quarta-feira, 16 de outubro de 2019

YOU'RE WELCOME, PRINCE GEORGE!

Essa é a cara de quem ainda vai ser o Rei da Inglaterra.

Antes de ler esse texto, certifique-se de que você leu e entendeu bem o anterior (Bimbadas que mudaram o curso da história). É sério! Se você começar por aqui, vai boiar completamente. Entendido isso, avancemos para o próximo parágrafo.


Tá de gozação


300 milhões de espermatozóides e um único objetivo.

Agora que já entendemos que a quantidade de fatores externos e despercebidos capazes de influenciar o surgimento de alguém bate na casa dos 300 milhões, fica mais fácil acreditarmos que qualquer detalhe pode fazer uma diferença absurda. Isso significa também que você pode estar, nesse exato momento e sem perceber, mudando o destino da humanidade (se é que existe algum "destino", mas isso já é outra história). Contudo, vamos com calma: não precisa parar de fazer o que você está fazendo e nem raciocinar sobre seus atos, porque esse tipo de planejamento, em específico, é inútil. Assim como é inútil pensar numa posição sexual adequada e numa ejaculada perfeita para que dela saia o seu filho (ou filha) dos sonhos. Assim como é inútil fazer cálculos e projeções matemáticas antes de um arremesso de basquete ou de uma tacada de golfe.


Isso não vai servir pra nada! É inútil!

Quando eu digo que você pode estar mudando o destino da humanidade, eu falo da sua frequência de batimentos cardíacos nesse exato momento, da velocidade da sua respiração, do gosto que está sentindo na boca, nas horas ou minutos desde seu banho mais recente, na quantidade de sódio ingerida na sua última refeição, no índice de insolação que sua pele tem recebido e todos aqueles inúmeros detalhes que, de alguma forma, interferem no seu organismo. E se você é um homem em idade reprodutiva prestes a engravidar uma mulher, isso tudo significa muito mais do que você imagina, pois são detalhes que podem mudar todas as perspectivas da sperm race (ou “loteria genética”) que está prestes a resultar na personalidade, no sexo, na aparência, na saúde e nos talentos do seu vindouro filho (ou filha). Nesse caso, pare a leitura por aqui mesmo, vá afogar o ganso e boa sorte na ejaculação!

Agora, se você não tá com essa moral toda ou não pertence ao exemplo acima, volte para o texto e, para manter a concentração, evite pensar que tem gente transando (e fazendo filhos) nesse exato momento. “Mas de que forma a minha alimentação, higiene, condição psicológica, IMC e pressão sanguínea podem influenciar o futuro da humanidade ou de pessoas que ainda vão nascer se eu não vou engravidar ninguém?”, é a pergunta que surge nesse momento.

É simples: porque você possivelmente interfere nesses mesmos fatores em pessoas que ainda vão engravidar outras pessoas e produzir aqueles cidadãos que ainda vão nascer e, posteriormente, transformar o mundo, direta ou indiretamente. Quando você cozinha para alguém (ou determina a opção do cardápio), você está, de uma forma única e singular, interferindo no organismo dessa pessoa. De forma bem sutil, mas está. E interferir no organismo, conforme vimos no texto anterior, pode mudar completamente o resultado de uma sperm race. Ou seja, se você convenceu seu amigo a comer sushi antes dele engravidar a namorada dele naquele fim de semana, você leva parte da culpa pelo fato do filho dele ser desse jeito. Se tivessem comido pizza, eles poderiam ter tido uma menina. Se tivessem comido churrasco, poderia ter nascido outro menino, bem diferente desse. Enfim… são centenas de milhões de possibilidades e cada gole a mais ou a menos de refrigerante pode alterar discretamente (e suficientemente) o organismo.


Pizza doce ou salgada? Pode haver vidas em jogo.

Calma que a viagem tá só começando e, se você quiser continuar comigo nesse raciocínio bizarro, vai ter que destravar sua imaginação. Seguimos: é bem provável, portanto, que você tenha interferido na existência de todos os filhos e filhas das pessoas que conviveram contigo pouco antes de procriarem. Principalmente se induziu algum hábito de consumo que tenha afetado mesmo que minimamente a saúde, higiene ou condição psicológica do pai no ato da concepção. Aliás, não só daqueles que conviveram contigo e sabem da sua existência: isso vale também para o cara que usou o mesmo rolo de papel higiênico logo depois de você ou para todos aqueles com quem você compartilha bactérias diariamente através de cédulas de dinheiro, talheres, assento no ônibus e ambientes fechados. A nossa capacidade de interferir e influenciar organismos alheios, mesmo que contra nossa vontade, é incontrolável e exponencial. É como um vírus que se espalha contra a vontade do emissor e do receptor. Já entendeu a complexidade da treta?


