domingo, 29 de março de 2020

TERRA - SEASON FINALE

Chegamos a mais um cliffhanger na história da humanidade.

O Professor está encurralado. A Inspetora foi capturada pelas autoridades, Nairobi foi gravemente baleada e a situação dentro do Banco Central é de mais absoluta tensão. Terminou assim a terceira e mais recente temporada de "La Casa de Papel".

Goku abandonou o Torneio de Artes Marciais para treinar com o recém conhecido Ub longe da esposa Chichi, dos filhos Gohan e Goten e da neta Pan. Vegeta e Bulma têm dois filhos pequenos: Trunks e Bra. A paz reina na Terra e Mister Satan é o cara mais popular do planeta. Esse era o final "definitivo" de Dragon Ball Z até a chegada da fase "Super", em 2015 (ninguém aqui perguntou sobre o GT). Só mais um exemplo: Thelma está paranoica com a possibilidade de Lurdes descobrir que Danilo é Domênico. Para proteger seu segredo, ela será capaz de matar a melhor amiga, Jane. E é nesse climão que terminou a "primeira fase" da novela Amor de Mãe, que era exibida diariamente no horário das 21h, "naquela emissora", até a suspensão das gravações.

La Casa de Papel, Dragon Ball e Amor de Mãe. Três séries que tiveram um final de temporada.

Acabei de dar três exemplos (pra todos os gostos e desgostos) de enredos que foram interrompidos por um hiato entre temporadas. Conforme o nível de pontos sem nó, são chamados de "cliffhangers" (um recurso utilizado nas narrativas para indicar um final deixado em aberto, aquele gancho que faz ligação com a próxima história). Com a história da humanidade está acontecendo algo bem parecido. Estamos vivendo uma "season finale", se você não percebeu ainda. Mas você certamente já entendeu que o mundo não será como era antes depois que esse cenário de pandemia passar. Pode desconsiderar aqui o "se", "quando" e "como passar". Vamos trabalhar com perspectivas mais otimistas e menos alarmantes, ok? Vai passar!

Toda a história da humanidade escrita até aqui, com cerca de 200 mil anos de enredo acumulado, chega a mais um fim de temporada. É aquele botão de "reset" que pode criar um salto temporal ou simplesmente começar com um "previously..." (eu sei que você adora falar isso em voz alta!). Já foram vários finais de temporada emocionantes: a 2ª Guerra Mundial; a Revolução Industrial; o descobrimento da América; a conquista de Meca; a crucificação de Jesus; o assassinato de Júlio Cesar; o despertar de Buda... Todos acontecimentos que, a curto, médio ou longo prazo, mudaram para sempre a história dessa nossa raça. Tudo que estava acontecendo em paralelo no mundo, até a chegada desses momentos, foi afetado de certa forma. A rotina das pessoas nunca mais foi a mesma, mesmo para aquelas que não tiveram envolvimento direto. Dessa vez, então, diante do colapso no trio saúde-economia-sociedade que estamos presenciando ao vivo e a nível global, os impactos são ainda mais fulminantes, instantâneos e percebíveis. O mundo definitivamente parou para uma troca de temporadas. Só não sabemos ainda se vai ser uma temporada melhor ou pior do que essa que estava sendo escrita até 2020 d.C. Sabemos nem quem serão os roteiristas, os diretores e os protagonistas. A gente tá no meio do hiato, na verdade. Estamos passando pelo que os Vingadores viveram entre "Guerra Infinita" e "Ultimato". A vantagem é que o oxigênio da nossa quarentena, diferente da nave espacial do Tony Stark, não tem hora pra acabar. E ainda estamos à espera de uma vacina, de uma cura ou de uma Capitã Marvel aterrisando na nossa janela.

Só os Vingadores sabem o que foi aquele hiato entre Guerra Infinita e Ultimato.

