sábado, 12 de setembro de 2020

O PAI TÁ ON

Você pode ser corresponsável pelo nascimento do Menino Ney



Ele é, possivelmente, o brasileiro mais famoso do mundo na atualidade. Dono de uma fortuna de 95 milhões de euros, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016 e campeão da Champions League de 2015, Neymar Jr. é um dos melhores jogadores de futebol do planeta e possui mais de 140 milhões de seguidores no Instagram. É uma super celebridade! Goste dele ou não, você deve concordar que são pouquíssimas as pessoas deste planeta que não o conhecem. Ou que nunca tenham visto seu rosto alguma vez na vida, mesmo sem saber ligar o nome à pessoa.


Pois bem, escolhi o Adulto Ney como exemplo justamente pelo fato dele ser a maior celebridade brasileira a nível global dos últimos anos e por acreditar que a grande maioria das pessoas vivas hoje (e que ainda irão se reproduzir no futuro) ao menos sabem quem é o sujeito em questão. Se você leu e entendeu o texto “Causas e consequências em um planeta de 10 trilhões de habitantes”, acho que já sacou onde eu quero chegar.



E se você tem mais de 30 anos, são reais as chances de você ser corresponsável pela existência do principal futebolista brasileiro da última década, assim como existe uma possibilidade considerável de ser corresponsável pela existência do Príncipe George (com aquele DNA específico), graças a um enorme dominó de causa-e-consequência, aleatoriedade genética e Efeito Borboleta.


Para compreender isso, é preciso ter algo bem claro em mente: esse Neymar aí que todo mundo conhece e julga só existe porque, assim como todo ser humano que já nasceu, venceu uma corrida de 300 milhões de espermatozóides a caminho do óvulo. Uma corrida totalmente aleatória e impossível de planejar, com outras centenas de milhões de resultados possíveis. Se algum outro espermatozóide tivesse derrotado o Neymar naquela corrida, nós teríamos o surgimento de um outro Neymar, com outro DNA, outra personalidade, outras características e, possivelmente, menos talento com a bola, considerando que aptidão física (ou “talento”, se você preferir) tem muito do fator “genética” em jogo (assim como o ambiente de criação, claro). Poderia até ter nascido uma menina em vez de um menino (as chances eram de 50%) e aí, bom, tudo seria absolutamente diferente. Mesmo que a “Menina Ney” fosse igualmente talentosa como boleira, o máximo que teríamos seria uma “Nova Marta” nesse mundo que, infeliz e injustamente, ainda é muito desigual em alguns aspectos (olha o “feministo” falando). Não seria tão famosa quanto o Neymar que hoje todos conhecemos.



Esse Neymar Jr aí, com esse DNA específico, é um “acidente” decorrente do acaso. Todos nós somos! E ele só nasceu com esse DNA porque seus pais deram uma bimbada naquele dia X, naquele horário, naquelas condições climáticas, naquela posição específica e toda uma infinidade de detalhes. A condição física e o organismo do Sr. Neymar (pai) e da Sr.ª Nadine (mãe), claro, também tiveram muita influência sobre o resultado final dessa corrida. E quando falo do organismo de ambos, estou falando de um “planeta” com dezenas de trilhões de células (300 milhões delas são os espermatozóides reprodutores). É uma escala microscópica.


Logo, quando se fala em escala microscópica, qualquer fator externo pode fazer toda diferença nessa “corrida” com, pelo menos, 300 milhões de resultados possíveis e com chances igualitárias de fecundação. Desde uma interferência mínima (uma alteração no fluxo sanguíneo, ou nos batimentos cardíacos, ou uma contaminação de microrganismos causada por um aperto de mão) a uma máxima (uma mudança de hábitos ou algum medicamento porreta). Independente da intensidade, tudo interfere!




Significa que aquela teoria dos seis graus de separação que eu usei no texto sobre o Príncipe George se encaixa também nesse exemplo do Neymar. E para ilustrar esse exemplo, vou utilizar os próximos para apresentar um caso real e mostrar como eu posso, sim, ter tido uma influência indireta (bem indireta) no nascimento do maior craque brasileiros da atualidade:



DO MENINO SEIDEL AO ADULTO NEY


Eu nasci em Porto Alegre no dia 5 de abril de 1985, mas me mudei para a cidade de Santa Cruz no final de 1987. Durante o primeiro semestre de 1988, eu morei com meus pais e meus dois irmãos mais novos num chalé localizado no Bairro Higienópolis. Bons tempos!



Meu pai, Gerson, era funcionário da Caixa e trabalhava em uma agência no centro da cidade. Na verdade, ele foi transferido para Santa Cruz depois que o Banco Nacional da Habitação (BNH) de Porto Alegre, onde ele trabalhava, foi incorporado pela Caixa. Como funcionário da Caixa, ele tinha uma colega chamada Marilú Rech, na época casada com o Dr. Carlos Antônio da Luz Rech, cardiologista e torcedor fanático do Futebol Clube Santa Cruz, um dos dois times de futebol profissional da cidade (o outro é o Esporte Clube Avenida, que durante anos foi presidido pelo meu vô). Aliás, ele era mais do que torcedor: era membro da diretoria e conselheiro do clube, que na época era presidido pelo Sr. Irineu Roesch. Obviamente, ele tinha contato direto com a comissão técnica e com os jogadores do time.



Acontece que, naquele ano de 1988, o FC Santa Cruz (popularmente chamado de “Galo”) teve a melhor campanha da sua história no Campeonato Gaúcho, chegando a um respeitável 4º lugar. O certame daquele ano foi decidido numa espécie de “hexagonal final” e teve ainda times como Grêmio, Internacional, Pelotas, Juventude e Caxias. 


No dia 11 de junho, um sábado, o time do Galo recebeu no estádio dos Plátanos, em Santa Cruz, o time do Internacional, um dos favoritos ao título. Quem estava em campo naquela partida, além dos jogadores do Galo, era o mesmo time do Inter que, oito meses depois, disputaria a final do Campeonato Brasileiro. O time colorado era formado por nomes consagrados como Taffarel; Luiz Carlos Winck, Aloísio, Nenê e Casemiro; Norberto, Luís Carlos Martins, Luís Fernando e Glauco (Balalo); Hêyder e Amarildo (Maurício).



