistema. O cenário “pós-UBI” é imprevisível.

Ainda assim, eu apoio a UBI justamente por continuar enxergando nela uma ponte muito nítida entre o sistema atual e a EBR.

Tercerizando opiniões

Além do Pedro Becker, outras três pessoas me ajudaram a digerir esse assunto: o Gustavo Nogueira, que também participou da conversa com o Pistono e fez excelentes observações;  o Willian Ceolin, que está na Holanda cursando graduação em Inteligência Artificial e; o vlogueiro especialista Leandro Zayd, profundo conhecedor do assunto.

Ceolin largou tudo no Brasil pra estudar I.A. em Groningen, na Holanda.

O Ceolin disse que concorda com o Pistono quando ele diz que falta “VLEF” pro pessoal do Venus Project. As ideias e a visão de mundo são as melhores já vistas (pelo menos por nós), mas somente boas ideias não bastam. Diferente do Jacque Fresco, pessoas como Larry Page, Mark Zuckerberg e Tesla “foram lá e fizeram” algo que os tornaram mundialmente famosos (não que a fama seja a maior das recompensas). Essas pessoas sim fizeram algo que mudou consideravelmente a vida da maioria dos terráqueos (direta ou indiretamente).

Leandro Zayd se fantasia feito louco pra falar sobre assuntos sérios.

Já o Leandro Zayd foi direto ao apontar o que ele vê como solução entre a teoria e a prática. Os Ecopolos, segundo ele, são o caminho. “Lá se empreende. Mas a posse é coletiva pra se automatizar, eliminando os próprios trabalhos. A renda básica também é outra medida boa.” Só que os Ecopolos não são exatamente uma “filial” do Venus Project, uma vez que o próprio TVP não os reconhece como tal. Para o Zayd, falta uma visão mais “Open Source” ao TVP, que se mostra centralizador demais para o que propõe. Talvez essa falta de “Open Source” e jogo de cintura seja um dos maiores impedimentos para que o projeto ganhe a expansão que merece. “Falta um pouco de humildade ao pessoal do Venus Project nesse ponto”, disse Zayd, “senão vão continuar apenas fazendo docs que mal conseguem ter mais visualização que o meu canal”.

Zayd aponta os Ecopolos como solução prática e imediata.

Pra onde correr?

Uma das coisas mais legais do TVP é que, apesar de não haver nenhuma influência prática realmente impactante no mundo (diferente do Google, da Tesla, do Facebook ou do Linux), eles disseminaram uma ideia bem interessante que já mudou a mentalidade de muita gente (a minha, inclusive). É bem verdade que essa ideia já tinha sido disseminada pelo Zeitgeist, mas este sim é totalmente situado no mundo das ideias (no meu ponto de vista).
Se não fosse as ideias do TVP terem fritado os meus neurônios, eu provavelmente nunca iria me interessar por futurismo, nem Singularidade, nem Transhumanismo... dificilmente tomaria conhecimento do Ray Kurzweil ou do Tiago Mattos, não teria conhecido a Perestroika, nem o Tomorrow, nem os amigos que fiz no Tomorrow... Ou seja, PRA MIM teve um importante impacto em termos de visão de mundo. Consequentemente, pessoas que conversam comigo e acabam sendo "contaminadas" pela minha visão de mundo também acabam sofrendo influências dessas mesmas ideias. Influências que podem mudar drasticamente suas vidas, diga-se de passagem. Ou seja, não é um conhecimento meramente teórico e inútil.
 

Mas concordo que a falta do VLEF pode tirar a credibilidade da mais bela das teorias. Portanto, chega de teorizar e ficar confabulando. Hora de arregaçar as mangas e ir pra prática!
O que temos que fazer PRA HOJE? Ecopolos? Startups? Gibi? Vlog? Tirinhas? Um podcast? Filhos? Comer todo mundo e depois ir embora? Churrasquinho de boa?

Aceito sugestões! ^^

LINKS:

Programa de Ecopolos da Cooperativa Equilibrium: http://equilibrium.org.br/portal/ecopolos

Singularity University: http://singularityu.org
The Venus Project: www.thevenusproject.com
Site do Federico Pistono: http://federicopistono.org
Singulariyu Hub: http://singularityhub.com
Leandro Zayd no Diáspora: https://despora.de/people/83e19de22ddae274
Bate-papo com Leandro Zayd na Unisc: https://www.youtube.com/watch?v=QaFVXoCrYM8