Em The Walking Dead (hoje eu estou gastando as minhas referências geeks), que se passa num cenário pós-apocalíptico, é comum ver personagens que recém se conheceram perguntando sobre o passado do outro antes disso tudo começar (isso tudo = o acocalipse zumbi). Isso porque a vida que cada um deles tinha antes, pré-apocalipse, pertencia a um mundo que deixou de existir. É aqui que devemos botar uma coisa de vez na cabeça: o mundo pré-coronavírus que a gente conhecia e com o qual nos habituamos acabou. Já era. Fim. Quem definiu isso muito bem foi o nerdólogo Atila Iamarino, que é doutor em microbiologia pela USP e já concluiu dois pós-doutorados estudando a disseminação dos vírus, bem como a evolução desse tipo de organismo. Em uma entrevista para a BBC News Brasil, ele foi certeiro: "Quem ainda está pensando em não deixar a economia atual desandar, na verdade, está tentando resgatar um mundo que não existe mais. Que é o mundo de janeiro de 2020. O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade." Você já sabe de quem estamos falando e eu não vou cair na cilada de mencionar aqui chefes de estado, empresários ou apresentador de reality show que já tentou ser cantor.

Atila Iamarino, do Nerdologia, é um dos caras que você mais deveria levar a sério no momento.

Também não devemos ignorar ou repudiar quem pensa o contrário. O argumento dessas pessoas é que o número de mortes em decorrência do colapso econômico causado pelo Coronavírus será bem maior do que o número de óbitos causados diretamente pela COVID-19. Não é mera preocupação de um monstro capitalista que está só pensando no próprio bolso ou nas suas próprias empresas. Mas entenda: essas pessoas, em geral, têm muita dificuldade de aceitar uma nova realidade, talvez por acreditarem que o mundo "sempre foi assim". E que novo mundo será esse pós-Coronavírus? Impossível fazer previsões. Principalmente num momento como esse. A única certeza é que será bem diferente. Tomara que esse inevitável colapso econômico acelere algumas mudanças que pareciam lentas e inalcançáveis, como a implementação de uma Renda Básica Universal, capaz de garantir a sobrevivência daqueles que não têm fonte de renda por meio de um trabalho (que muitas vezes é humilhante, perigoso, irrelevante ou robotizável). Tomara que tenhamos mais robôs fazendo trabalhos chatos e repetitivos. Tomara que a gente viva num mundo bem parecido com aquele idealizado pelo Jacque Fresco, de uma Economia Baseada em Recursos. Mas veja bem: essas são somente perspectivas otimistas e baseadas naquilo que eu acredito. Cada um é livre para ser otimista dentro das suas próprias visões de mundo.


Sistemas alternativos como uma Economia Baseada em Recursos nunca foram tão necessários como agora.


Essas mudanças todas serão proporcionais ao tamanho do impacto causado pelo Coronavírus. E ainda nem temos como mensurar esse impacto porque ele ainda está em ascensão na curva. Já tivemos mudanças e estragos bem consideráveis: Jogos Olímpicos adiados, 1/3 da população terrestre em quarentena, grandes empresas quebrando e um estardalhaço incalculável na economia mundial. Pergunto: isso tudo, para você, já é muito ou ainda é pouco? Acontece que "muito X pouco", assim como "grande X pequeno", "perto X longe" ou "leve X pesado" são definições abstratas e que precisam de comparativos para serem avaliadas com embasamento. Se você acha que o efeito do Coronavírus no mundo é "muito", que tal acreditar (imaginar é de graça, vai) que isso ainda pode render muito mais e acabar com o sistema de democracia representativa em praticamente todas as nações do mundo, destituir chefes de estado, acabar com as fronteiras entre países, promover a paz entre judeus e palestinos, criar um novo sistema econômico, acabar com o Capitalismo... Agora ficou parecendo exagero, né? Pois é nessas horas que você acha que o impacto pode (e pode mesmo) ser ainda maior. E se você é da turma que acha que esse impacto ainda é "pouco", te convido a comparar com o que tivemos nos últimos 75 anos, desde o fim da 2ª Guerra Mundial, que é o fenômeno global mais recente de proporções semelhantes (principalmente se você pegar como régua o fator "adiamento das Olimpíadas"). Provavelmente, você nem era nascido naquela época, ou seja, nunca viu algo parecido com o que estamos vivendo agora.