Era basicamente o mesmo time que disputou a final do Campeonato Brasileiro de 1988, contra o Bahia, em fevereiro de 1989: Taffarel*; Luiz Carlos Winck*, Aguirregaray, Norton e Casemiro*; Norberto*, Luis Fernando* e Luís Carlos Martins*; Maurício* (Heider*), Nílson e Edu. O técnico era Abel Braga.

(*) sete jogadores que estiveram em campo tanto no jogo contra o Galo em 11/6/1988 como na final contra o Bahia em 19/2/1989.



A final decidida por Inter e Bahia naquela tarde de fevereiro também tinha, além dos 22 jogadores, um personagem central dessa nossa história: o árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia. Foi um dos juízes mais polêmicos e conhecidos daquela época. Famoso por seu jeito enérgico e disciplinador, chegou até a surrar um torcedor que invadiu o campo para agredi-lo (curiosamente, outra partida entre Bahia e Inter pelo Campeonato Brasileiro, de 1987). Figuraça!



O mesmo Dulcídio, semanas depois de ter apitado aquela final do Brasileiro, entrou em campo para apitar um jogo entre dois times sem muita expressão do futebol paulista: Jabaquara (da série B-1) e Mogi das Cruzes (série A-3). Em campo, representando o time do Jabaquara, estava um tremendo perna de pau que ainda viria a se tornar milionário graças ao futebol: Neymar (o pai, claro).


“Fiz quatro bons jogos pelo Jabuca. Um deles foi contra o União de Mogi das Cruzes, que estava na Série A-3, o que, na época, era a terceira divisão do futebol paulista. O Jabaquara estava na quarta divisão estadual, na série B-1, uma série abaixo da A-3. Mais um motivo para eu me esforçar e mostrar serviço. Nesse amistoso, fui bem… tão bem que o árbitro do jogo, o célebre Dulcídio Wanderley Boschilia, me indicou aos dirigentes do União de Mogi.”


Esse trecho é um depoimento do próprio Neymar Pai no livro “Neymar – Conversa entre pai e filho” (São Paulo: Universo dos Livros, 2013), escrito pelos jornalistas Ivan Moré e Mauro Beting. Foi um divisor de águas na vida dele, de acordo com o relato registrado nesse livro. A indicação logo resultou na contratação do mecânico que até então jogava mais por hobby do que por profissão. Como atleta do Mogi, ele ganhou grana suficiente para comprar uma casa para os seu pai na baixada santista. E foi na cidade de Mogi das Cruzes que ele e sua esposa Nadine tiveram seu primeiro filho: o menino Ney (sim, o próprio).



Neymar (pai) acabou não indo muito longe na carreira de jogador e se aposentou como atleta aos 32 anos. A história do futebol brasileiro, contudo, ainda seria reescrita pelo menino que ele estava criando dentro de casa.



GRAUS DE SEPARAÇÃO


Temos oito graus de separação nessa história contada acima, que foi de junho de 1988 a fevereiro de 1992: Eu > Gerson Seidel (meu pai) > Marilú Rech (colega do meu pai) > Dr. Carlos Rech (então marido da Marilú) > jogadores do FC Santa Cruz > jogadores do Inter > o árbitro Dulcídio Wanderley Boschilla > Neymar (pai) > Neymar Jr. Não interessa quantos graus de separação existam, desde que essa linha do tempo não retroceda (exemplo: se esse contato do Dulcídio com o Neymar Pai tivesse ocorrido antes da final entre Inter e Bahia, esse raciocínio perderia o sentido).



Com apenas três anos de idade naquela época, eu influenciava diariamente a rotina e os hábitos do meu pai (por motivos óbvios). Meu pai, por sua vez, dividia o mesmo local de trabalho que a sua colega Marilú, que dividia o teto de casa com o Dr. Carlos Rech. O cardiologista era um membro influente da diretoria do FC Santa Cruz, que enfrentou o Inter em junho de 1988. O mesmo time do Inter enfrentou o Bahia na final do campeonato brasileiro meses depois, numa partida apitada pelo árbitro Dulcídio Wanderley Boschilla, que depois foi apitar um jogo no qual o pai do Neymar estava em campo. Isso interferiu (numa escala microscópica) no organismo do Neymar Pai. Organismo que nunca mais seria o mesmo e que, em meados de 1991, viria a engravidar a Dona Nadine em uma “sperm race” que teve um resultado decisivo para o futuro do futebol brasileiro.


São infinitos os fatores externos à concepção do Menino Ney que culminaram na especificação do seu DNA. Qualquer alteração faria toda a diferença. E uma dessas influências foi o contato que ele tivera com Dulcídio no primeiro trimestre de 1989, episódio que aconteceu entre a final do Brasileirão de 1988 e a ida do Neymar Pai para Mogi das Cruzes.



Uma outra forma de ilustrar esse exemplo, de forma hipotética, é a seguinte: se eu tivesse sido o “paciente zero” de algum “vírus” super contagioso (tipo o Corona, só que não letal e incurável), quais seriam as chances do Neymar Jr ter nascido com esse vírus? Altíssimas (bem como boa parte da população)!


Aliás, se você nasceu antes de 1991, também existem boas chances de ter influenciado no nascimento do Menino Ney. Basta se dar o trabalho de identificar alguma correlação tipo essa envolvendo eu, meu pai, o Dr. Carlos Rech, o time do Inter, o Dulcídio e o pai do jogador. Se você teve algum contato indireto com o pai ou com a mãe do Neymar Jr antes da concepção dele, sim, você pode ser um dos incontáveis culpados pelo atual cenário do futebol mundial.



O PESO DA CAMISA


Ter sido indiretamente (e bota indiretamente nisso) responsável pelo nascimento de uma das maiores celebridades da atualidade pode significar muita coisa: significa que você pode pedir uma grana emprestada com base nesses argumentos. Pode pedir um autógrafo ou uma foto com ele no aeroporto... Mentira! Você só pagaria de demente.



