quarta-feira, 22 de abril de 2015

Assim surgiu RESSUSCITADOS



www.ressuscitados.com.br

Muito além da imortalidade

Pra quem ainda não conhece meu trabalho como quadrinista, pode achar que o tema desse post não tem nada a ver com o assunto desse blog. Mas tem tudo a ver!
Recentemente, lancei meu primeiro livrinho de tirinhas: Ressuscitados. Mas antes de falar sobre esse projeto, permita-me contar como foi que eu cheguei nessa ideia. É a melhor forma de fazer você entender o que uma coisa tem a ver com a outra.


Já faz uns dois anos que eu estudo, leio e converso bastante sobre o tema "Singularidade". Uma das coisas que mais me fascina nesse assunto é a eminente possibilidade que o ser humano tem de, finalmente, vencer a morte e “evoluir” para uma espécie mais avançada. Alguns enxergam isso com medo, desdém ou “presságio do Apocalipse”. Mas eu vejo com empolgação e com uma vontade enorme de fazer parte dessa transformação. Acredito que a tecnologia ainda vai melhorar muito a nossa vida e que nos dará coisas que a religião e a filosofia, até o momento, só prometeram.
Já refleti muito (mas muito mesmo) sobre as promessas do Ray Kurzweil, de que chegaremos na Singularidade daqui a 30 anos. Confesso que discordo da precisão dessa data. Mesmo compreendendo a curva da evolução exponencial, eu vejo 2045 como algo próximo demais. Mas é aquela velha história: água mole pedra dura, tanto bate até que fura. Uma hora, a Singularidade vai acontecer (ou seja: acho pouco provável a outra previsão que acredita na extinção da espécie humana antes do pulo do gato).
E quando esse dia chegar (seja 2045 ou depois)? Já chegou a imaginar um mundo onde ninguém precisa morrer? Um mundo onde você pode fazer backup do seu cérebro e sobreviver a qualquer tipo de fatalidade, pois sua mente estará “nas nuvens” e à prova de qualquer acidente. Fazer um backup do seu cérebro poderá ser como fazer um backup da sua conta de celular quando você perde ou estraga seu aparelho.
Pois é, eu já pensei muito sobre isso. Acho pouco provável que as pessoas percam por completo seus objetivos de vida e que se atirem numa vida desregrada, se drogando ou se masturbando em vias públicas. Tá... talvez isso aconteça mesmo, mas não será a regra. Que vai ser um mundo absurdamente diferente desse que temos hoje, não há duvidas. 


Mas e quais seriam os objetivos da raça humana depois da tão sonhada imortalidade premiada? O que nos moveria? A curiosidade de descobrir se existe vida em outros planetas? Uma eterna luta por prazer e acasalamento? Poderia ser a resposta para perguntas como “De onde viemos?”, “Pra onde vamos?”, “O ovo ou a galinha?”, “Michael Jackson era mesmo pedófilo?”...
Mas eu tenho outro palpite: Por que não reviver as pessoas que chegaram atrasadas na fila da imortalidade? Pessoas que já morreram e que ainda vão morrer até 2045 (ou seja lá quando essa porra chegar). Porque uma coisa é certa: se a imortalidade chegar um dia depois da morte de sua mãe ou do seu pai, você vai ficar MUITO PUTO com isso, né? Na minha opinião, vai chegar depois de todos nós batermos as botas. Mas essa é só a minha opinião.
Seria chato a gente evoluir e trabalhar tanto por isso para, no final das contas, perder o melhor da festa. Mesmo que estejamos construindo os caminhos para as futuras gerações, esse alento ainda me incomoda. Eu quero viver pra ver!
Então me recorreu um pensamento que também faz parte das ambições mirabolantes de Ray Kurzweil: ele pretende, num futuro próximo, trazer seu falecido pai de volta à vida. Repare que já não estamos mais falando em “manter vivo” e sim “transformar vivos em mortos”. É algo ainda mais complicado. Bem mais complicado!


Essa parte de backup cerebral até vai, mas e o que fazer com cérebros de pessoas que já bateram as botas há mais tempo? O que fazer com aquelas pessoas que foram cremadas e tiveram seus cérebros transformados em pó? O que fazer com aquelas que morreram sem deixar herdeiros ou sem convívio social pra serem lembradas pela posteridade?  Vou ser igualitário agora: acho que todo mundo deveria ter a chance de ressuscitar, não só quem nasceu ou ainda vai nascer numa época “privilegiada”.
A questão é: “como trazer de volta essas pessoas?” Bom... a primeira informação que devemos ter bem clara é: Quando esse assunto for discutido seriamente e se tornar um objetivo pra comunidade científica (ainda não é), já estaremos num ponto bem mais avançado na curva da evolução exponencial. Já teremos nosso “Google Brain”. Seremos como a personagem principal do filme Lucy (quem assistiu vai entender). Teremos acesso instantâneo a informações que hoje só são adquiridas com horas de busca na internet. Talvez consigamos até mesmo compreender o Ranking da FIFA. E é lógico que, quando a raça humana toda for assim (e não somente a Lucy), tudo será completamente diferente. Não me pergunte exatamente como.
Já pensou como será a realidade virtual até lá? Pense num Oculus Rift bilhões de vezes melhor. Agora pense que um estudo avançado sobre átomos, partículas e mecânica quântica poderá dar respostas para perguntas que ainda não temos condições de fazer. Se esse dia chegar (e, convenhamos, vai chegar), teremos condições de “viajar no tempo” através da realidade virtual e “observar” tudo que já aconteceu (de verdade) nesse planeta. Poderemos assistir à decapitação de Maria Antonieta como se estivéssemos presentes no local. Não estou falando de uma releitura dos fatos, e sim a imagem original, com toda nitidez e sensações da época (luz, temperatura, umidade do ar, gravidade, sons, cheiros...). Realidade virtual no seu ponto extremo!
Claro que não estou falando da possibilidade de interferir no fluxo do tempo. Isso, por si só, resultaria num paradoxo que nem cabe aqui discutir. Vamos trabalhar com a ideia de que o tempo é linear e imutável, ok?


Se isso acontecer, a galera do futuro vai poder “viajar” no passado e observar simplesmente tudo que já aconteceu na história do planeta. Vai poder observar o que aconteceu no World Trade Center aos 11 dias do mês de setembro em 2001. Vai poder ver Moisés abrindo o Mar Vermelho bem na sua frente (será que isso aconteceu exatamente como a Bíblia diz?) Vai poder presenciar o momento do parto de qualquer pessoa. Vai poder descobrir se seu pai era realmente um homem fiel. Vai poder até mesmo ver pra crer em como o Brasil conseguiu levar 7 a 1 da Alemanha numa Copa do Mundo disputada em casa. E o melhor: poderá fazer isso como se estivesse dentro do campo, no meio dos jogadores (lembrando sempre: sem poder interferir). E sem narração do Galvão Bueno!
Bom... acho que se isso acontecer como eu imagino que aconteça, vai ter muita gente que vai passar o dia inteiro “se divertindo” nesse “Second Life”, bisbilhotando o passado e as vidas alheias. Eu iria achar isso divertidíssimo! Imagina que “você do futuro” esteja te observando nesse exato momento. Loucura, né?
Mas agora vamos mais além ainda nessa nossa curva exponencial (sim, eu fui longe mesmo).
Quando tivermos esse “software” (sei lá que nome daremos pra isso) de voltar ao passado e bisbilhotar tudo que já aconteceu na humanidade (do Big Bang até os dias atuais), teremos um outro objetivo em mente: scanear os cérebros dos falecidos.
Tome um martelinho de tequila e reflita comigo: haverá um software capaz de reconhecer sinapses/ondas-cerebrais/pulsação-de-neurônios e tudo mais que a “máquina” possa identificar como um cérebro humano. Aqui estamos falando de programação/robótica/I.A. num nível absurdamente avançado. Essa “máquina” será programada pra reconhecer um cérebro segundos antes da pessoa entrar em estado de óbito.


Vamos pegar o exemplo do falecido Beatle John Lennon, que morreu às 23h02m58s do dia 8 de dezembro de 1980, na frente ao edifício Dakota, em Nova Iorque (lógico que o horário não foi exatamente esse, estou chutando). Nosso generoso software detectaria Lennon no exato instante em que ele perdeu sua consciência e foi dessa pruma melhor. Com sua ampla tecnologia, seria capaz de identificar o cérebro do astro e captar todas suas informações através de códigos binários a serem decodificados.
Esse “robozinho” então voltaria para o “presente” (ano 5.000, vamos supor) com os “dados cerebrais” de John Lennon a exato 1 segundo (talvez até menos) antes do óbito. Esses dados seriam, provavelmente, um código, assim como seu DNA é. Pegue esses dados em formato TXT (ou seja lá o que tivermos à disposição) e jogue numa impressora 3D. O que teremos de volta? Yes, baby! John Lennon! O próprio John Lennon! Com todas as suas convicções, sonhos, ideologias e lembranças que ele tinha antes de morrer, inclusive seus segredos mais íntimos que nunca contou pra ninguém.
Mas e que corpo ele teria? O mesmo de 1980 (40 anos)? Acho que, até lá, esse papo de corpo vai ser meio over. Já teremos condições de trocar de corpos (a carcaça), como hoje trocamos de aparelho celular. Mas pra não ser injusto com o nosso amigo John Lennon, vamos lhe dar um corpo praticamente idêntico ao que ele tinha enquanto viveu na Terra (entre 1940 a 1980). Idêntico! Ok, mas o corpo dele mudou muito desde o dia do nascimento até o dia do assassinato. Pra ser mais generoso ainda, vamos lhe dar o corpo que ele tinha no auge de sua forma física: uns 18 anos, suponho eu. Como saber que era aos 18? Nosso avançado programa de inteligência artificial descobriria isso em questão de segundos: basta apurar todo processo de evolução do biotipo da pessoa e detectar qual foi o momento mais saudável em toda vida dela). Eu particularmente acho que meu corpo esteve no auge da forma física e do vigor quando eu tinha meus 21 anos. E você?
Lógico que uma pessoa que sempre se achou feia ou gorda poderia trocar seu corpo por um melhor. Poderia até trocar de corpo por algo totalmente diferente do que já foi. Mas acho que, como “sugestão do fabricante”, as pessoas deveriam retornar à vida com seu último instante de consciência e o auge de sua forma física. 