A Segunda Guerra Mundial marcou o fim da penúltima temporada da Terra.

A 2ª Guerra Mundial foi nossa mais recente "season finale". Tudo que estava acontecendo no mundo até setembro de 1939 entrou no modo "pause". Quando o botão de "play" foi ativado, em agosto de 1945, o mundo já estava bem diferente. O enredo da vez passou a ter Estados Unidos e União Soviética como grandes potências mundiais, uma "Guerra Fria" polarizando o planeta, novos players do cenário global, novas nações e corporações em ascensão, novas tecnologias... parecia até que tinham trocado o roteirista. Resgatando a narrativas dos primeiros três parágrafos deste texto: Os Impérios Centrais da Áustria-Hungria, Alemanha e Império Otomano ainda estava juntando os cacos da 1ª Guerra. A próxima edição dos Jogos Olímpicos estava prevista para acontecer em Tóquio, em 1940. Os Estados Unidos estavam se recuperando da Grande Depressão. Os movimentos totalitários começavam a eclodir em países europeus, com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Francisco Franco na Espanha e Stálin na União Soviética, além de Hitler na Alemanha. Já o Brasil estava vivendo os primeiros anos do "Estado Novo" getulista. Em resumo, era esse o cenário mundial naquele final de temporada. Meu vô, que tinha 19 anos quando a 2ª Guerra começou, teve que interromper todos os seus planos de vida, inclusive o noivado com a minha vó, para servir a pátria e guerrear. Felizmente, o conflito terminou antes dele embarcar e tomar seus tiros. A pausa foi desativada e ele acabou casando com a minha vó em 1945. Agora, em 2020, nós temos uma nova "season finale" com diversas histórias sendo interrompidas e sem data para retomarem. O mundo está todo conectado via internet. As mídias sociais são a principal forma das pessoas se comunicarem, se expressarem e se promoverem. Donald Trump é o atual presidente dos Estados Unidos. Jair Bolsonaro é o atual presidente do Brasil. O Reino Unido não faz mais parte da União Europeia. O Flamengo está em busca do tricampeonato na Libertadores. O Real Madrid precisa vencer o Manchester City fora de casa para ir às quartas-de-final da Uefa Champions League. A Warner Bros ja confirmou que o filme Coringa, que rendeu um Oscar ao ator Joaquin Phoenix, terá continuação. Keisuke Honda é o camisa 4 do Botafogo. A sul-africana Zozibini Tunzi é a atual Miss Universo. Michael Schumacher segue internado, em coma, por causa de um acidente de esqui. O empresário Elon Musk quer levar humanos para Marte ainda nessa metade do século. Ronaldinho Gaúcho e seu irmão Assis estão presos no Paraguai por falsificação de passaporte.

Ronaldinho entrando em cana. Aquele final de temporada que ninguém esperava.

Talvez nada disso importe quando a próxima temporada começar. Vai depender de quando e como ela terá início. Essas são só algumas das histórias em modo "stand by". E a sua vida, ein?! Em que situação ela estava quando a história da humanidade chegou a essa "season finale" tão repentina? Você saberia contextualizá-la num parágrafo assim como eu fiz com La Casa de Papel, Dragon Ball, Amor de Mãe, Vingadores e a história da humanidade nos seus dois encerramentos de temporada mais recentes? Quais são os seus cliffhangers? Ao escrever ou refletir sobre isso, lembre-se: foi seu último capítulo do roteiro sobre um mundo que já acabou. Já era. Fim.

REFERÊNCIAS:

Sair do isolamento agora é querer voltar a mundo que não existe mais, diz virologista Atila Iamarino:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52061804?fbclid=IwAR04QxeTTpcKKqL61vfLHrJ_cbOa_AFQluq4gNmfcqqWwKt9KgF9aUSNicU

The Venus Project



BÔNUS Top 10 Cliffhangers https://www.youtube.com/watch?v=YfzMjemUlpE

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