Mas significa que esse Neymar aí, que você vê praticamente todo dia na TV, ou na internet, ou no Instagram, ou na mídia, só existe porque você já era nascido antes de 1991 (ano em que ele foi concebido). A sua existência pode parecer irrelevante nessa equação, mas se considerarmos a escala microscópica que nossos gestos mais insignificantes têm no organismo das pessoas que se relacionam conosco (os chamados “graus de separação”), podemos, sim, considerar uma certa influência eficiente e indireta. Se não fosse pelo Bruno Seidel lá de 1988, um outro bebê teria saído da barriga da Dona Nadine naquele dia 5 de fevereiro de 1992. E esse Neymar Jr, que hoje faz chover no PSG, não existiria. O maior craque do futebol brasileiro seria algum outro jogador. Talvez o Gabriel Jesus, talvez o Philippe Coutinho, talvez o Firmino… Só observando um universo alternativo para sabermos (quem sabe um dia?)



A questão é que a Seleção Brasileira estaria muito mais pobre tecnicamente sem um grande camisa 10. E o “show business” seria bem diferente. Possivelmente haveria outros nomes para aquecer a indústria da propaganda e das celebridades, mas o fato é que seria diferente. A imagem do Neymar em incontáveis publicidades ou na mídia é algo que atinge praticamente todos habitantes do planeta, em todos os continentes, de todas as faixas etárias e classes sociais. Disso ninguém escapa.


E quando eu falo “ninguém” eu estou considerando todas as pessoas que ainda vão se reproduzir ou que tiveram filhos nascidos de 2014 pra cá. E digo 2014 porque foi o ano em que tivemos a Copa no Brasil, tendo o Neymar como principal jogador e todos holofotes do mundo em cima dele, principalmente quando aconteceu aquela lesão contra a Colômbia nas quartas-de-final, que o impediu de enfrentar a Alemanha na semifinal (e escapar do 7 a 1), gerando uma comoção nacional. Qualquer terráqueo (principalmente os brasileiros) conhecia o Neymar naquela época. E se você leu “Causas e consequências em um planeta de 10 trilhões de habitantes” já entendeu do que estou falando.



É seguro afirmar que todas as pessoas que nasceram depois de 2014 só nasceram como são (com seu respectivo DNA) por causa de uma infinidade de fatores (entre eles, o Neymar). E esse Neymar aí que conhecemos só tem esse DNA por uma inifidade de outros fatores (entre estes, a minha existência). Ou seja, todas as pessoas que nasceram de 2014 pra cá e as que ainda vão nascer são quem são por minha causa (no meio de zilhões de outros fatores), por causa dos meus pais, por causa do Dulcídio Wanderley Boschilla e por causa de qualquer pessoa que tenha tido alguma interferência nessa história aí.


Se alguma dessas pessoas que nasceu a partir de 2014 vier a utilizar algum “talento” para revolucionar o mundo algum dia (é bem provável que daqui a uns 20 anos já estarão revolucionando), sim, eu terei culpa nisso (em escala atômica, mas indispensável). Atenção: entenda “talento” como uma peculiaridade com alta probabilidade de influência genética, tal qual o talento de jogar futebol do Neymar Jr (algo que dificilmente contemplaria algum daqueles 300 milhões de espermatozóides que ele derrotou lá em 1991).



Importante também considerar que esse tipo de relação de causa-e-consequência precisa respeitar e obedecer a linha do tempo. A diferença de idade entre eu e o Neymar é de 6 anos e 1 mês (considerando a concepção dele e não o nascimento). Foram seis anos (1985-1991) para identificar um dominó envolvendo pessoas que me ligassem ao Neymar Pai antes dele engravidar a Dona Nadine. Se eu tivesse nascido, por exemplo, em 1990 (um ano antes), as chances seriam muito menores. E se eu tivesse nascido depois de 1992, então, esquece!



É impossível ser responsável por algo que aconteceu antes da gente ter nascido (a menos que você viva na série Dark). Mas são grandes as chances de você ser responsável (numa escala microscópica) pelo nascimento de qualquer pessoa que veio ao mundo nove meses depois da sua chegada. Uma vez no planeta e em contato com outros seres humanos, você naturalmente modifica o ambiente à sua volta, gera e compartilha microorganismos que se espalham e modificam organismos alheios (numa escala microscópica, mas modificam), como se fossem um vírus inofensivo, até finalmente interferirem na espermatogênese ou na sperm race que irá gerar a vida de alguém. Esse alguém possui um DNA único e pode ser um cidadão qualquer ou o brasileiro recordista de seguidores no Instagram, que também causará mutações no organismo de todos aqueles que já viram seu rosto alguma vez na vida. Até finalmente chegarmos no dia em que todas as pessoas biologicamente vivas no planeta tenham nascido depois de 2014 (lá pelo final do Século XXII, talvez). E aí você será indiretamente responsável por 100% da população terrestre. Tudo o que for acontecer na Terra sob influência humana a partir do Século XXIII terá uma parcela (atômica) de culpa sua.



Mas e aí, quais as chances de você ter sido corresponsável pelo nascimento do Menino Ney, de acordo com esse critério de graus de separação? E qual é a chance de ter influenciado o nascimento de outras pessoas mais novas do que você (o Príncipe George, Justin Bieber, Kylian Mbappé, Larissa Manoela, Maísa, Mário Jr…)? Considerando que somos todos um tremendo acidente, qual é a chance de você ter influenciado o nascimento de algum morcego ou de algum pangolim lá na China?



REFERÊNCIAS:


Histórias Incríveis: 'vaquinha' fez pai de Neymar ter dez donos

http://globoesporte.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/futebol/times/uniao-mogi/noticia/2013/02/historias-incriveis-vaquinha-fez-pai-de-neymar-ter-dez-donos.html 


MORÉ, Ivan; BETING, Mauro. Neymar. São Paulo: Universo dos Livros, 2013. 