Agora pense isso acontecendo com todo mundo! Todo mundo mesmo! Até os caras mais filhos-da-puta da história seriam revividos. “O quê? Ressuscitaria Hitler também?” Sim, todo mundo. “Mas olha quanta gente ele matou!”. Sim, as pessoas que ele matou também iriam ressuscitar. “Mas o sofrimento que ele causou foi imensurável e permaneceu por milhares de anos após a Guerra.” Mas foi reparado, não foi? Se ainda sobrar algum rancor, chame ele pra briga e lhe dê uma boa duma surra. “Ah, mas ele merece mais do que isso!” Pra quê tanto ódio nesse coração?
Tá certo que haveria aqueles que, por algum motivo, abrissem mão da vida eterna e fizessem questão de desaparecer. Mas vale lembrar que todas as causas que levam uma pessoa a optar pelo suicídio também deixariam de existir: dor, depressão, vergonha, humilhação, solidão, tédio... pra todos esses problemas haveria uma solução.
Calcula-se que cerca de 108 bilhões de seres humanos já habitaram o planeta. Acho que todas elas mereciam estar vivas. Seria perigoso haver um “juiz” dizendo quem volta e quem não volta. Isso seria mais do que um juiz, seria um Deus. Então, deixa o nosso software imparcial e incorruptível trabalhar em paz.
Nosso amigável software “ressuscitador” iria se encarregar de captar o “córtex final” de cada indivíduo (inclusive pessoas que morreram no parto) e trazê-lo consigo para o "presente". Imagina como seria se você acordasse daqui a milhares de anos após sua morte? Imagino que a reação imediata seria: “Meu Deus! Estou no Céu! O além existe de verdade!”. Mas isso que hoje a gente chama de “Além” pode ser, quem sabe, o futuro. Simplesmente o futuro.


Você estaria vivo assim como seus bisavôs, as vítimas do Holocausto, os filósofos gregos, os homens das cavernas... Todo mundo! Isso não lembra o Céu do Cristianismo, onde todo mundo se reencontra depois de morto e vive tocando arpa em nuvens que mais parecem algodão doce? A diferença é que hoje isso é tratado, em âmbito científico, como uma mera fábula. Mas talvez a ciência, a religião e a filosofia tenham enredos muito parecidos.
A Bíblia fala que os mortos retornarão à vida. E isso muito antes do sucesso de Walking Dead! Se o futuro ocorrer exatamente como eu escrevo aqui (lógico que não vai ser exatamente assim mas, quem sabe, algo parecido), teremos todo mundo vivo e coexistindo no mesmo “plano espiritual” (sem essa de “nós na Terra e os defuntos no Céu”).
Já pensou como seria um mundo assim? Com TODO MUNDO de volta à vida! Já pensou você vivendo no mesmo mundo que seus bisnetos, seu pai, seu avô, seu bisavô e o bisavô do seu bisavô?
Ah, claro! Talvez você se pergunte: "Mas e a população? Como iria caber tanta gente na Terra?" Bixo, seeeee a gente conseguir chegar a esse estágio um dia, eu imagino que essa história de colonizar outros planetas habitáveis já vai ser um assunto batido. Até lá, provavelmente, já teremos planetas suficiente pra abrigar mais de 300 bilhões de pessoas (pensando exponencialmente). Ou talvez chegue um dia em que a gente nem precise mais de "espaço físico" pra viver. Estaremos, quem sabe, vivendo num espaço "virtual" e ilimitado.
Bom... eu já venho pensando nisso há uns dois anos, mas foi só em agosto do ano passado que essa ideia mirabolante ganhou corpo e se transformou em algo prático, sólido e concreto.

LINDO NÉ??? (o livro, não eu! ¬¬)
 

Como surgiu a ideia

Estive em Goiânia entre os dias 15 e 18/8 de 2014, na companhia de meus amigos Willian Ceolin, Simoni Helfer, Nelson Knak Neto e o anfitrião Leandro Zayd, que nos recebeu em sua casa. Ceolin e Zayd, mais do que eu, manjam muito do assunto Singularidade. E foi conversando com eles que a gente chegou longe nesse papo de ressurreição e num eminente mundo onde TODO MUNDO estivesse vivo.
“Já pensou como seria ter Jesus, Maomé e Buda discutindo numa mesa de bar?”, comentou o Ceolin, em tom de brincadeira. A ideia ficou martelando a minha cabeça e, durante o voo de volta pra Porto Alegre, uma ideia me veio à cabeça: Já pensou que legal seria fazer uns vídeos pra web, no estilo Porta dos Fundos, com pessoas que já morreram contracenando com defuntos de outras épocas ou até com quem está vivo hoje?


A ideia parecia boa, mas praticamente impossível de executar, em virtude do alto investimento que teríamos com equipamento de filmagem, iluminação, cenários, figurinos, elenco... Mas a ideia parecia legal demais pra ficar só na imaginação. Então eu liguei os pontos: “Peraí, eu não sou um exímio desenhista, mas dou pro gasto. E se ao invés de fazer em formato de vídeo eu fizesse no formato de... tirinhas?!”
Claro que a ideia já não era mais usar os personagens num mundo “ultra futurístico” pós-Singularidade. Adaptei a pergunta central para: “Imagina como seria ressuscitar todas as pessoas NOS DIAS DE HOJE?”. Isso sim eu sei que é impossível, mas a ideia continuou sendo interessante mesmo assim.
Resolvi então rabiscar umas três tirinhas com personagens bastante conhecidos: uma com Jesus e Hitler, outra com Reginaldo Rossi e José (da Bíblia) e outra com Steve Jobs e Eva (bom... essa última aí eu acho que nunca existiu de verdade, mas enfim...). Fiz sem compromisso, só pra apresentar pra uma meia dúzia de amigos. Eles viram e acharam muito leal. Pediram pra eu fazer mais e até sugeriram outros nomes. Fiz mais umas quatro e levei pro pessoal do 2º Encontro de Quadrinistas e Fãs de HQ dar uma olhada. Esse evento ocorreu em Santa Cruz do Sul nos dias 12 e 13 de setembro do ano passado. A ideia foi bastante elogiada (inclusive por entendidos do assunto) e isso me fez perceber que eu tinha uma ideia com potencial nas mãos.


Então fiz mais e mais tirinhas, até perceber que cheguei numa quantidade impressionante em pouco tempo. Eram mais de 100 tirinhas em três meses, com mais de 100 personagens ressuscitados. Peguei gosto pela coisa e ouvi muita gente dizendo que a ideia era boa demais pra não ser publicada. Mas eu sabia que colocar num jornal estava fora de cogitação (tem muita tirinha que nunca iria passar pelo crivo da censura).
Resolvi então publicar um livrinho nos mesmos moldes do Tirinhas do Zodíaco, que eu tinha desde 2010 e que me serviu de “fonte de inspiração”. O livrinho foi impresso de forma independente, com recursos próprios (banquei com minha própria grana). Um total de mil unidades.
Escolhi então o dia 2 de abril pra fazer o “lançamento oficial”: Páscoa / Ressurreição / Ressuscitados: tudo a ver!
O resultado você pode conferir no site oficial das tirinhas:


Lá, você encontra dezenas de tirinhas que eu já fiz (inclusive algumas inéditas). Mas é claro que a grande maioria você só encontra no livrinho, que está à venda nas melhores livrarias de Porto Alegre e SantaCruz do Sul por um precinho camarada (o blog é meu e eu faço jabá quando eu quiser).
As tirinhas são, em geral, cômicas e divertidas. Algumas nem tanto, mas ao menos servem pra destacar a importância do legado de alguma personalidade que já se foram. Considero uma boa forma de ensinar História, afinal, você pode desconhecer algum personagem e, através da piadinha, acabar tomando conhecimento da sua relevância (desde que você saiba usar o tal do Google, claro). Tem personagens que eu me senti na obrigação de inserir nas tirinhas, mesmo que a piada em si não tenha ficado tão engraçada.
Gosto do humor que faz pensar. Gosto quando “o riso passa e a reflexão fica”. Várias tirinhas foram feitas com esse propósito. Algumas até não têm graça nenhuma, mas permitem uma discussão e uma reflexão pertinente. Admito: é preciso ter uma certa dose de inteligência pra entender algumas tiras. E fazer gente inteligente rir não é tarefa fácil.


Uma das coisas mais legais de ter feito o Ressuscitados foi justamente o fato de eu ter encontrado algo de PRÁTICO depois de anos discutindo Singularidade, Transhumanismo, Ressurreição... Uma coisa é ficar eternamente na teoria, criando suposições e divagando sobre o intangível. Outra coisa é transformar a ideia em algo real.
Ressuscitados é fruto de muito estudo, divagação e reflexão transformados em prática. É a materialização de uma ideia que não ficou só na teoria. Eu precisei arregaçar as mangas e pegar o papel e a caneta. Precisei de embasamento teórico, conhecimento prático e habilidades técnicas. Funcionou: o livrinho saiu do forno e meu trabalho já está sendo apreciado por centenas de pessoas. Se é só o começo ou o fim eu não sei, mas o exemplo está aí pra quem ainda não sabe o que fazer com aquela ideia engavetada. ;)

terça-feira, 21 de abril de 2015

TOMORROW (fui lá e fiz)


Entre os dias 13 e 18 de abril, tive o privilégio de fazer um curso sobre futurismo, hacking e tecnologia na Perestroika, em Porto Alegre. Era o curso Tomorrow, ministrado pelo professor Tiago Mattos, um dos sócios-fundadores da Perestroika e também sócio da Aerolito. Tiago foi um dos poucos brasileiros que cumpriu a façanha de estudar durante dez semanas na prestigiadíssima Singularity University
Fiquei sabendo desse cursos graças à Patroa, que assistiu a uma palestra que o Tiago deu na Escola RBS. Enquanto a palestra rolava, a Patroa ficava me metralhando com mensagens via Whatsapp dizendo que eu iria enlouquecer com esse curso, que tinha a minha a cara e que tinha tudo a ver com os assuntos que eu gosto (Singularidade, tecnologia, futurismo...). Não deu outra: pedi pra Unisc me liberar durante uma semana e pra bancarem esse curso pra mim. Pra minha surpresa, a Unisc topou e lá fui eu!
Cerca de 45 alunos fizeram o curso. A maioria era da área da Comunicação, como eu. Porém, poucos deles já tinham ouvido falar do Ray Kurzweil e daquilo que conhecemos por "Singularidade Tecnológica". Ainda assim, poderia ser uma ótima forma de fazer contatos e de encontrar uma aplicabilidade desses conhecimentos no dia-a-dia do meu trabalho como publicitário na Assessoria de Comunicação e Marketing da Universidade.
Compartilho, abaixo, um relatório bastante longo e detalhado do que vi e vivi nesses cinco dias de curso. E quando eu digo que é bastante longo e detalhado eu falo sério. As informações abaixo são bastante pessoais e representam meramente a MINHA percepção sobre o curso. É um relatório que eu espero voltar a ler daqui a um tempo, para relembrar essa incrível experiência que tive. E se você tiver a oportunidade de fazer esse curso na cidade onde você mora, não pense duas vezes, não olhe pra sua carteira. Simplesmente FAÇA! Ou melhor, "vai lá e faz!".




