O corpo humano é um bagulho muito louco, né? Aliás, não só o humano: dos mamíferos, dos vertebrados, dos artrópodes, das plantas, dos fungos… Mas por que esse papo agora, né? Do nada! E por que o corpo é tão louco (e tão fascinante)?
Contextualizando: o corpo humano (tipo esse aí que você está usando) é formado por 10 trilhões de células que trabalham de maneira integrada. Funcionam como uma espécie de "sociedade", 125 vezes mais populosa do que o planeta Terra. Cada um desses trilhões de habitantes possui uma função específica: nutrição, proteção, produção de energia ou reprodução.
Essa comparação das células com "cidadãos" é a premissa do anime Hataraku Saibou (Cells at Work!), série de 13 episódios que está disponível no catálogo do Netflix. A estória se passa dentro de um corpo humano, retratado como um grande complexo residencial e industrial, no qual as células são didaticamente apresentadas em formas humanizadas. A trama gira em torno do trabalho interminável de manter um organismo vivo e saudável, com toda uma logística industrial e cargas que são transportadas pelas células, além de eventuais invasões de bactérias ou vírus que são combatidos pelos heróicos anticorpos em batalhas sangrentas no melhor estilo shōnen, tão apreciado pelos fãs de Dragon Ball, Cavaleiros, One Piece... Só de sacar essa premissa já fica claro que o anime é uma forma bem didática e divertida de explicar conceitos ligados a biologia e medicina, né? Se bem que não chega a ser uma grande novidade, já que obras como Ozzy e Drix (2002) e até Viagem Fantástica (1966) já se utilizaram do entretenimento para contextualizar o corpo humano comparando-o com uma “sociedade”. No campo da Psicologia, o filme Divertida Mente (2015) também cumpre lindamente essa proposta.
E se o corpo humano funciona como uma espécie de sociedade, onde os diferentes trabalhos, aptidões e designações se correlacionam em prol de um funcionamento macro, nada nos impede de analisarmos, antropologicamente, as causas, consequências e “fenômenos sociais” desse planeta geralmente flácido, úmido e quente, que pesa algumas dezenas de quilos e tem algo entre 1,50m e 2m de altura (me desculpe se o seu estiver fora de algum desses padrões). Cerca de 70% desse planeta é formado por água, assim como a Terra, o planeta mais conhecido do mundo.
Uma comida apimentada que não lhe cai bem pode provocar reações indesejadas no seu sistema digestivo, que podem resultar numa péssima noite de sono, responsável por uma incômoda dor de cabeça e até num torcicolo. Isso é como a safra de arroz impactando no agronegócio e, consequentemente, na economia, na alta do dólar, nas importações de eletrodomésticos e no comércio de smartphones. Ou seja, uma comida apimentada demais pode resultar num improvável torcicolo da mesma forma que o cultivo de arroz pode ter a ver com a venda de smartphones.
Existem várias maneiras do nosso corpo reagir a elementos externos e isso acontece o tempo inteiro: comendo algo (apimentado ou não), respirando, bebendo, dormindo, passando frio ou calor, exercitando-se, drogando-se, higienizando-se, sujando-se, encostando em outras pessoas… tudo isso interfere, de alguma maneira, mínima que seja, no funcionamento do nosso organismo. No texto “You’re Welcome, Prince George!”, eu utilizei a “teoria dos seis graus de separação” (o número “seis” é aleatório e irrelevante aqui) para defender a ideia de que você, possivelmente, teve uma influência muito indireta (mas MUITO indireta mesmo) na precisão biológica do casal William e Kate no dia em que conceberam o futuro Rei da Inglaterra, lá no último trimestre de 2012 (George acabou nascendo em julho de 2013). Essa “precisão biológica” é de, pelo menos, 1 em 300 milhões de resultados possíveis (aqui considerando apenas o número de espermatozóides ejaculados). Incontáveis fatores externos ocorridos anteriormente e sem aparente correlação com o ato da concepção do casal podem ser considerados irrelevantes mas, se extraídos da equação de causa-e-consequência do Efeito Borboleta, podem gerar um resultado bem diferente.