Campeonato Gaúcho de 1988:

http://sumulas-tche.blogspot.com/2013/01/gauchao-1988.html 


https://sumulastche.wordpress.com/2014/01/18/fcsantacruz1988/


https://sumulastche.wordpress.com/2013/12/27/fc_santacruz/


SANTA CRUZ (RS) 0-0 INTERNACIONAL (RS)

Data: 11/06/1988 [Sábado]

Local: Plátanos, Santa Cruz do Sul, RS, BRA

Juiz: Carlos Sérgio da Rosa Martíns

SANTA CRUZ (RS): Casagrande; Martins, Clóvis, Gilmar e Rebechi; Luiz Carlos, Miro Oliveira, Mainardi e Áureo (Jadíl); Betinho e Omar (Beto).

INTERNACIONAL (RS): Taffarel; Luiz Carlos Winck, Aloísio, Nenê e Casemiro; Norberto, Luís Carlos Martins, Luís Fernando Flôres e Gláuco (Balalo); Hêyder e Amarildo (Maurício).

Cartão Amarelo: Mainardi, Betinho (Santa Cruz (RS)), Aloísio (Internacional (RS)


INTERNACIONAL (RS) 0-0 BAHIA (BA)

Campeonato Brasileiro - Copa União/1988 - Final

19/02/1989

Local: Beira-Rio (Porto Alegre-RS)

Árbitro: Dulcídio Wanderley Boschilia (SP)

Renda: NCz$ 57.304,00

Público: 79.598

Internacional: Taffarel, Luiz Carlos Winck, Aguirregaray, Norton e Casemiro; Norberto, Luís Carlos Martins e Luís Fernando Flores; Maurício (Hêider), Nílson e Edu Lima (Diego Aguirre). Técnico: Abel Braga.

Bahia: Ronaldo, Tarantini, João Marcelo, Claudir (Newmar) e Paulo Róbson; Paulo Rodrigues, Zé Carlos e Bobô (Osmar); Gil, Charles e Marquinhos. Técnico: Evaristo de Macedo.

Cartão Amarelo: João Marcelo, Gil, Norberto e Edu Lima.

* O Bahia sagrou-se campeão brasileiro de 1988.

sábado, 29 de agosto de 2020

CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS EM UM PLANETA DE 10 TRILHÕES DE HABITANTES


O corpo humano é um bagulho muito louco, né? Aliás, não só o humano: dos mamíferos, dos vertebrados, dos artrópodes, das plantas, dos fungos… Mas por que esse papo agora, né? Do nada! E por que o corpo é tão louco (e tão fascinante)?


Contextualizando: o corpo humano (tipo esse aí que você está usando) é formado por 10 trilhões de células que trabalham de maneira integrada. Funcionam como uma espécie de "sociedade", 125 vezes mais populosa do que o planeta Terra. Cada um desses trilhões de habitantes possui uma função específica: nutrição, proteção, produção de energia ou reprodução.


Essa comparação das células com "cidadãos" é a premissa do anime Hataraku Saibou (Cells at Work!), série de 13 episódios que está disponível no catálogo do Netflix. A estória se passa dentro de um corpo humano, retratado como um grande complexo residencial e industrial, no qual as células são didaticamente apresentadas em formas humanizadas. A trama gira em torno do trabalho interminável de manter um organismo vivo e saudável, com toda uma logística industrial e cargas que são transportadas pelas células, além de eventuais invasões de bactérias ou vírus que são combatidos pelos heróicos anticorpos em batalhas sangrentas no melhor estilo shōnen, tão apreciado pelos fãs de Dragon Ball, Cavaleiros, One Piece... Só de sacar essa premissa já fica claro que o anime é uma forma bem didática e divertida de explicar conceitos ligados a biologia e medicina, né? Se bem que não chega a ser uma grande novidade, já que obras como Ozzy e Drix (2002) e até Viagem Fantástica (1966) já se utilizaram do entretenimento para contextualizar o corpo humano comparando-o com uma “sociedade”. No campo da Psicologia, o filme Divertida Mente (2015) também cumpre lindamente essa proposta.


Cells at Work: uma divertida aula de biologia em forma de anime.


E se o corpo humano funciona como uma espécie de sociedade, onde os diferentes trabalhos, aptidões e designações se correlacionam em prol de um funcionamento macro, nada nos impede de analisarmos, antropologicamente, as causas, consequências e “fenômenos sociais” desse planeta geralmente flácido, úmido e quente, que pesa algumas dezenas de quilos e tem algo entre 1,50m e 2m de altura (me desculpe se o seu estiver fora de algum desses padrões). Cerca de 70% desse planeta é formado por água, assim como a Terra, o planeta mais conhecido do mundo.


Uma comida apimentada que não lhe cai bem pode provocar reações indesejadas no seu sistema digestivo, que podem resultar numa péssima noite de sono, responsável por uma incômoda dor de cabeça e até num torcicolo. Isso é como a safra de arroz impactando no agronegócio e, consequentemente, na economia, na alta do dólar, nas importações de eletrodomésticos e no comércio de smartphones. Ou seja, uma comida apimentada demais pode resultar num improvável torcicolo da mesma forma que o cultivo de arroz pode ter a ver com a venda de smartphones.


Existem várias maneiras do nosso corpo reagir a elementos externos e isso acontece o tempo inteiro: comendo algo (apimentado ou não), respirando, bebendo, dormindo, passando frio ou calor, exercitando-se, drogando-se, higienizando-se, sujando-se, encostando em outras pessoas… tudo isso interfere, de alguma maneira, mínima que seja, no funcionamento do nosso organismo. No texto “You’re Welcome, Prince George!”, eu utilizei a “teoria dos seis graus de separação” (o número “seis” é aleatório e irrelevante aqui) para defender a ideia de que você, possivelmente, teve uma influência muito indireta (mas MUITO indireta mesmo) na precisão biológica do casal William e Kate no dia em que conceberam o futuro Rei da Inglaterra, lá no último trimestre de 2012 (George acabou nascendo em julho de 2013). Essa “precisão biológica” é de, pelo menos, 1 em 300 milhões de resultados possíveis (aqui considerando apenas o número de espermatozóides ejaculados). Incontáveis fatores externos ocorridos anteriormente e sem aparente correlação com o ato da concepção do casal podem ser considerados irrelevantes mas, se extraídos da equação de causa-e-consequência do Efeito Borboleta, podem gerar um resultado bem diferente.