AULA 1 – Kurzweil está entre nós

Atendi ao pedido de chegar na Perestroika 1h antes do início oficial da aula, que estava programado para as 20h. Quando entrei lá, me deparei com algo mais parecido com uma festa rave do que uma “escola”. Tudo bem... eu já sabia que a Perestroika tinha essa proposta de ser algo mais descolado e fora dos padrões convencionais. Além da cerveja liberada pra galera, tinha salgados, docinhos e café. Como eu tava muito a fim de me envolver com o assunto do curso, fiquei inicialmente só no café. Lógico que, não demorou muito, tive que partir pra cerveja. Antes mesmo da aula começar. Nesse meio tempo, claro, eu aproveitei pra trocar umas ideias com alguns colegas e pra fazer a “política da boa vizinhança”.
A Aline, “diretora de whatever”, me apresentou o Tiago, professor do curso. Aproveitei a ocasião pra presentear ele com um exemplar do Ressuscitados. Percebi que ele deu uma rápida folheada e que deu uma lida na dedicatória que fiz pra ele. Acho que sacou, na hora, o que aquilo tinha a ver com o tema do curso. Mas como havia outros 40 alunos ali pra tomar a atenção dele, evitei importuná-lo.
O curso começou antes do horário previsto. Por volta das 19h30, o Tiago já estava introduzindo o assunto, que inicialmente foi um jabá da Perestroika e da Aerolito. Aí veio aquela famosa e inevitável dinâmica de auto apresentação dos alunos. Nesse caso, porém, tinha que ser diferente: ao se apresentar, cada um deveria riscar um fósforo e deixar o fogo ardendo no palito. Só se fala enquanto o fogo está aceso. Isso é pra evitar aqueles que adoram falar de si mesmo e que ficam mais de 10 minutos divagando. Além de se auto apresentar, cada aluno deveria contar um segredo seu. Mas não seria qualquer confissão. Tinha que ser um daqueles segredos que jamais se contaria a um(a) pretendente num primeiro encontro. Particularmente, achei legal a ideia, bem diferente das apresentações normais.
Percebi que alguns alunos mandaram bem na improvisação e contaram segredos bem engraçadinhos. Quando chegou a minha vez, eu me deparei com o meu sério problema de riscar fósforos (eu não sou bom nisso /o\). Ao falar de mim mesmo, disse: “Meu nome é Bruno, eu nasci em Porto Alegre mas, hoje, moro em Santa Cruz. E o meu segredo é que eu sou tão nerd, mas tão nerd, que eu já viajei pro Japão pra voltar com uma mala cheia de bonecos... E eu choro assistindo Jaspion!”
Depois que eu falei isso, percebi quem alguém, no meio da sala, gritou: “Jaspion é colorado!!!”.  Só podia ser alguém confundindo Jaspion com Jiraiya e relembrando o famoso caso em que o ator Takumi Tsutsui (intérprete do Toha Yamashi/Jiraiya) virou notícia no Brasil inteiro ao ser visto com uma camisa do Inter em 2013 (cinco anos depois de eu ter presenteado ele com a camisa).
Depois das apresentações, o Tiago pediu para que os alunos se reunissem em grupos de oito. Me juntei a um grupo de mais cinco rapazes e duas moças. Nessa dinâmica, cada um deveria escrever, num post it, sobre suas expectativas com relação ao curso. Havia apenas um minuto pra escrever. Eu disse que “espero aprender algo além de tudo aquilo que já vi Ray Kurzweil e Peter Diamandis dizerem e, é claro, encontrar alguma funcionalidade dos conhecimentos adquiridos no curso para o meu trabalho (até porque é a Unisc quem está pagando o curso, então...).”
Depois disso, foi a vez de cada um falar pessoalmente sobre suas expectativas na roda de conversa entre os oito de cada grupo. Quando foi a minha vez de falar, citei oralmente os nomes de Kurzweil e Diamandis. Quase ninguém ali da roda tinha ouvido falar desses dois nomes (que coisa, não?). Expliquei brevemente sobre a importância do Kurzweil e suas previsões. O pessoal do grupo se interessou mas, lógico, não deu pra me aprofundar muito sobre o assunto. Apenas disse: prestem atenção, pois o Tiago vai mencionar várias vezes esse nome ao longo do curso.
Dito e feito. A primeira aula foi basicamente um estudo sobre a vida e a obra de Ray Kurzweil. Ok, um pouco mais do que isso: foi um alerta dizendo que as previsões mais malucas e mirabolantes são, geralmente, as que costumam se concretizar. Para ilustrar esse exemplo, foram exibidos dois célebres vídeos de Arthur C. Clarke falando sobre suas projeções sobre o futuro (um vídeo da década de 1950 e outro de 1970). Fabuloso!
A essa altura, já havia alguns alunos do curso dando sinais de orgasmo. E, realmente, quando se fala do futuro com esse tipo de perspectiva, é quase impossível não se empolgar.  Ao falar sobre a “curva do exponencial”, Tiago citou a comparação PA e PG. Nada de novidade pra mim: a noção linear de evolução que a grande maioria das pessoas tem é uma PA. Mas a evolução que realmente temos no que diz respeito a tecnologia é uma PG. Tiago então usou o exemplo do copo pra explicar como se projeta uma expectativa de evolução exponencial.
Depois de muito falar sobre futurismo e da lei de Moore (que, pra ele, é uma versão beta da “Lei de Kurzweil”), Tiago falou sobre as duas formas de encarar esse futuro da tecnologia que aguarda todos nós. Há dois tipos de pessoa: A) as que enxergam o futuro com bons olhos e com entusiasmo; B) as que enxergam o futuro com medo e repúdio. As pessoas do primeiro exemplo serão aqueles que construirão o futuro. As do segundo exemplo, sorry, serão aquelas que apenas o observarão. E você? Faz parte de qual exemplo?
Olhando por esse prisma, sou obrigado a reconhecer que fiquei empolgado com a primeira aula, embora nenhum exemplo futurístico ilustrado ali seja novidade pra mim. Nenhum. Mas confesso que os exemplos que vi ali me deixaram com uma vontade enorme de discutir pessoalmente esse assunto com o Tiago e os envolvidos. O foda é que a turma era muito grande e a maioria ali, provavelmente, ainda está só começando a compreender o assunto.
Depois da aula, rolou uma espécie de Happy Hour da saideira, no qual eu pude discutir o assunto com alguns. A Aline foi uma das que ficou mais tempo trocando ideias conosco. Também aproveitei a ocasião pra revelar ao colega Tiago Trindade (o que tinha gritado “Jaspion é colorado!”) que o Jiraiya é o colorado, não o Jaspion. O Tiago apareceu uma hora na nossa roda de conversa e eu aproveitei a ocasião pra lhe fazer umas perguntas bem objetivas: Chegaremos na Singularidade em 2045? Tu foi aluno do Ray Kurzweil? Já ouviu falar do Venus Project? Conhece pessoalmente o Federico Pistono?
As respostas dele, em versão resumida: “Sobre esse papo de Singularidade, de 2045 e de ressurreição, falarei mais nas próximas aulas, portanto, evite dar spoilers pros outros alunos caso esteja mais por dentro do assunto; Ray Kurzweil deu duas aulas pra mim e eu até cheguei a apresentar minha tese pra ele; Nunca ouvi falar do Venus Project (>_<); Federico Pistono é um grande amigo meu, já trouxe ele pra Porto Alegre e o levei pra lugares que não posso revelar.”
Foi só o primeiro dia. Espero que eu possa me aproximar ainda mais desse pessoal, porque eles manjam muito e, bem provavelmente, o contato direto e a proximidade com essa turma é o que pode fazer esse curso valer a pena.