Acontece que, quando se fala em reações do corpo humano a elementos externos, a “teoria dos seis graus de separação” não se limita apenas a contato físico (como apertos de mão), registro fotográfico ou conhecimento mútuo entre uma pessoa e seu “grau vizinho” (acredito que sejam esses os critérios comumente considerados na hora de estruturar um diagrama de “graus de separação”). Normalmente, esse diagrama só serve como curiosidade (uma brincadeira que eu, particularmente, acho bem divertida). Quando se fala em reações biológicas, os fatores externos podem ser qualquer coisa que altere a nossa frequência cardíaca, por exemplo. E isso merece uma atenção especial a partir de agora.
Na sintonia da emoção, de coração pra coração
Não é nem um pouco difícil você alterar a frequência cardíaca de alguém. Você pode dar um susto ou provocar reações como riso, raiva, tristeza, nojo, atração… Se você for uma pessoa linda demais (ou feia demais), basta ser vista por essa pessoa (nem que seja no meio de uma multidão) e, pronto, o estrago está feito: você alterou a frequência cardíaca dessa pobre pessoa de 80 bpm para 85 bpm. Pode parecer algo insignificante, né? Bem longe de ser uma taquicardia (algo acima de 100 bpm) que uma pessoa bonita de verdade causaria (só pra você não ficar se achando, tá?). Mas, ainda assim, essa “pequena” alteração na frequência cardíaca que você provocou na pessoa que acabou de te ver no meio da multidão fez uma pequena diferença no bombeamento do sangue, no fluxo de glóbulos vermelhos e, bom, aí você já pode imaginar que, para os personagens de “Cells at Work”, essa pequena alteração nos batimentos cardíacos não é tão insignificante assim. Não numa escala microscópica desse planeta habitado pelas células. Seria como dizer para um agricultor, de uma pequena fazenda, que um dia seco e um dia de chuva fina “dão na mesma”: para o ecossistema terrestre, realmente tanto faz mas, para a produtividade do nosso amigo agricultor, pode fazer toda a diferença. É tudo uma questão de “escala”.
Pois o nosso corpo, habitado por 10 trilhões de células, está cheio desses humildes “agricultores de pequenas fazendas”, que são vulneráveis e dependem demais do nosso fluxo sanguíneo, aqui comparado com as condições climáticas que afetam o solo. Supondo que algumas dessas trilhões de células fossem “jornalistas”, é bem provável que os índices de alta e baixa do fluxo sanguíneo fossem acompanhados diariamente aos mesmos moldes da previsão do tempo, a alta do dólar ou a cotação do bitcoin (e, mais recentemente, as mortes causadas pelo Coronga). A gente teria a “Maju Coutinho” na bancada do “Jornal Corporal” informando a população de glóbulos vermelhos sobre as previsões de máximas e mínimas do fluxo sanguíneo.
Assim como nós, terráqueos, temos o Sol nos provendo energia e a existência do planeta como o conhecemos, as células do nosso corpo têm o nosso coração que garante o funcionamento do mesmo. Logo, não é nenhum exagero e nem cafonice dizer que “o Sol é o coração do sistema solar” (quer dizer, é meio cafona sim, sejamos sinceros). Acontece que esse nosso “sol” pulsante (o coração) é altamente suscetível às emoções externas que absorvemos a cada instante. Não por acaso, o coração é tão associado ao “sentimento”. E um prato cheio para compositores, poetas e piegas enrustidos.
Essa suscetibilidade (eita palavrinha chata) é o que faz as emoções externas serem tão singulares para a nossa circulação e, claro, para o nosso organismo. E emoções externas podem ser tanto uma taquicardia causada por um orgasmo (ou durante um assalto) como aquele sorrisinho no canto da boca que você dá enquanto zapear o Whatsapp (ou vendo um filme de comédia ruim). Ambas as emoções afetam o seu fluxo sanguíneo. Em níveis diferentes, claro, mas afetam.