Acontece que, quando se fala em reações do corpo humano a elementos externos, a “teoria dos seis graus de separação” não se limita apenas a contato físico (como apertos de mão), registro fotográfico ou conhecimento mútuo entre uma pessoa e seu “grau vizinho” (acredito que sejam esses os critérios comumente considerados na hora de estruturar um diagrama de “graus de separação”). Normalmente, esse diagrama só serve como curiosidade (uma brincadeira que eu, particularmente, acho bem divertida). Quando se fala em reações biológicas, os fatores externos podem ser qualquer coisa que altere a nossa frequência cardíaca, por exemplo. E isso merece uma atenção especial a partir de agora.



Na sintonia da emoção, de coração pra coração





Não é nem um pouco difícil você alterar a frequência cardíaca de alguém. Você pode dar um susto ou provocar reações como riso, raiva, tristeza, nojo, atração… Se você for uma pessoa linda demais (ou feia demais), basta ser vista por essa pessoa (nem que seja no meio de uma multidão) e, pronto, o estrago está feito: você alterou a frequência cardíaca dessa pobre pessoa de 80 bpm para 85 bpm. Pode parecer algo insignificante, né? Bem longe de ser uma taquicardia (algo acima de 100 bpm) que uma pessoa bonita de verdade causaria (só pra você não ficar se achando, tá?). Mas, ainda assim, essa “pequena” alteração na frequência cardíaca que você provocou na pessoa que acabou de te ver no meio da multidão fez uma pequena diferença no bombeamento do sangue, no fluxo de glóbulos vermelhos e, bom, aí você já pode imaginar que, para os personagens de “Cells at Work”, essa pequena alteração nos batimentos cardíacos não é tão insignificante assim. Não numa escala microscópica desse planeta habitado pelas células. Seria como dizer para um agricultor, de uma pequena fazenda, que um dia seco e um dia de chuva fina “dão na mesma”: para o ecossistema terrestre, realmente tanto faz mas, para a produtividade do nosso amigo agricultor, pode fazer toda a diferença. É tudo uma questão de “escala”.


Pois o nosso corpo, habitado por 10 trilhões de células, está cheio desses humildes “agricultores de pequenas fazendas”, que são vulneráveis e dependem demais do nosso fluxo sanguíneo, aqui comparado com as condições climáticas que afetam o solo. Supondo que algumas dessas trilhões de células fossem “jornalistas”, é bem provável que os índices de alta e baixa do fluxo sanguíneo fossem acompanhados diariamente aos mesmos moldes da previsão do tempo, a alta do dólar ou a cotação do bitcoin (e, mais recentemente, as mortes causadas pelo Coronga). A gente teria a “Maju Coutinho” na bancada do “Jornal Corporal” informando a população de glóbulos vermelhos sobre as previsões de máximas e mínimas do fluxo sanguíneo.




Assim como nós, terráqueos, temos o Sol nos provendo energia e a existência do planeta como o conhecemos, as células do nosso corpo têm o nosso coração que garante o funcionamento do mesmo. Logo, não é nenhum exagero e nem cafonice dizer que “o Sol é o coração do sistema solar” (quer dizer, é meio cafona sim, sejamos sinceros). Acontece que esse nosso “sol” pulsante (o coração) é altamente suscetível às emoções externas que absorvemos a cada instante. Não por acaso, o coração é tão associado ao “sentimento”. E um prato cheio para compositores, poetas e piegas enrustidos.


Essa suscetibilidade (eita palavrinha chata) é o que faz as emoções externas serem tão singulares para a nossa circulação e, claro, para o nosso organismo. E emoções externas podem ser tanto uma taquicardia causada por um orgasmo (ou durante um assalto) como aquele sorrisinho no canto da boca que você dá enquanto zapear o Whatsapp (ou vendo um filme de comédia ruim). Ambas as emoções afetam o seu fluxo sanguíneo. Em níveis diferentes, claro, mas afetam.



O coração da Borboleta



Assim como a Teoria do Caos sugere que o bater de asas de uma borboleta pode causar uma tempestade no outro lado do mundo, uma leve acelerada nos batimentos cardíacos pode fazer uma diferença enorme no organismo de um ser vivo. Diferença grande a ponto de influenciar na “sperm race” de um casal prestes a conceber uma vida. Veja bem: tenha sempre em mente que estamos falando de uma escala microscópica e que temos dezenas de trilhões de células agindo de maneira interligada. Qualquer mudança despercebida, em qualquer época do passado, tem uma importância decisiva. É como arrancar uma peça do dominó. É como voltar no tempo e impedir a concepção do avô da tataravó do cara que apresentou seu bisavô para a sua bisavó. Você nem sabe que essa pessoa já existiu, mas só está aqui, neste mundo, porque ela um dia nasceu e seguiu a vida que teve. Aliás, quanto mais pro passado você for, maior a chance de fazer um estrago paradoxal no Efeito Borboleta (Portanto, não volte no tempo!)


Entendendo isso, podemos assumir que qualquer emoção (por mais leve que seja) que os pais de Mark Zuckerberg tenham sentido na infância certamente afetou seus respectivos organismos e, respectivamente, a sperm race que acabou originando aquele Mark nascido em 14 de maio de 1984. Qualquer mudança naquela emoção (mais forte ou mais fraca) teria um impacto insignificante no desenvolvimento dos pais dele e não seria capaz de impedir o nascimento do pequeno Mark. Mas seria um Mark diferente, vindo de um outro espermatozóide, com outro DNA, outra personalidade, outras características e, possivelmente, outra relevância social. Talvez fosse uma menina. E um mundo sem esse Mark Zuckerberg tal qual o mundo inteiro conhece hoje, concordemos, seria muito diferente.