AULA 2 – Potencialmente tosco

No segundo encontro, já comecei a perceber quais eram os alunos do curso com os quais eu mais tinha proximidade. Um deles é o Franco, de Pelotas, que conversou comigo na segunda e voltou a sentar perto de mim na terça. Ele até me mostrou como funcionava a “caixinha” do dinheiro da cerveja.
Franco percebeu que eu não existo no Facebook e comprometeu-se em me repassar via e-mail tudo aquilo que vinha sendo compartilhado no grupo. Pelo menos assim eu não fico de fora do que anda rolando por lá. Quem também estava no curso, como "aluno especial", era o Marcos Piangers, da Rádio Atlântida. Conversei rapidamente com ele e até comentei sobre a sua caricatura que eu tinha feito em Santa Cruz, durante a Manhã Criativa. Ele também garantiu seu exemplar do Ressuscitados. Cara de sorte! :P
A primeira tarefa que o Tiago passou pro grupo foi uma dinâmica em quintetos. No meu grupo estavam praticamente todos que se reuniram no dia anterior (Franco, Micheli, Pedro e Luciana). A missão era imaginar como seria o aparelho celular daqui a dez anos, dentro da lógica de evolução exponencial. O grupo tinha cinco minutos pra apresentar uma “ideia” e, claro, todos fizeram projeções bastante ousadas do que seria esse celular futurístico. Basicamente, entramos num consenso de que o aparelho físico está com os dias contados e que a tal da lente incorporada ao próprio corpo humano será uma realidade corriqueira em 2025. Gostei bastante da fala do meu colega Pedro, que também acredita que o mundo culminará num cenário em que o sistema financeiro será atropelado pela tecnologia, mas isso certamente vai levar mais do que dez anos.
Depois, foi solicitado que os grupos se dissolvessem e que cada membro do quinteto fosse pra outro Sentai, totalmente reformulado. Nesse meu novo grupo, me deparei com outras pessoas que tinham ideias parecidas: o celular vai deixar de existir fisicamente e vai começar a ser incorporado aos nossos corpos.
Depois dessa dinâmica, todos voltaram aos seus lugares de origem e o Tiago, por sua vez, começou a dar o exemplo de várias tecnologias que estão emergindo hoje. Algumas eram completamente novas pra mim, outras nem tanto. Elas são: impressora 3D (óbvio); Doodler; Thalmic Clabs; Kinect (muito além dos games de entretenimento); Eye Trackler; Tobii Eyex; Tobii Glasses; Eeg; Neurosky; Emotiv Epoc; Card Board; Google Glass (in memorian); Air VR, Smart Glasses, Google Now e; claro, o Oculus Rift.
Vale a pena correr pro Google e dar uma pesquisada sobre cada uma delas. Uma das coisas mais legais que me chamaram a atenção foi o tal do Tobii Glass. Meu colega Rodrigo Gesswein comentou que o seu pai (falecido em março) viveu doze anos com uma doença semelhante à do Stephen Hawking. Por isso, ele comprou o Tobii Glass, que permitia que o pai dele emitisse sinais na tela de computador com o simples deslocamento do olhar: o computador é calibrado conforme sua retina e o lugar pra onde você olha se torna o “cursor do mouse”.
O mais interessante de tudo é que são tantas tecnologias diferentes e com as mais variadas finalidades que, num primeiro momento, são somente empolgações distintas. Mas, quando você pensa que todas essas tecnologias podem se fundir num futuro próximo, a parada fica bem mais interessante. Juntar a realidade virtual com a realidade aumentada (a.k.a. holograma), com a experiência do Tobii Glass, com a capacidade de captar movimentos do Kinect e com as demais experiências que estão surgindo vai ser algo que, muito em breve, revolucionará por completo a tecnologia. E isso sem falar na intenção que o Facebook tem de tornar o Oculus Rift gratuito.
E olha que, quando se fala em Oculus Rift, é sempre importante ressaltar que já existem modelos ainda mais avançados e mais realistas, como o Glyph. Ao concluir a aula, Tiago mostrou mais um vídeo do Jason Silva (muito bom!). Um vídeo que tinha tudo a ver com o assunto que foi abordado: a fusão de todas as tecnologias emergentes resultando em algo que ainda parece muito além do nosso alcance. Estamos falando da evolução exponencial na área da nanotecnologia, da genética e da robótica. Tudo deve culminar naquilo que Kurzweil imagina que será a Singularidade e o dia em que nós nos tornaremos “Deuses”. Lembra exatamente a resposta que o Kurzweil tem para a pergunta “Deus existe?”: “Ainda não”.
Claro que a cereja no bolo foi o momento “degustação” ao final da aula, no qual todo mundo que quisesse poderia experimentar o Oculus Rift. Era um dos momentos que eu mais aguardava. Mas confesso que esperava mais em termos de experiência. O que me foi apresentado foi o que o próprio Tiago chamou de “Atari da Realidade Virtual”. E era isso mesmo: gráficos simples (quase um Dos), funções básicas e sem aquela prometida sensação de tontura. Mas valeu pela experiência e pelo “first contact”. Também tive a oportunidade de “andar numa montanha russa” com o CardBoard, de testar a caneta que faz desenhos em 3D (desatstroso) e de assistir a um trecho dum filme pornô através do Óculos Rift. Não preciso comentar sobre essa parte, né?
Ao término da aula, bati um papo com o Tiago e comentei que o Oculus Rift é aquela coisa que você olha hoje, acha foda e tal mas, dá pra imaginar isso sendo perfeitamente classificado como algo tosco daqui a alguns anos. Aquele trambolho enorme que não tem como ser algo "moderno" em 2030, por exemplo. "É verdade! Potencialmente tosco, eu diria", comentou o Tiago, ao concordar comigo. Perguntei se ele acredita na hipótese de, num futuro distante (ou não), podermos “voltar no tempo” como observadores e ver tudo que já aconteceu na Terra. Falei na possibilidade dele assistir seu próprio parto e do “Tiago do futuro” estar ali nos assistindo e rindo da nossa cara. Ele não escondeu o sorriso e falou com empolgação: “Com certeza!” Isso me anima bastante! E me anima mais ainda quando percebo que eu estou vislumbrando o futuro com entusiasmo e empolgação, com ou sem Oculus Rift.




AULA 3 – A Singulariade está chegando mesmo

Cheguei mais cedo na Perestroika dessa vez porque tinha combinado de trocar uma ideia com o Tiago em particular. Conversei com ele sobre imortalidade, ressurreição e até sobre trazer os mortos de volta (uma alusão ao Ressuscitados). A ideia que ele tem sobre isso é um pouco diferente da minha. Ele acha que isso pode ser viabilizado através da distorção do tempo como quarta dimensão e através das outras dimensões que ainda não temos condições de compreender, como a quinta dimensão (Michio Kaku diz que existem até dez dimensões, mas isso é loucura demais pra minha cabeça). Perguntei também se o Tiago tem disponibilidade pra dar palestras em outros lugares ou universidades. Ele disse que, até o final do ano, sua agenda está praticamente esgotada, até porque ele vai pra Israel em julho e depois vai morar uns dois anos em um país da Europa.
A terceira aula foi também a mais aguardada por mim, já que fala justamente sobre o assunto que fez eu me interessar pelo curso: Singularidade. Pra introduzir esse tema altamente complexo, polêmico e até filosófico, Tiago começou falando sobre as três revoluções exponenciais que já estão acontecendo nesse exato momento. E, claro, são a Genética, a Nanotecnologia e a Robótica (GNR). Quem disse isso não foi o Tiago, e sim o Ray Kurzweil: foi apresentado (mais um) trecho do Transcendent Man em que esse tema é abordado.
Sobre genética, demos uma rápida olhada em tendências como a tal da carne de laboratório e na criação da “vida artificial”. Ao falar da Nanotecnologia, um dos exemplos mais positivos e empolgantes é o combate ao câncer através de nanobots que entram no corpo humano e eliminam as células cancerígenas.
Mas é claro que a principal revolução está na Robótica e na Inteligência Artificial. “Vocês optaram por fazer um curso sobre futurismo, então imagino que vocês queiram ver robôs, robôs e mais robôs. Pois então vocês vão ver muito robô a partir de agora!”, disse o Tiago. Foram apresentados vários vídeos de robôs fazendo as mais diversas tarefas: o Asimo, o Drexler, o Jibo (robô doméstico que lembra até aquele robozinho do episódio 32 do Jaspion), o Watson... Claro que eu lembrei daquele vídeo do Leandro Zayd (o do Batman).
Vimos até robôs que desempenham tarefas “criativas” como o robô jornalista que escreve matérias a partir de fatos (com destaque pra matérias esportivas e econômicas). Tem até robô poeta e robô músico, que identifica padrões em notas musicais e passa a compor suas próprias músicas dentro daquele específico padrão.
Um dos vídeos mais legais que assistimos na aula foi o engraçadíssimo diálogo entre dois robôs que nunca tinham “interagido” antes (AI vs. AI: Two chatbots talking to each other). São dois robôs se conhecendo e que, em questão de segundos, interagem como se fossem pessoas de verdade, com sarcasmos e perguntas de ampla reflexão filosófica. Depois de assistir, você não sabe se ri ou se fica assustado.
Claro que todo esse papo de robótica absurdamente avançada coloca em cheque aquela velha pergunta: os empregos vão acabar. Tiago acha que sim. Mas até lá, claro, ainda veremos profissões como ascensorista de elevador ou “bandeirinha de posto de gasolina” desaparecerem. Antes da aula até tinha comentado com ele sobre o Venus Project (ele disse que vai dar uma procurada sobre isso. Tomara mesmo!) e ele acredita que chegaremos sim no dia em que só vai trabalhar quem quer e no que quer, já que o dinheiro vai se tornar obsoleto (cheiro de EBR no ar). Ele mesmo disse que, se não precisasse trabalhar, iria dedicar boa parte do seu tempo fabricando cerveja artesanal, que é algo que ele curte.
Depois de ver vários robôs, fomos convidados a refletir sobre essa “fusão” do ser humano (ou o ser orgânico) com a máquina. Foram apresentados uns cinco vídeos diferentes de pessoas utilizando próteses no corpo. Tiago pediu pra gente dizer se considerávamos aquilo um ser humano, um “híbrido homem-máquina” ou só máquina. Nos primeiros exemplos, tínhamos pessoas com próteses simples, como braço ou perna mecânica. Só que os exemplos iam ficando cada vez mais “híbridos”, como exoesqueletos, até chegarmos no vídeo em que um carrinho se locomove através da mente de um rato.
Eu já tinha matado a charada logo de início: se você considera uma pessoa que se locomove através do exoesqueleto um “híbrido homem-máquina”, deveria repensar sobre você mesmo e sua prótese chamada celular, ou relógio de pulso. Isso também é um lampejo de uma prótese. Mas é claro que a nossa mente binária tem dificuldades de enxergar uma mescla entre as duas coisas. Temos o vício de dizer que algo é humano ou máquina, é preto ou branco, é quente ou frio, é grande ou pequeno, é gordo ou magro, é bom ou não é... Entender que qualquer apetrecho tecnológico nos torna um pouco mais “robôs” é o primeiro passo pra compreender essa “fusão homem-máquina”.
Aí, claro, tivemos que mencionar o cenário distópico apresentado na série de filmes do Exterminador do Futuro. Tiago acredita que esse medo todo vendido no filme é quase um desserviço pra esperança que as pessoas têm na ciência. E já faz um tempo que eu concordo com isso. O próprio Jacque Fresco diz que roteiristas e produtores de Hollywood são excelentes artistas, mas maus futuristas, pois fazem as pessoas enxergarem a ciência e a tecnologia como algo mais ruim do que bom. Alertar as pessoas sobre as possíveis ameaças da tecnologia é importante, claro, mas instaurar o medo me parece um equívoco.
Ainda nesse papo de “homem-máquina”, assistimos a um vídeo do Kevin Warwick mostrando seu braço plugado na internet e seus alunos que fizeram coisas bizarras como mãos que detectam metais através de ímãs implantados na pele e mãos que detectam calor através de infravermelho. Sabe o que significa isso? Superpoderes!
Entra em discussão, evidentemente, a questão do chip implantado no corpo humano, o que nos tornaria ainda mais ciborgues e, evidentemente, levantaria uma absurda discussão sobre ética e teorias da conspiração. O Tiago deixou bem claro que é a favor do chip e que seria voluntário pra testar esse tipo de gadget.
Também falou que já chegou a mapear seu código genético pela bagatela de US$ 200. Qualquer pessoa pode fazer isso num site chamado “23andme”. Você pode ver seu DNA num arquivo TXT com milhares de algarismos. É como se fosse seu “código fonte”. Eu falei pros colegas que estavam na mesma mesa que eu, em tom de brincadeira, que se jogasse esse código numa impressora 3D e desse um “ctrl + P”... Tiago antecipou minha piada e disse a mesma coisa.
É o primeiro passo para o que eu acredito que, um dia, será a reimpressão de cérebros e, voalá, a tão sonhada imortalidade (e se você não quer ser imortal e prefere morrer, seja feliz no feliz no seu caixão). Claro que o Tiago não chegou a ir “no seco” ao tocar nesse assunto. Mas acho que qualquer pessoa inteligente da turma entendeu que a parada deve e vai culminar nisso.
Aí a galera começa a pensar no que seria um mundo ainda mais além dentro dessa curva da evolução exponencial, onde as máquinas, que serão nós mesmos, terão uma inteligência compartilhada superior a de toda raça humana pensante. O filme “Her” foi citado como exemplo, mas a minha colega Micheli também lembrou do Lucy, com a “Scarlett Johansen” que vira um pendrive.
Por fim, assistimos a mais um vídeo do Jason Silva esuaincrívelcapacidadedefalarotempointeiroemvelocidademodocincosemparar. Nesse vídeo, temos a visão de vários importantes cientistas que culminam naquilo que Kurzweil imagina que será o mundo na Singularidade. E o Tiago ainda lançou uma reflexão: “A filosofia, a religião e a ciência têm enredos muito parecidos.” Entra naquela discussão que divaga sobre “a Singularidade ser uma religião”, como se fosse algo pejorativo. Na verdade, estamos muito próximos de encontrar um sentido sólido pra essas três coisas.
É claro que, até o momento, nada do que foi discutido e apresentado tenha sido uma grande novidade pra mim, pois eu leio, converso e pesquiso muito sobre esse tipo de assunto há dois anos. O que me chamou a atenção foi ver gente suando as mãos, entrando em êxtase e pirando o cabeção com tanta novidade. É compreensível, afinal de contas, se inteirar sobre esse tipo de assunto em três dias é uma carga muito intensa de informação e uma transformação muito impactante de pensamento.
O que me deixa feliz é saber que estou “adiantado” nesse tipo de discussão, o que me permite absorver melhor as informações sem mais aquele fascínio inicial. Me permite ver o mundo com uma perspectiva bem diferente da maioria das pessoas (inclusive daqueles que estavam dispostos a fazer um curso sobre esse tema) e ter ideias como o Ressuscitados e outras coisas que, espero, ainda estejam por vir. Mas é lógico que eu quero mais, quero aprender algo de “prático” nesse curso que possa impactar o meu trabalho na Unisc ou até fora. O quê e como eu ainda não sei, mas parece que a quarta aula terá esse propósito. Como o Tiago mesmo falou: “Amanhã vamos voltar pro mundo real e discutir coisas mais práticas e compatíveis com os dias de hoje, principalmente na relação desse tipo de assunto com a área em que vocês atuam. Coisas como trabalho, mercado, carreira e outras paradas que, como vocês devem ter percebido na aula de hoje, não têm a menor importância.” E não é que eu, no fundo, gostei dessa definição?