O coração da Borboleta
Assim como a Teoria do Caos sugere que o bater de asas de uma borboleta pode causar uma tempestade no outro lado do mundo, uma leve acelerada nos batimentos cardíacos pode fazer uma diferença enorme no organismo de um ser vivo. Diferença grande a ponto de influenciar na “sperm race” de um casal prestes a conceber uma vida. Veja bem: tenha sempre em mente que estamos falando de uma escala microscópica e que temos dezenas de trilhões de células agindo de maneira interligada. Qualquer mudança despercebida, em qualquer época do passado, tem uma importância decisiva. É como arrancar uma peça do dominó. É como voltar no tempo e impedir a concepção do avô da tataravó do cara que apresentou seu bisavô para a sua bisavó. Você nem sabe que essa pessoa já existiu, mas só está aqui, neste mundo, porque ela um dia nasceu e seguiu a vida que teve. Aliás, quanto mais pro passado você for, maior a chance de fazer um estrago paradoxal no Efeito Borboleta (Portanto, não volte no tempo!)
Entendendo isso, podemos assumir que qualquer emoção (por mais leve que seja) que os pais de Mark Zuckerberg tenham sentido na infância certamente afetou seus respectivos organismos e, respectivamente, a sperm race que acabou originando aquele Mark nascido em 14 de maio de 1984. Qualquer mudança naquela emoção (mais forte ou mais fraca) teria um impacto insignificante no desenvolvimento dos pais dele e não seria capaz de impedir o nascimento do pequeno Mark. Mas seria um Mark diferente, vindo de um outro espermatozóide, com outro DNA, outra personalidade, outras características e, possivelmente, outra relevância social. Talvez fosse uma menina. E um mundo sem esse Mark Zuckerberg tal qual o mundo inteiro conhece hoje, concordemos, seria muito diferente.
Ou seja, aquela emoção sem aparente importância que o pai ou a mãe do Zuckerberg teve em algum momento qualquer da infância pode, sim, ter influenciado o mundo como conhecemos hoje. E essa “emoção” pode ser a coisa mais inútil que possamos imaginar: pode ser ouvir o som de um vizinho desconhecido tossindo num sábado de manhã, lá no início dos anos 1960.
Assim como qualquer emoção sentida pelo casal William e Kate antes do último trimestre de 2012 pode, sim, ter influenciado na existência desse Príncipe George que hoje esbanja simpatia. A questão é: você já provocou algum tipo de emoção no Príncipe William ou na Kate Middleton (antes de 2012)? Vale qualquer coisa: uma troca de olhar, uma mensagem lida e ignorada no Whatsapp, um grito de longe… qualquer lapso de comunicação serve. E eles nem precisam saber de quem ou de onde veio. Ainda assim, me reservo o direito de acreditar que a resposta é “não”. Mas não precisa se achar pouco importante por causa disso, tá?
Diferente de você, uma pessoa mundialmente famosa tem muito mais chances de causar esse tipo de “emoção” num número enorme de pessoas. Basta aparecer num outdoor na Times Square, numa capa de revista ou num comercial de TV que várias pessoas terão algum tipo de reação ao ver esse seu rostinho bonito: encantamento; asco; talvez até te achem semelhante com alguém ou, mais provavelmente, indiferença (mas até a indiferença causa algum tipo de emoção mínima, mesmo que inconsciente). Dizem que somos submetidos a mais de 5 mil mensagens publicitárias por dia (nas mais diversas mídias), ou seja, obviamente não são todas que “fisgam” nossa atenção, mas são absorvidas por algum pedaço do nosso inconsciente e ocupam um espaço alheio à semântica. Algumas delas são até propositalmente subliminares.