Ou seja, aquela emoção sem aparente importância que o pai ou a mãe do Zuckerberg teve em algum momento qualquer da infância pode, sim, ter influenciado o mundo como conhecemos hoje. E essa “emoção” pode ser a coisa mais inútil que possamos imaginar: pode ser ouvir o som de um vizinho desconhecido tossindo num sábado de manhã, lá no início dos anos 1960.


Assim como qualquer emoção sentida pelo casal William e Kate antes do último trimestre de 2012 pode, sim, ter influenciado na existência desse Príncipe George que hoje esbanja simpatia. A questão é: você já provocou algum tipo de emoção no Príncipe William ou na Kate Middleton (antes de 2012)? Vale qualquer coisa: uma troca de olhar, uma mensagem lida e ignorada no Whatsapp, um grito de longe… qualquer lapso de comunicação serve. E eles nem precisam saber de quem ou de onde veio. Ainda assim, me reservo o direito de acreditar que a resposta é “não”. Mas não precisa se achar pouco importante por causa disso, tá?




Diferente de você, uma pessoa mundialmente famosa tem muito mais chances de causar esse tipo de “emoção” num número enorme de pessoas. Basta aparecer num outdoor na Times Square, numa capa de revista ou num comercial de TV que várias pessoas terão algum tipo de reação ao ver esse seu rostinho bonito: encantamento; asco; talvez até te achem semelhante com alguém ou, mais provavelmente, indiferença (mas até a indiferença causa algum tipo de emoção mínima, mesmo que inconsciente). Dizem que somos submetidos a mais de 5 mil mensagens publicitárias por dia (nas mais diversas mídias), ou seja, obviamente não são todas que “fisgam” nossa atenção, mas são absorvidas por algum pedaço do nosso inconsciente e ocupam um espaço alheio à semântica. Algumas delas são até propositalmente subliminares.




Mas você não é famoso e possivelmente nunca foi visto num comercial do Super Bowl ou na capa da Times, certo? Então me diga: qual foi a coisa que você fez que mais gerou projeção e que atingiu o maior número de pessoas (seja direta ou indiretamente)? Vale algum texto que você tenha escrito e que foi lido por muitas pessoas. Vale a sua foto mais visualizada no Instagram. Vale uma aparição relâmpago em algum vídeo muito visualizado no Youtube. Vale aquelas coisas bagaceiras que você escrevia nas portas dos banheiros públicos. Vale as vezes em que você subiu num palco. Vale até a pessoa que você ajudou a ser famosa e que, essa sim, foi aplaudida e aceita por milhões. Pensa aí e me responde.


Aliás, só de fazer esse exercício de pensar em algo relevante que você já tenha feito deve ter dado uma certa acelerada no seu coração, fala a verdade! Se eu falar pra você pensar, agora, na pessoa que você mais ama, estarei provocando uma pequena aceleração no seu fluxo sanguíneo, uma nula mudança num futuro próximo mas, quem sabe, um grande acontecimento num futuro distante. A descobrir.




São tantas emoções!


Provocar emoções alheias é mais fácil e poderoso do que podemos imaginar. A pessoa que você está emocionando não precisa nem saber que você existe. E você nem precisa saber da existência dela. Isso pode acontecer das formas mais involuntárias possíveis, graças aos mais diversos tipos de “registros” que deixamos por aí, nesse nosso “rastro” chamado existência. Claro que existe uma diferença enorme entre esbarrar com um desconhecido num metrô lotado e fazer a pessoa que te ama soluçar de tanto chorar. Mas o objetivo desse texto não foi discutir a intensidade dessas emoções e sim o impacto indireto que ela causa no nosso sistema biológico, através dos batimentos cardíacos, do fluxo sanguíneo e do funcionamento coletivo das nossas células, que são como habitantes ativos de um planeta de 10 trilhões de habitantes.



Em síntese: todo tipo de “emoção”, por mais discreta e irrelevante que seja, tem lá sua importância e potencial transformador, principalmente se o “emocionado em questão” for uma pessoa que ainda vai gerar biologicamente alguém que irá mudar o mundo, direta ou indiretamente. Sim, quanto mais crianças e adolescentes você conseguir "emocionar", maiores as chances de estar transformando o futuro, mesmo que elas nem se lembrem de você.


Ou talvez até já tenha impactado indiretamente e nem sabe. Talvez existam crianças que só vieram a este mundo porque, um dia (que você nem lembra direito), você fez algo que chamou a atenção e emocionou os futuros pais dessas crianças (e eles também não lembram disso). Você nem sabe quem são esses pais e eles também nunca ouviram falar de você, mas aquele castelinho de areia que você deixou na praia chamou a atenção de um deles, deu uma aceleradinha de leve no coração, mudou a frequência cardíaca e, o resto, você já sabe.


Talvez um desses pais que você impactou "indiretamente" seja o pai do jogador Neymar, desde que você tenha "atingido" ele antes de abril~maio/1991 (considerando que o Menino Ney nasceu em fevereiro/1992). Será que existe uma chance disso ter acontecido?


Você pode ser responsável por isso.


Vamos deixar esse assunto para um próximo texto com divagações mirabolantes sobre o corpo humano, batimentos cardíacos, biologia, efeito borboleta, comunicação, o futuro da humanidade e relações de causa e efeito provocadas pelas emoções em seus mais diversos níveis de intensidade. Como diria o Rei Roberto Carlos: “se eu chorei ou se eu sorri, o importante é as emoções que eu vivi.” Esse assunto é um bagulho muito louco, né? 




REFERÊNCIAS


Cells at Work! BABY - Novo mangá sobre o início da vida

http://nagado.blogspot.com/2019/10/cells-at-work-baby-novo-manga.html 


Tendência minimalista: quando menos é mais

https://midiaria.com/design-e-branding/tendencia-minimalista-quando-menos-e-mais/ 


Valores da frequência cardíaca normal (batimentos por idade)

https://www.tuasaude.com/frequencia-cardiaca/ 

 

YOU'RE WELCOME, PRINCE GEORGE!

http://energiaespacial.blogspot.com/2019/10/youre-welcome-prince-george.html 



domingo, 29 de março de 2020

TERRA - SEASON FINALE

Chegamos a mais um cliffhanger na história da humanidade.