AULA 4 – Mentes lineares num mundo exponencial

Antes do início da aula de quinta-feira, atendi ao pedido da minha colega Micheli e trouxe, no meu HD, o documentário Transcendent Man. Em todas as aulas, algum trecho desse documentário é apresentado e, constantemente, eu dizia pro pessoal ao meu redor que eram cenas de um vídeo que eu tinha salvo no computador.
A quarta e penúltima aula começou de uma maneira bem interessante. Ao invés do Tiago aparecer pessoalmente na sala pra falar conosco, o que vimos foi um robozinho com cerca de 40cm de altura sendo controlado via celular. Através desse robozinho, o Tiago conversava com a gente e sua voz saia do dispositivo conectado a ele. Tinha até um “robô assistente” que ele mesmo chamou de Roque: “Vem pra cá! Vem pra cá!” Esse robozinho assistente fazia papel de garçom e entregava latinhas de cerveja pros alunos. “Vocês lembram que ontem eu disse que queria trocar de corpo e passar meu cérebro pra um computador? Bom, taí o resultado!”, disse o Tiago. Claro que a turma inteira adorou e se divertiu muito com isso.
Depois desse “momento descontração”, a gente assistiu a um vídeo de 7 minutos com o palestrante Salim Ismail. Nessa apresentação, Salim fala sobre a lógica exponencial aplicada ao ambiente corporativo. Ele cita o esquema “IDEAS” (Interface Project, Dashboards, Experimentation, Autonomy e Social Technologies) para ilustrar melhor sua visão sobre o negócio.
Depois do vídeo, os alunos reuniram-se em quintetos para discutir, em 10 minutos, o que foi dito no vídeo e também sobre como aplicar esses conhecimentos no dia-a-dia do trabalho. No meu grupo tinha o Flávio, mais experiente, que trabalha com embalagens. Tinha também o Pedro, a Martinha e o Luís Buchecha. Depois de discutirmos sobre o tema, foi dada outra tarefa aos integrantes do grupo: “cada um deveria pegar o celular do colega ao lado, telefonar pra alguém e explicar pra essa pessoa como funciona a evolução exponencial”.
Eu passei meu celular pro Pedro e sugeri que ele ligasse pro Ivan, do RJ. O Luís me passou o seu celular e fez eu ligar para seu amigo João. A conversa com o João foi bem divertida (tirando o fato dele estar saindo do banho). O problema é que tinha tanta (parecia Bolsa de Valores) que eu resolvi ir pra um lugar mais silencioso. Sem saber, acabei indo parar ao lado de uma outra sala de aula e comecei a berrar no telefone porque, apesar de estar afastado do resto do pessoal, ainda ouvia-se muito barulho. De repente, sai uma professora da sala reclamando e dizendo que estava tentando dar aula bem ao lado de onde eu estava berrando. Felizmente, ela foi extremamente educada comigo e resolvemos isso numa boa.
Foi uma experiência bem curiosa. Depois dessa zoeira toda, voltamos pra sala e nos acomodamos novamente. Foi dado um intervalo de “uma música” pra galera se reestabelecer e depois o Tiago já estava ali, em carne e osso, pra falar conosco pessoalmente.
Na retomada, Tiago citou o exemplo do livro “Robots will steal your job, but that’s ok”, de Federico Pistono. Eu já tinha conversado sobre isso com ele na segunda e, quando pedi a palavra pra citar o Larry Page (o presidente do Google que eventualmente cita o Pistono), o Tiago pediu pra eu falar mais sobre o Venus Project. Até me surpreendi com aquilo. Claro que, seria difícil demais explicar sobre o TVP em menos de três minutos, mesmo sendo para uma turma disposta a entender. Falei que o Venus Project tem tudo a ver com a “tecnologia voltada para o bem” e com o Movimento Zeitgeist, do qual o Pistono faz parte. Disse que o Jacque Fresco, idealizador do projeto, hoje tem 99 anos e viveu a crise de 1929, além de ter se aprofundado muito no assunto durante essas décadas. Falei que o Venus Project tem uma visão mais social e que busca estabelecer um mundo sem dinheiro, no qual os robôs trabalharão pra gente e nos fornecerão abundância plena, algo que vai de acordo com aquilo que o Peter Diamandis tanto defende.
Pra minha surpresa, tinha um cara na turma que já tinha ouvido falar do Zeitgeist e do Venus Project. E essa cara era o... Franco! Lógico que, em virtude da falta de tempo, tivemos que seguir tocando o barco e o Tiago então mostrou uns vídeos que têm tudo a ver com desemprego tecnológico e aquilo que o Jacque Fresco e o Pistono concordam: robôs podem e devem trabalhar no lugar das pessoas, porque 95% dos trabalhadores odeiam o que fazem, mas precisam fazer porque precisam sobreviver num mundo onde a escassez é a regra, e não a abundância.
Assistimos a vídeos como plantação automatizada, que lembra bastante as fazendas verticais e outros exemplos levantados por Peter Diamandis no livro Abundance. Vimos um gráfico mostrando que empresas com milhares de funcionários hoje comem poeira se comparadas a empresas com uma dúzia de colaboradores. Lógico que essa transformação vai afetar profissionais e empresas de todas as áreas. E uma das que o Tiago acha que mais vai “sofrer” é a área jurídica, afinal: “o Direito serve pra burocratizar as coisas, enquanto a Tecnologia serve pra desburocratizar.”
Ainda sobre esse papo de automatização, nosso colega Flávio mencionou a empresa Rasip, de Vacaria, que automatizou completamente a produção de maçãs. O Tiago então comentou que provavelmente estamos migrando para uma era onde o emprego está dando lugar à atividade. Seria um primeiro sinal de que “this shit is going?”
De volta ao Salim Ismail, fomos apresentados ao livro Exponencial Organizations e ao modelo “On Demand” que algumas corporações têm adotado. Como exemplo, o Tiago falou da Perestroika e da Aerolito. Com uma rápida definição, ele fez eu descobrir algo que eu ainda não tinha entendi direito até o momento: “A Aerolito é o Google X da Perestroika”. Ao usar sua própria empresa como exemplo, ele disse que as corporações deveriam servir de exemplo para um comportamento “pró-Singularidade” (ou até pró-EBR, dependendo do ponto de vista). Ou seja, a Perestroika, com sua maneira de atuar e de vender seu “produto”, está tomando iniciativas próximas daquilo que eles desejam que seja, um dia, a Singularidade. Interessante de se pensar nisso.
Ao falar do “crescimento exponencial” da Perestroika em poucos anos, ele comentou que sua métrica para o sucesso não é ser grande, e sim distribuído. Explicou que a empresa focou em criar mais unidades e se espalhar, ao invés de crescer verticalmente na matriz. E comentou também que todo funcionário, quando contratado é pilhado para se tornar mais um sócio pra dividir o bolo, e não um funcionário descartável. Citou o exemplo da Aline que, ao ser contratada como funcionária, teve todo o incentivo pra fazer um MBA de empreendedorismo e o desafio de, daqui a uns dois anos, estar pronta pra ser mais uma sócia do grupo. Isso é o que ele chama de uma visão verdadeiramente horizontal. Falou que prefere apostar no potencial da pessoa, e não só na experiência. Potencial é futuro, experiência é passado.
Um dos melhores exemplos disso é a Disney, que incentiva todo tipo de funcionário a curtir e viver de forma lúdica seu trabalho. Eu sei disso porque já estive no parque da Disney e vi coisas como faxineiros fazendo verdadeiras obras de arte com um esfregão. Na Disney, o pessoal tem uma ordem de quatro prioridades: 1) Segurança (estar atento pra ver se ninguém corre risco de se machucar ou coisa do tipo); 2) Cortesia (ser generoso, simpático, atencioso e divertido, ou seja, tudo aquilo que o Alfredinho não é); 3) Pode ver o show (se as duas primeiras estiverem sob controle, o funcionário está autorizado a curtir o que está rolando no parque ou nos shows); 4) Eficiência (que a maioria das empresas coloca em primeiro plano).
Outro exemplo muito divertido (e ousado) é o da empresa Valve, que simplesmente não tem chefe e nem hierarquia. É algo totalmente informal e que, por algum motivo, funciona. O manual de intruções para os colaboradores (em PDF) é algo tão divertido quando exemplar. Ainda nessa onda, ele disse pra gente assistir ao vídeo Morning Star (anotado: assistirei).
Por fim, três polêmicas foram sugeridas ao final da aula, pra fazer a galera ficar com a pulga atrás da orelha. A primeira polêmica era a discussão que existe em torno da Singularidade e as ideias do Ray Kurzweil. Foi apresentado um trecho do Transcendent Man, no qual o futurólogo Kevin Kelly diz que tudo que o Kurzweil fala deve mesmo acontecer, mas não em 2045. Eu disse pro Tiago que isso é quase um consenso entre os demais futurólogos. Tiago me interrompeu pra dizer: “Com exceção daqueles que acham que a gente vai se matar e a raça humana vai deixar de existir antes da Singularidade.”
A segunda polêmica foi sobre estarmos vivendo uma Simulação. A famosa pira do Matrix. Não é o meu assunto preferido quando falamos de futurismo, mas percebi que alguns colegas, principalmente o João Pedro, chegam a lamber os beiços ao falar nesse tema. O Oculus Rift é um primeiro passo para mergulharmos naquilo que um dia possa ser a “realidade virtual” em seu ponto máximo. Tem tudo a ver com o que eu imagino que será a imersão na RV e até viagens no tempo. Eu continuo duvidando da interferência na linha do tempo e no paradoxo temporal, mas acredito que uma dia poderemos “voltar ao passado” no papel de observadores. E esse caminho, claro, tem um trilho bem nítido: a realidade virtual.
A terceira polêmica foi a que o Tiago considerou a mais delicada de todas e também a que eu menos dei bola: Dorgas, mano! Tem a ver com o fato de que podemos depender, num futuro próximo, da “ajuda” de algumas drogas para poder migrar pra Singularidade. Mas, pra isso, claro, deveria haver um rompimento desse preconceito que temos com relação a esse assunto. O tema “Drogas”, sabemos, é extremamente polêmico e discutível. Imagina quando essas substâncias forem a “porta de entrada” para a Singularidade, que é tão polêmica quanto.
Pra encerrar a aula, adivinha... outro vídeo do Jason Silva! O tema foi justamente as drogas e seu papel nessa transição para a Singularidade. No final do vídeo, temos uma frase interessante: “Computers are Drugs, and Drugs are Computers.” Minha breve e trivial opinião sobre isso: eu usaria, sim, uma “droga” pra virar imortal, assim como eu uso drogas pra curar uma gripe, dor-de-cabeça, ressaca ou dor-de-barriga. Droga, nesse caso, entende-se como aquilo que se compra em... drogarias! Droga também pode ser chamada de medicamento. Medicamento! Não tem nada a ver com as drogas que vêm à cabeça quando se fala em drogas: maconha, cocaína, heroína, crack...
A aula acabou enquanto o jogo entre Universidad de Chile e Inter, pela Libertadores, estava em 3 a 0 pro Colorado. Percebi que o Tiago, torcedor do Inter, estava feliz da vida com o resultado. Fiquei por ali tomando umas cervejas e interagindo com o pessoal. Perguntei pro Tiago se o personagem Will Caster (interpretado por Johnny Depp) no filme Transcendence foi realmente baseado no Kurzweil. Ele disse que sim (isso até foi admitido pela produção do filme, segundo o Felipe Felisberto). Conversamos sobre o Transcendence e eu disse que gostei pela fuga do clichê, diferente da maioria dos filmes sobre tecnologia e ficção científica que costuma colocar a ciência como vilã.
Perguntei também ao Tiago e ele tinha assistido ao seriado Fringe. “Claro!”, disse ele, empolgado. Perguntei se ele acredita que, num futuro altamente high tech, o ser-humano possa se tornar algo frio e totalmente imune a sentimentos. Ele acha justamente o contrário. Tomara mesmo!
Fiquei batendo um papo com o pessoal do curso sobre diversos assuntos. Cheguei a falar sobre seriados com a Aline, o Gustavo Nogueira e o Baboo. Conversei sobre universidades e cursos na área da computação com o Paulo Bridi e o Gustavo Porto . Também tive que explicar pro Baboo sobre a história do Jiraiya com a camisa do Inter. Pelo jeito o pessoal achou muito interessante essa história. Vai entender...
Depois de quatro dias, finalmente consegui uma carona pra casa. O Gustavo Porto, que até já estudou na Unisc, foi levar o Felipe pra casa e aproveitou pra me trazer até aqui no Centro. Simplesmente por gentileza, porque o caminho dele era outro e ainda tinha tomado umas biritas, corria o risco de cair numa lei seca.
Já o Franco, que estava eufórico como sempre, veio falar comigo sobre a experiência no Venus Project. Ele disse que tomou conhecimento sobre o Jacque Fresco e a EBR assistindo aos documentários da trilogia Zeitgeist. “Bah! Tu é muito foda!!”, disse ele, quando comentei que tinha conhecido pessoalmente o Fresco. Fico feliz em saber que tem mais gente no curso interessada nesse tipo de coisa, porque eu considero dois assuntos que se complementam.
Franco chegou até a postar, no grupo do Tomorrow no Facebook, aquele post que eu fiz no Energia Espacial sobre a minha ida ao TVP. Odeio admitir isso mas, esse grupo no Facebook talvez seja a melhor maneira de manter contato com essa galera depois que o curso terminar. Tem gente ali com quem eu gostaria muito de continuar trocando ideias e compartilhando informações sobre esse tipo de assunto, que é bacana demais. Mas isso não significa que eu vá abrir uma conta minha no Face.