Mas você não é famoso e possivelmente nunca foi visto num comercial do Super Bowl ou na capa da Times, certo? Então me diga: qual foi a coisa que você fez que mais gerou projeção e que atingiu o maior número de pessoas (seja direta ou indiretamente)? Vale algum texto que você tenha escrito e que foi lido por muitas pessoas. Vale a sua foto mais visualizada no Instagram. Vale uma aparição relâmpago em algum vídeo muito visualizado no Youtube. Vale aquelas coisas bagaceiras que você escrevia nas portas dos banheiros públicos. Vale as vezes em que você subiu num palco. Vale até a pessoa que você ajudou a ser famosa e que, essa sim, foi aplaudida e aceita por milhões. Pensa aí e me responde.
Aliás, só de fazer esse exercício de pensar em algo relevante que você já tenha feito deve ter dado uma certa acelerada no seu coração, fala a verdade! Se eu falar pra você pensar, agora, na pessoa que você mais ama, estarei provocando uma pequena aceleração no seu fluxo sanguíneo, uma nula mudança num futuro próximo mas, quem sabe, um grande acontecimento num futuro distante. A descobrir.
São tantas emoções!
Provocar emoções alheias é mais fácil e poderoso do que podemos imaginar. A pessoa que você está emocionando não precisa nem saber que você existe. E você nem precisa saber da existência dela. Isso pode acontecer das formas mais involuntárias possíveis, graças aos mais diversos tipos de “registros” que deixamos por aí, nesse nosso “rastro” chamado existência. Claro que existe uma diferença enorme entre esbarrar com um desconhecido num metrô lotado e fazer a pessoa que te ama soluçar de tanto chorar. Mas o objetivo desse texto não foi discutir a intensidade dessas emoções e sim o impacto indireto que ela causa no nosso sistema biológico, através dos batimentos cardíacos, do fluxo sanguíneo e do funcionamento coletivo das nossas células, que são como habitantes ativos de um planeta de 10 trilhões de habitantes.
Em síntese: todo tipo de “emoção”, por mais discreta e irrelevante que seja, tem lá sua importância e potencial transformador, principalmente se o “emocionado em questão” for uma pessoa que ainda vai gerar biologicamente alguém que irá mudar o mundo, direta ou indiretamente. Sim, quanto mais crianças e adolescentes você conseguir "emocionar", maiores as chances de estar transformando o futuro, mesmo que elas nem se lembrem de você.
Ou talvez até já tenha impactado indiretamente e nem sabe. Talvez existam crianças que só vieram a este mundo porque, um dia (que você nem lembra direito), você fez algo que chamou a atenção e emocionou os futuros pais dessas crianças (e eles também não lembram disso). Você nem sabe quem são esses pais e eles também nunca ouviram falar de você, mas aquele castelinho de areia que você deixou na praia chamou a atenção de um deles, deu uma aceleradinha de leve no coração, mudou a frequência cardíaca e, o resto, você já sabe.
Talvez um desses pais que você impactou "indiretamente" seja o pai do jogador Neymar, desde que você tenha "atingido" ele antes de abril~maio/1991 (considerando que o Menino Ney nasceu em fevereiro/1992). Será que existe uma chance disso ter acontecido?
Vamos deixar esse assunto para um próximo texto com divagações mirabolantes sobre o corpo humano, batimentos cardíacos, biologia, efeito borboleta, comunicação, o futuro da humanidade e relações de causa e efeito provocadas pelas emoções em seus mais diversos níveis de intensidade. Como diria o Rei Roberto Carlos: “se eu chorei ou se eu sorri, o importante é as emoções que eu vivi.” Esse assunto é um bagulho muito louco, né?
REFERÊNCIAS
Cells at Work! BABY - Novo mangá sobre o início da vida
http://nagado.blogspot.com/2019/10/cells-at-work-baby-novo-manga.html
Tendência minimalista: quando menos é mais
https://midiaria.com/design-e-branding/tendencia-minimalista-quando-menos-e-mais/
Valores da frequência cardíaca normal (batimentos por idade)
https://www.tuasaude.com/frequencia-cardiaca/
YOU'RE WELCOME, PRINCE GEORGE!
http://energiaespacial.blogspot.com/2019/10/youre-welcome-prince-george.html