O Professor está encurralado. A Inspetora foi capturada pelas autoridades, Nairobi foi gravemente baleada e a situação dentro do Banco Central é de mais absoluta tensão. Terminou assim a terceira e mais recente temporada de "La Casa de Papel".

Goku abandonou o Torneio de Artes Marciais para treinar com o recém conhecido Ub longe da esposa Chichi, dos filhos Gohan e Goten e da neta Pan. Vegeta e Bulma têm dois filhos pequenos: Trunks e Bra. A paz reina na Terra e Mister Satan é o cara mais popular do planeta. Esse era o final "definitivo" de Dragon Ball Z até a chegada da fase "Super", em 2015 (ninguém aqui perguntou sobre o GT). Só mais um exemplo: Thelma está paranoica com a possibilidade de Lurdes descobrir que Danilo é Domênico. Para proteger seu segredo, ela será capaz de matar a melhor amiga, Jane. E é nesse climão que terminou a "primeira fase" da novela Amor de Mãe, que era exibida diariamente no horário das 21h, "naquela emissora", até a suspensão das gravações.

La Casa de Papel, Dragon Ball e Amor de Mãe. Três séries que tiveram um final de temporada.

Acabei de dar três exemplos (pra todos os gostos e desgostos) de enredos que foram interrompidos por um hiato entre temporadas. Conforme o nível de pontos sem nó, são chamados de "cliffhangers" (um recurso utilizado nas narrativas para indicar um final deixado em aberto, aquele gancho que faz ligação com a próxima história). Com a história da humanidade está acontecendo algo bem parecido. Estamos vivendo uma "season finale", se você não percebeu ainda. Mas você certamente já entendeu que o mundo não será como era antes depois que esse cenário de pandemia passar. Pode desconsiderar aqui o "se", "quando" e "como passar". Vamos trabalhar com perspectivas mais otimistas e menos alarmantes, ok? Vai passar!

Toda a história da humanidade escrita até aqui, com cerca de 200 mil anos de enredo acumulado, chega a mais um fim de temporada. É aquele botão de "reset" que pode criar um salto temporal ou simplesmente começar com um "previously..." (eu sei que você adora falar isso em voz alta!). Já foram vários finais de temporada emocionantes: a 2ª Guerra Mundial; a Revolução Industrial; o descobrimento da América; a conquista de Meca; a crucificação de Jesus; o assassinato de Júlio Cesar; o despertar de Buda... Todos acontecimentos que, a curto, médio ou longo prazo, mudaram para sempre a história dessa nossa raça. Tudo que estava acontecendo em paralelo no mundo, até a chegada desses momentos, foi afetado de certa forma. A rotina das pessoas nunca mais foi a mesma, mesmo para aquelas que não tiveram envolvimento direto. Dessa vez, então, diante do colapso no trio saúde-economia-sociedade que estamos presenciando ao vivo e a nível global, os impactos são ainda mais fulminantes, instantâneos e percebíveis. O mundo definitivamente parou para uma troca de temporadas. Só não sabemos ainda se vai ser uma temporada melhor ou pior do que essa que estava sendo escrita até 2020 d.C. Sabemos nem quem serão os roteiristas, os diretores e os protagonistas. A gente tá no meio do hiato, na verdade. Estamos passando pelo que os Vingadores viveram entre "Guerra Infinita" e "Ultimato". A vantagem é que o oxigênio da nossa quarentena, diferente da nave espacial do Tony Stark, não tem hora pra acabar. E ainda estamos à espera de uma vacina, de uma cura ou de uma Capitã Marvel aterrisando na nossa janela.

Só os Vingadores sabem o que foi aquele hiato entre Guerra Infinita e Ultimato.

Em The Walking Dead (hoje eu estou gastando as minhas referências geeks), que se passa num cenário pós-apocalíptico, é comum ver personagens que recém se conheceram perguntando sobre o passado do outro antes disso tudo começar (isso tudo = o acocalipse zumbi). Isso porque a vida que cada um deles tinha antes, pré-apocalipse, pertencia a um mundo que deixou de existir. É aqui que devemos botar uma coisa de vez na cabeça: o mundo pré-coronavírus que a gente conhecia e com o qual nos habituamos acabou. Já era. Fim. Quem definiu isso muito bem foi o nerdólogo Atila Iamarino, que é doutor em microbiologia pela USP e já concluiu dois pós-doutorados estudando a disseminação dos vírus, bem como a evolução desse tipo de organismo. Em uma entrevista para a BBC News Brasil, ele foi certeiro: "Quem ainda está pensando em não deixar a economia atual desandar, na verdade, está tentando resgatar um mundo que não existe mais. Que é o mundo de janeiro de 2020. O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade." Você já sabe de quem estamos falando e eu não vou cair na cilada de mencionar aqui chefes de estado, empresários ou apresentador de reality show que já tentou ser cantor.

Atila Iamarino, do Nerdologia, é um dos caras que você mais deveria levar a sério no momento.

Também não devemos ignorar ou repudiar quem pensa o contrário. O argumento dessas pessoas é que o número de mortes em decorrência do colapso econômico causado pelo Coronavírus será bem maior do que o número de óbitos causados diretamente pela COVID-19. Não é mera preocupação de um monstro capitalista que está só pensando no próprio bolso ou nas suas próprias empresas. Mas entenda: essas pessoas, em geral, têm muita dificuldade de aceitar uma nova realidade, talvez por acreditarem que o mundo "sempre foi assim". E que novo mundo será esse pós-Coronavírus? Impossível fazer previsões. Principalmente num momento como esse. A única certeza é que será bem diferente. Tomara que esse inevitável colapso econômico acelere algumas mudanças que pareciam lentas e inalcançáveis, como a implementação de uma Renda Básica Universal, capaz de garantir a sobrevivência daqueles que não têm fonte de renda por meio de um trabalho (que muitas vezes é humilhante, perigoso, irrelevante ou robotizável). Tomara que tenhamos mais robôs fazendo trabalhos chatos e repetitivos. Tomara que a gente viva num mundo bem parecido com aquele idealizado pelo Jacque Fresco, de uma Economia Baseada em Recursos. Mas veja bem: essas são somente perspectivas otimistas e baseadas naquilo que eu acredito. Cada um é livre para ser otimista dentro das suas próprias visões de mundo.