AULA 5 – Singular

E não é que o melhor ficou pro final? O quinto e último dia de curso foi simplesmente o mais especial de todos. Um curso sobre tecnologia e futurismo que conseguiu ser também o mais humano e comovente que eu já fiz. Talvez por isso o relatório aqui seja mais longo do que o dos outros dias.
A aula começou por volta das 10h. Aproveitei a ocasião pra trocar uma ideia com alguns colegas e também com o Baboo, um dos sócios da Aerolito e professor do curso. Me identifiquei demais com ele e até batemos um papo bem interessante sobre carreira e nerdisse.

5.1 Como migrar para a Singularity?

Uma das primeiras coisas que o Tiago abordou no início da aula foi o processo de seleção da Singularity University. Explicou passo a passo como se faz pra entrar lá e uma das coisas mais curiosas que ele falou foi o exemplo do Impacto Positivo (você tem que entrar com um projeto capaz de impactar positivamente a vida de 1 bilhão de pessoas). Lógico que aí entra aquela velha discussão: o que é “fazer o bem?” Hitler achava que fazia o bem. Ele mostrou então um exemplo ilustrado. Nesse exemplo, existem três tipos de pessoas: as que fazem algo que NINGUÉM discute ser benéfico, como pessoas que fazem trabalho voluntário em asilo, pessoas que alfabetizam crianças carentes, essas coisas; pessoas que fazem algo que NINGUÉM discute ser maléfico, como gente que lucra com pedofilia, matadores de aluguel, serial killers; e aquelas que fazem algo que pode ser bom ou ruim dependendo do ponto de vista alheio. Esse terceiro exemplo é onde eu, você e todo mundo do curso está: representa 99% da população (dados não-oficiais).
Tiago então explicou que esse lance de “fazer o bem” e algo que acredita ser relevante, justo e benéfico. Falou sobre os “degraus” da escada de necessidades do ser humano: água, saneamento básico, saúde, educação e economia. Cerca de 1 bilhão de pessoas não tem acesso nem ao mais básico de todos: a água.
Na Singularity University, o foco é exclusivamente na tecnologia voltada para o bem. Se, por algum motivo, os caras detectam qualquer intenção que você tenha de fazer algo para o mal ou pensando somente em si mesmo, você dança. Perguntei ao Tiago se isso tinha a ver com o slogan do Google, “Don’t be evil” (lembrando sempre que o Google é um dos parceiros e financia a SU). Tiago logo respondeu que não. Mas aí deu uma pausa, pensou um pouco e respondeu de novo: “Sim e não. Falaremos disso mais tarde.”
Toda essa visão social e vontade de fazer algo de bom se encaixa perfeitamente com o posicionamento da Perestroika (Tiago usava o termo core pra falar disso). E olha que eu não digo isso porque fui seduzido pela lavagem-cerebral-ativista da Perestroika, como alguns alertam, digo isso porque realmente me sensibilizei. De verdade!
Existem empresas que colocam o papel social em segundo ou terceiro plano, criando departamentos encarregados de pensar nisso. Não é esse o caminho! “A visão social deve ser a CAUSA da empresa, e não um departamento.” Deve estar no posicionamento da marca. Empresas que criam um setor ou uma campanha específica pra defender uma causa estão dizendo: “Ok, a gente se preocupa com isso, mas não é nossa prioridade.” Deveria ser prioridade sim senhor.

5.2 Obrigado por dizer não

Foi pegando um gancho nesse tema que o Tiago tocou num assunto que fez a minha admiração por ele, que já era enorme, chegar no patamar mais alto: a divertida e louvável história do lobista de uma fumageira que queria a parceria da Perestroika. Tiago contou que, uma vez, foi procurado por um representante de uma fumageira (provavelmente de Santa Cruz). “Já viram aquele filme Obrigado por Fumar? O cara era o próprio!”. Tiago falou que se considera um grande anti-tabagista, odeia cigarro e jamais incentivaria alguém a começar a fumar. Tipo, parecia EU falando!
Mas claro que ele não iria simplesmente fechar as portas: “Acho que a gente sempre deve estar disposto a, pelo menos, receber as pessoas e deixar elas falarem com a gente.” Então o tal do representante apareceu. “Era um cara muito, mas muito legal! Sério, parecia que era o meu melhor amigo! Macho alpha total!”, disse o Tiago ao descrever o sujeito. O cara chegou tratando todo mundo bem, tomando conta do ambiente, encantando todo mundo... parecia o cara mais legal do mundo.
Quando os dois começaram a conversar, Tiago disse que o sujeito estava interessado em contar com a parceria da Perestroika, por ser uma empresa que entende e interage com a "geração Y". Tiago disse que, num primeiro momento, se sentiu hipnotizado pelo papo do cara, até que voltou pra real e se deu conta: “Peraí, o negócio do cara é fumageira. Ele quer minha ajuda pra... vender cigarro!” Se ainda fosse fazer uma capacitação sobre, sei lá, tecnologia, na empresa do cara ou algo voltado pros funcionários, até ia. Mas, participar de um projeto que tem como finalidade botar cigarro na boca da molecada... Tiago contou que relutou, mas disse não. E olha que o valor em dinheiro que o cara tinha oferecido era astronômico. Um dinheiro que resolveria todos os problemas dele e da Perestroika pelos próximos anos. Mas a resposta era não. E o representante então, com todo aquele seu jeito legal de ser, agradeceu e foi embora.
Semanas depois, a vida seguiu normal, até que o cara ligou de novo. Estava lá outra vez, pra voltar a se reunir com o Tiago (dessa vez, chegou meio que de surpresa). Tiago o recebeu novamente. O cara, legalzão e gentil como sempre, disse que repensou no assunto e ofereceu simplesmente o dobro de dinheiro que tinha sugerido da primeira vez. O DOBRO!!! Tiago disse que olhou praquela quantia e ficou zonzo por instantes. Mas aí o bom senso bateu, ele respirou fundo e pensou em suas convicções. Fez aquilo que qualquer filho da puta nunca teria condições de fazer e disse: “Cara! Ou tu é realmente uma pessoa muito legal mesmo, um baita amigão, ou tu é um tremendo dum safado e eu quero que tu saia da minha sala agora.” (óbvio que as palavras não foram essas, mas algo do tipo). O sujeito então se levantou, deu as costas e foi embora pra sempre.
Quando o Tiago contou essa história, me deu vontade de jogar tudo pro alto e ir até ele pra abraça-lo! Ninguém ali se identificou tanto com esse causo quanto eu! Posso afirmar isso porque também já recusei proposta pra trabalhar com fumageira, por salários que chegavam a ser até cinco vezes maior do que estava ganhando na época. E olha que eu moro em Santa Cruz, onde pra muita gente é “cool” trabalhar em fumageira. Até hoje escuto gente me chamando de burro por ter recusado esse tipo de proposta. Não me considero burro e nem uma pessoa sem ambições, mas acho que meus valores e minhas convicções são maiores do que minha ganância.

5.3 O gênio da lâmpada

Na sequência da aula, Tiago apresentou vídeos de alguns robôs que viu na Singularity. Tinha um robô que resolvia sudoku (ele escaneava os números e os quadradinhos para, depois, preenche-lo com os algarismos corretos); um gelador de cerveja; uma cafeteira plugada no tweeter; uma chopeira e; o que mais me impressionou: um robô que resolve cubo mágico! Esse aí foi visto pessoalmente! O pessoal da Aerolito tinha um ali mesmo. Claro que eu tive que gravar um vídeo disso, pra ninguém me chamar de mentiroso.
Enquanto todos ainda estavam impressionados com o que tinham visto, o Tiago aproveitou a deixa pra falar sobre hackeamento e programação, afinal, é tudo o que torna a robótica, a inteligência artificial e essas “mágicas” reais. Com a palavra, portanto, o genial Baboo. Confesso que essa parte de hackeamento e programação não me chama muita atenção, justamente pela aversão que eu tenho a matemática e a parte técnica da computação. Mas ali tudo parecia tão simples e divertido.
Baboo usou o exemplo de uma lâmpada que ligava e desligava conforme o movimento do seu braço. Tudo graças a uma pulseira que ele tinha na mão e fazia a lâmpada do abajur ligar ou desligar conforme seus movimentos (lógico que não era uma lâmpada simples). E o mais interessante: ele fazia tudo ali, na nossa frente, do zero. Mostrou na tela do pc como ele fazia pra programar aquilo. E parecia tão simples (lógico: ser bom consiste em fazer algo difícil parecer simples). Enquanto o Baboo fazia todo mundo ficar de queixo caído com seu “show de mágica”, o Tiago chegou na minha mesa, onde estava sentado também o seu amigo Flávio Dutra, e comentou quase em segredo sobre o Baboo: “Esse cara é um gênio!”
Lógico que o que vimos ali foi uma demonstração de programação básica, com recursos básicos e baratos, feito num curto espaço de tempo e voltado para leigos. Agora, pense aqui comigo: imagina isso daqui a alguns anos, dentro daquela curva de evolução exponencial! Pense que, ao invés de um abajur, teremos quartos inteligente, casas inteligentes, carros inteligente, tudo inteligente! Opa, opa, opa! Pensou no mesmo que eu? Espero que sim!
Pra quem curte programação básica e se interessa em conhecer melhor essa lógica tão importante, existe o site do IFTTT (“if this then that”): ifttt.com. Outro exemplo bacana é a Code Academy: codecademy.com. Não conhecia nenhum dos dois até então.
A parte da manhã foi bem aproveitada, mas sabíamos que ainda teria muito mais à tarde. Então, aproveitamos o almoço ali na Perestroika mesmo pra relaxar um pouco e bater um papo entre os colegas. Acabei sentando na mesma mesa em que estavam colegas como o Flávio, o Franco, o Caveira, o Rafael e o Paulo. Ali, falamos de tudo, até sobre futebol (sobre a campanha do XVI de Novembro na Copa do Brasil de 2004). Tinha até uma gata (animal) nos fazendo companhia enquanto comíamos.

5.4 A Gincana de Robótica

Na volta, foi a vez de encararmos a tão aguardada gincana prometida pelo Tiago. Nessa brincadeira, a turma seria dividida em três equipes. O prêmio para os vencedores seria uma cópia do livro do Federico Pistono, “Robots will steal you job, but that’s ok!”. Quando o Tiago mostrou a pilha de livros, ouviu-se um “Booohhh!!”da turma. Na hora, eu pensei: “Preciso ganhar essa porra!”. A minha equipe era formada por pessoas muito inteligentes, como o Tommy, o Gustavo Nogueira, o Alexandre, o Marcelo, o Tiago Trindade e a Martinha.
Tiago disse que a gincana seria dividida em três provas: uma “super-easy”, uma “easy” e uma “normal”. Eu sabia que, como programador, meu desempenho seria no mínimo vergonhoso. Então, procurei dar o melhor de mim mantendo a equipe no foco, distribuindo as funções e coordenando as atividades com os demais integrantes. A primeira tarefa foi uma espécie de “corrida entre bolas-robôs”.
O participante controlava uma bolinha que era guiada pelo celular, através de um aplicativo. Essa bolinha deveria passar por obstáculos e esquivar-se de peças de lego, sob pena de ter pontos descontados caso encostasse em algumas dessas peças. Cada participante deveria tentar completar esse percurso no menor tempo possível. Quando a tarefa foi dada, eu logo apontei pro Tommy: “Tu vai ser o piloto do nosso time nessa tarefa. Topa?!” E o Tommy, na hora, disse que sim. Foi algo meio instintivo, eu sabia que ele iria mandar bem nessa tarefa porque tinha cara de quem mandava bem. E foi uma ótima escolha, porque o Tommy teve um excelente desempenho. Mas como as bolinhas não corriam ao mesmo tempo (foi um de cada vez), não teve como saber quem se deu melhor.
A segunda tarefa foi a do robozinho andando pelos trilhos da cartolina. Cada grupo deveria pegar um robozinho do tamanho de um bombom e fazê-lo andar por cima de um trilho que era, na verdade, uma folha de papel. O detalhe é que, nesse trilho (pintado de preto), havia percursos incompletos que deveriam ser preenchidos com três tipos diferentes de cores: azul, verde ou vermelho. Usar a cor certa era essencial para fazer o robozinho chegar no final do percurso. Ganharia quem acertasse as cores certas a serem usadas.
A gente queimou muito neurônio pra resolver essa charada. Mas quem parecia mais convicto e certo do que fazer era o Alexandre. Foi ele o primeiro a detectar o caminho certo. Alguns do grupo chegaram a discutir sobre o que fazer, mas o Alexandre permanecia convicto de que o seu jeito era melhor e que deveria ser implementado. Comprei a briga dele e disse que sua opção era a melhor. Já o Marcelo era quem fazia o papel de líder nessa tarefa.
Pra nossa feliz surpresa, fomos o único grupo que conseguiu completar com sucesso essa tarefa. O Marcelo até ficou de explicar, pro restante da turma, qual foi o processo que utilizamos pra obter a vitória. Estávamos bem próximos do “título” da gincana.
Mas ainda havia a terceira e mais difícil de todas as provas: um carrinho que deveria ser programado através de um software. Detalhe: esse carrinho deveria percorrer uma pista inteira no chão da sala e ainda completar o percurso entrando de ré na linha de chegada. Tudo através de um único comando e com todo o percurso do carrinho previamente programado no software! Dessa vez sim, o nervosismo bateu. Vi que o Gustavo Nogueira assumiu a vez no notebook que tínhamos pra executar a tarefa e encarregou-se de cuidar da parte de programação.
Nessa prova eu praticamente me ausentei. Talvez minha melhor contribuição tenha sido sugerir que, numa determinada etapa do percurso, o carrinho deveria ir reto e não girar 90°. Mas nem eu mesmo tinha certeza de que esse era o melhor jeito. Preferi não atrapalhar e deixar o pessoal se concentrando. Aproveitei o momento pra trocar uma ideia com o Baboo, fora da sala. A gente bateu um papo bem amigável sobre games, principalmente os das antigas. Comentei que curtia demais os jogos do Mario e até ganhei uma “festa de aniversário temática” nos últimos dias. Mostrei as fotos e ele achou o máximo.
Enquanto a gente conversava. Alguém veio e me perguntou: “De que equipe você era mesmo?”, respondi que era da equipe 1 e aí me falaram: “Então vai lá receber seu prêmio da gincana.” Fiquei tão feliz que simplesmente cortei o Baboo e o deixei sozinho. Fui pegar meu livro do Pistono e agradecer ao restante da equipe por termos conseguido a vitória.
Claro que eu ainda tive que ir até o Tiago e pedi pra ele escrever uma dedicatória pra mim, no livro. Tiago disse que não era o Pistono, mas aceitou o pedido. Ele escreveu o seguinte: “Foram muitas ideias legais, muitos insights importantes, mas – principalmente – foram muitas interações marcantes. A simpatia veio de cara (agradeço o livro), mas a admiração veio ao longo do curso. Obrigado por ter participado e por ter sido tão generoso em compartilhar tuas sensações com a gente. Tu é foda!” Não preciso comentar, né?