Sistemas alternativos como uma Economia Baseada em Recursos nunca foram tão necessários como agora.


Essas mudanças todas serão proporcionais ao tamanho do impacto causado pelo Coronavírus. E ainda nem temos como mensurar esse impacto porque ele ainda está em ascensão na curva. Já tivemos mudanças e estragos bem consideráveis: Jogos Olímpicos adiados, 1/3 da população terrestre em quarentena, grandes empresas quebrando e um estardalhaço incalculável na economia mundial. Pergunto: isso tudo, para você, já é muito ou ainda é pouco? Acontece que "muito X pouco", assim como "grande X pequeno", "perto X longe" ou "leve X pesado" são definições abstratas e que precisam de comparativos para serem avaliadas com embasamento. Se você acha que o efeito do Coronavírus no mundo é "muito", que tal acreditar (imaginar é de graça, vai) que isso ainda pode render muito mais e acabar com o sistema de democracia representativa em praticamente todas as nações do mundo, destituir chefes de estado, acabar com as fronteiras entre países, promover a paz entre judeus e palestinos, criar um novo sistema econômico, acabar com o Capitalismo... Agora ficou parecendo exagero, né? Pois é nessas horas que você acha que o impacto pode (e pode mesmo) ser ainda maior. E se você é da turma que acha que esse impacto ainda é "pouco", te convido a comparar com o que tivemos nos últimos 75 anos, desde o fim da 2ª Guerra Mundial, que é o fenômeno global mais recente de proporções semelhantes (principalmente se você pegar como régua o fator "adiamento das Olimpíadas"). Provavelmente, você nem era nascido naquela época, ou seja, nunca viu algo parecido com o que estamos vivendo agora.

A Segunda Guerra Mundial marcou o fim da penúltima temporada da Terra.

A 2ª Guerra Mundial foi nossa mais recente "season finale". Tudo que estava acontecendo no mundo até setembro de 1939 entrou no modo "pause". Quando o botão de "play" foi ativado, em agosto de 1945, o mundo já estava bem diferente. O enredo da vez passou a ter Estados Unidos e União Soviética como grandes potências mundiais, uma "Guerra Fria" polarizando o planeta, novos players do cenário global, novas nações e corporações em ascensão, novas tecnologias... parecia até que tinham trocado o roteirista. Resgatando a narrativas dos primeiros três parágrafos deste texto: Os Impérios Centrais da Áustria-Hungria, Alemanha e Império Otomano ainda estava juntando os cacos da 1ª Guerra. A próxima edição dos Jogos Olímpicos estava prevista para acontecer em Tóquio, em 1940. Os Estados Unidos estavam se recuperando da Grande Depressão. Os movimentos totalitários começavam a eclodir em países europeus, com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Francisco Franco na Espanha e Stálin na União Soviética, além de Hitler na Alemanha. Já o Brasil estava vivendo os primeiros anos do "Estado Novo" getulista. Em resumo, era esse o cenário mundial naquele final de temporada. Meu vô, que tinha 19 anos quando a 2ª Guerra começou, teve que interromper todos os seus planos de vida, inclusive o noivado com a minha vó, para servir a pátria e guerrear. Felizmente, o conflito terminou antes dele embarcar e tomar seus tiros. A pausa foi desativada e ele acabou casando com a minha vó em 1945. Agora, em 2020, nós temos uma nova "season finale" com diversas histórias sendo interrompidas e sem data para retomarem. O mundo está todo conectado via internet. As mídias sociais são a principal forma das pessoas se comunicarem, se expressarem e se promoverem. Donald Trump é o atual presidente dos Estados Unidos. Jair Bolsonaro é o atual presidente do Brasil. O Reino Unido não faz mais parte da União Europeia. O Flamengo está em busca do tricampeonato na Libertadores. O Real Madrid precisa vencer o Manchester City fora de casa para ir às quartas-de-final da Uefa Champions League. A Warner Bros ja confirmou que o filme Coringa, que rendeu um Oscar ao ator Joaquin Phoenix, terá continuação. Keisuke Honda é o camisa 4 do Botafogo. A sul-africana Zozibini Tunzi é a atual Miss Universo. Michael Schumacher segue internado, em coma, por causa de um acidente de esqui. O empresário Elon Musk quer levar humanos para Marte ainda nessa metade do século. Ronaldinho Gaúcho e seu irmão Assis estão presos no Paraguai por falsificação de passaporte.

Ronaldinho entrando em cana. Aquele final de temporada que ninguém esperava.

Talvez nada disso importe quando a próxima temporada começar. Vai depender de quando e como ela terá início. Essas são só algumas das histórias em modo "stand by". E a sua vida, ein?! Em que situação ela estava quando a história da humanidade chegou a essa "season finale" tão repentina? Você saberia contextualizá-la num parágrafo assim como eu fiz com La Casa de Papel, Dragon Ball, Amor de Mãe, Vingadores e a história da humanidade nos seus dois encerramentos de temporada mais recentes? Quais são os seus cliffhangers? Ao escrever ou refletir sobre isso, lembre-se: foi seu último capítulo do roteiro sobre um mundo que já acabou. Já era. Fim.

REFERÊNCIAS:

Sair do isolamento agora é querer voltar a mundo que não existe mais, diz virologista Atila Iamarino:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52061804?fbclid=IwAR04QxeTTpcKKqL61vfLHrJ_cbOa_AFQluq4gNmfcqqWwKt9KgF9aUSNicU

The Venus Project



BÔNUS Top 10 Cliffhangers https://www.youtube.com/watch?v=YfzMjemUlpE