5.5 Instantes finais

Antes de passar o último conteúdo, Tiago fez uma apuração do que o pessoal achou da gincana. Algumas pessoas divagaram sobre a importância da programação. Eu pedi a palavra e disse que, “não somente a programação, mas o método científico como um todo é baseado na tentativa-e-erro. Thomas Edison, quando inventou a lâmpada, disse que aquilo não foi um acerto, e sim o resultado de 10 mil erros. E se pararmos pra pensar, tem tudo a ver com o que falamos nesses últimos dias sobre Singularidade. Algumas pessoas podem alegar que a Ciência já vem tentando há mais de 500 anos um meio de vencer a morte. Isaac Newton tentou isso através da alquimia, sem sucesso. Mas uma hora a corda vai estourar. Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura.” Pela cara que fez, acho que o Tiago curtiu o meu exemplo.
Na sequência, vimos alguns gráficos que os futuristas devem levar em consideração ao fazerem alguma projeção. Foi uma analisada bem rápida e, como eu não estava anotando, fiquei sem lembrar direito o que se falou. Quero ver se retomo essa parte nos PDF’s e resgato esses gráficos outra hora.
Tiago exibiu pra gente um discurso que ele deu na Singularity University. O tema do discurso era “a importância dessa tecnologia chamada abraço”. No vídeo, ele explica, através de uma ajuda do dicionário, que o abraço também pode ser considerado uma tecnologia, pois é um “artifício criado pelo homem pra melhorar a vida das pessoas”. Alguma coisa estava acontecendo comigo naquela hora, pois eu já estava estranhamente sentimental. Aquele vídeo e aquele papo todo de abraço estava me tocando por dentro. Sem demagogia! No mesmo vídeo, foi visto o Federico Pistono correndo pra abraçar o Tiago no final do discurso.
E pra fechar com chave de ouro, tivemos um encerramento nos mesmos moldes da dinâmica de abertura. Mas, dessa vez, nada de fósforo, ordem ou tempo de fala. Praticamente todo mundo falou. Quando chegou a minha vez, disse o seguinte: “Algumas pessoas aqui sabem que esse assunto não é novidade pra mim. Já faz uns dois anos que eu venho estudando e lendo muito a fundo sobre Singularidade, tecnologia e futurismo. Resolvi fazer esse curso porque queria encontrar uma aplicação desses conhecimentos no meu trabalho. Eu trampo com educação e queria encontrar uma maneira de fazer isso influenciar o meu serviço. Quando falei que ia fazer o curso, alguém veio até mim e falou: só cuida que lá na Perestroika eles são formadores de ativistas, as pessoas saem de lá querendo mudar o mundo pelo Facebook. Bom... só tem um jeito de descobrir se isso é verdade ou não. Mas, durante a semana, esses objetivos foram se transformando. Um dia, eu ouvi o Tiago dizendo, numa roda de conversa, que estava aqui, dando esse curso, pra fazer amigos. Então eu percebi: é Isso! Me dei conta que eu estou aqui fazendo contatos. Ou até mais do que isso: fazendo amigos! São esses contatos que, posteriormente, vão ligar os pontos e fazer tudo isso valer a pena. São os contatos que permitem que esse tipo de conteúdo possa continuar permeando nossas conversas. São os contatos que tornam esse tipo de curso diferente das aulas assistidas no Youtube. E é por isso que eu digo, gurizada: Vamos manter contato daqui pra frente. Nada disso que vimos aqui vai valer a pena se a gente nunca mais se falar a partir de hoje. Não vamos romper ligações!” (pausa pra alguém que gritou, de algum lugar: “Então abre logo um Facebook!” / gargalhadas) “É... tá certo que o fato de eu não ter um Facebook me contradiz um pouco, mas não é exatamente disso que estou falando. Pra encerrar minha fala, vou citar uma frase que o Chaves disse em Acapulso: Prometemos despedirmos sem dizer adeus jamais!”. Percebi que algumas pessoas se emocionaram quando eu disse isso.
E “emoção” tenha sido talvez a melhor palavra pra descrever esse momento. Tinha muita gente realmente emocionada. Um deles era o machão do Franco, que depois até me confessou que tinha ido pro cantinho segurar o choro. O Tiago, ao fazer seu último discurso, disse que gostou quando eu falei que a Perestroika tinha fama de “formadora de ativistas”. Mesmo que isso tenha sido uma crítica em forma de deboche, a fama não lhe incomoda. E, pra finalizar, assistimos a uma projeção de slides com frases de efeito.
Nessa hora, vi frases que têm muito a ver comigo e algumas, confesso, quase me levaram às lágrimas. Frases do tipo: “Don’t grow up! It’s a trap!” ou “O criativo é a criança que não cresceu.” Sei que as frases em si não têm nada de emocionante, mas o ambiente em si, a sensação de dever cumprido e a trilha sonora estava carregado de sentimentos à flor da pele. Formadores de ativistas ou não, evangelizadores da própria marca ou não, uma coisa eu devo admitir: os caras são muito bons em cativar seus alunos. Tenho certeza que praticamente todos meus colegas saíram de lá amando a Perestroika. Os caras são realmente bons demais no que fazem. Merecem todo o reconhecimento e sucesso exponencial que têm!
Me impressionei com a quantidade de gente que veio falar comigo no final da aula. Gente que mal me cumprimentava durante o curso. Alguns vieram elogiar a iniciativa da Unisc em ter bancado o curso pra mim: “Que legal isso da tua universidade, hein! Os caras lá devem ser bem mente aberta pra liberar um funcionário durante uma semana pra fazer um curso desses.”
De qualquer forma, sou obrigado a dizer isso: “Obrigado, Unisc, por ter me liberado pra fazer esse curso!” Foi demais! E espero realmente que os conhecimentos adquiridos nessa semana possam ser aplicados no meu trabalho na Asscom. Ainda preciso de bastante tempo pra absorver o Tsunami de informações que inundou minha cabeça nesses últimos dias, seria pragmatismo demais exigir resultados a curto prazo.
Percebi que estou no caminho certo, pois tudo que o Tiago disse durante as aulas eu já estou aplicando no meu dia-a-dia ou então está rigorosamente alinhado com as minhas convicções. Ou seja, mudar talvez não seja a melhor decisão quando se percebe que está fazendo a coisa certa, que é também fazer aquilo que acredita. E eu tenho a mais absoluta certeza de que saí desse curso com a sensação de que valeu a pena.

5.6 Happy Hour e aquela banda

Final de curso, trago e rango liberado. No meio daquela incrível sensação de dever cumprido e emoção aflorada, foi servido um cocktail de tequila e comida mexicana. E olha que estava muito bom! Comi alguns nachos e burritos e também mandei ver na tequila e no chop liberado, que era servido numa maquininha que tirava fotos da pessoa se servindo e a publicava em tempo real no Tweeter.
Bati um papo animado com meu mais novo amigo Baboo. Também conversei bastante com o Tommy, com o Franco, com o Gustavo Nogueira e com o Felipe Felisberto. Falamos sobre nerdisses, sobre o livrinho do Ressuscitados (todo pessoal da Aerolito já tem o seu) e vários assuntos bacanas. Mas o que acabou chamando atenção do pessoal mesmo foi o meu “dom” de decorar placares de Copas do Mundo (nem lembro direito como esse assunto chegou na pauta). Claro que, àquela altura, já tava todo mundo bêbado. Mas alguns acharam algo astronômico o fato de eu saber placares como Nigéria 1x0 Bulgária ou Romênia 1x1 Tunísia (Copa de 98). Baboo chegou a dizer que tava com vontade de me dar um soco, mas por um motivo bom.
A bebedeira tava tão legal que resolvemos emendar e continuar a folia fora da Perestroika, pois a escola já estava fechando. Baboo, Felipe, Thalles e eu saímos pra dar uma volta de carro e até encontramos na rua o Santiago e o Du, que também estavam pelo rolé. Tomamos umas cervejas a mais e fizemos o que todo homem adulto adora fazer: beber sem compromisso.
Foi quando eu percebi que meu grande objetivo no curso tinha sido cumprido: fiz amigos valiosos e inteligentíssimos com os quais eu quero continuar em contato daqui pra frente. No fim das contas, esse curso sobre futurismo e tecnologia teve um viés mais humano impossível. E o que prevaleceu, no fim das contas, foi o espírito da amizade (pode chamar de piegas, mas foi isso mesmo). E por mais brega que possa parecer, esse espírito acabou mexendo comigo e me tornou uma pessoa melhor. Volto realmente com a sensação de ter virado uma pessoa melhor do que era antes. Uma experiência singular!


LINKS RELACIONADOS:

Perestroika: http://perestroika.com.br
Curso Tomorrow - Porto Alegre: http://perestroika.com.br/cursos/porto-alegre/tomorrow
Aeroli.to: http://www.aeroli.to
Singularity University: http://singularityu.org
The Venus Project: www.thevenusproject.com
Site do Federico Pistono: http://federicopistono.org
Singulariyu Hub: http://singularityhub.com
Leandro Zayd no Diáspora: https://despora.de/people/83e19de22ddae274
Transcendent Man (filme completo): https://www.youtube.com/watch?v=tsg-__K_IAI
The Singularity is Near (filme completo): https://www.youtube.com/watch?v=7GcL3a4WK6M
Canal do Jason Silva no Youtube: https://www.youtube.com/user/ShotsOfAwe
Blindfolded ignite presentation - Ignite vendado (CORRECT): https://www.youtube.com/watch?v=8Xf7eD3gz-k
Interview with author/futurist Arthur C. Clarke, from an AT&T-MIT Conference, 1976: https://www.youtube.com/watch?v=D1vQ_cB0f4w
What you need to know about the singularity: http://www.theverge.com/whatstech/2015/4/21/8458797/singularity-explainer-whats-tech-terminator