Um simples aperto de mãos pode ser um intercâmbio de germes e influenciar o seu organismo.

O simples fato de vivermos em sociedade nos torna mercadores de germes, bactérias e mutilações no organismo entre todos os outros seres humanos que estão ao nosso redor. E, se aquela história de que seis graus de separação entre pessoas ligam você a qualquer outra pessoa do mundo for mesmo verdade (falaremos mais sobre isso mais adiante), faz mais sentido ainda. É de se pensar que, muito indiretamente, você talvez já tenha trocado saliva com a Selena Gomez ou com o Justin Bieber. Aliás, uma hora dessas, divirta-se tentando descobrir se isso realmente procede.

Pode até ser estimulante acreditar, com base nessa teoria, que você interfere na vida de pessoas do mundo inteiro, mesmo que numa escala infinitamente indireta. E que talvez você tenha uma certa influência no nascimento do Príncipe George (o bisneto da Rainha Elisabeth II), que poderia ter nascido com outro DNA no corpo de outro menino (ou até menina) caso tivesse perdido a sperm race que o originou. Esse exemplo, no entanto, só vale para aquelas pessoas que nasceram em decorrência de uma influência indireta causada por você. Ou seja, só vale para aqueles que nasceram depois da sua chegada ao mundo. Por motivos bem óbvios: você não consegue alterar o passado, mas o futuro, esse sim, é alterado infinitas vezes a cada segundo e a cada escolha que fazemos. Isso significa que você talvez até tenha afetado, sim, o nascimento do Príncipe George (desse Príncipe George específico, geneticamente falando), mas com certeza não interferiu no nascimento de Isaac Newton, de Hitler ou dos seus pais, que nasceram antes de você. Suas escolhas, atos e gestos podem realmente mudar o futuro, mas jamais o passado. Nada muda o passado. Não nesse universo observável.


O que te separa da corte inglesa


A tradicional família real britânica.

Pois então falemos de passado e evitemos as suposições. Vamos aos fatos concretos. Vamos às pessoas que nasceram depois de nós e que já estão fazendo a diferença no mundo. Eu sei que isso pode ser meio desestimulante e até um golpe na auto estima mas, sim, tem pessoas muito mais novas do que nós que estão impactando mais o mundo do que a gente. Voltemos ao exemplo do simpático e charmoso Príncipe George, que foi eleito por um desses sites de fofoca como o bebê mais influente do mundo, numa lista que tinha nomes como Eric (filho de Simon Cowell e Lauren Silverman); Blue Ivy (filha de Beyoncé e Jay-Z); North West (filha de Kim Kardashian e Kanye West); Harper Beckham (filha de Victoria e David Beckham)... Como não é segredo pra ninguém, todos esses bebês, sejam eles realmente influentes ou não, só nasceram porque um dia seus pais mandaram ver entre quatro paredes, certo? E, como sabemos, as chances deles teram nascido com o mesmo DNA, personalidade e característica física que de fato possuem era apenas 01 entre centenas de milhões. Palmas para esses vencedores!

Por serem pessoas muito jovens, ainda não sabemos se essas características tão específicas vão fazer alguma grande diferença no mundo lá na frente, mas sabemos de personalidades excêntricas do passado que, muito em razão dessa excentricidade genética, mudaram o curso da humanidade: Cleópatra, Joana D’Arc, Rainha Vitória, Hitler, Steve Jobs… Lembre-se sempre que não basta ter nascido num ambiente favorável se a combinação de 46 cromossomos não tiver aquela característica específica. Essa característica, no caso, depende muito do óvulo, claro, e do espermatozóide que venceu seus 300 milhões de adversários, porque ele também possui (e só ele possui) seus 23 cromossomos específicos (os outros 23 cromossomos necessários para a fecundação pertencem à mãe).


A personalidade excêntrica de Steve Jobs se deve muito ao seu DNA específico.

Qualquer mutilação no organismo, mínima que seja, pode esculhambar a produção de células (o que inclui a formação e distribuição de espermatozóides) e fazer uma diferença enorme no resultado da corrida que origina cada ser humano. E você já entendeu que uma mutilação no organismo pode ser tanto responsabilidade do nutricionista ou personal trainer como do cobrador do ônibus que exagerou no perfume. Ou daquele imbecil que fuma perto de você.

Portanto, se você jantou com o Príncipe William ou com a Kate Middleton dias antes da concepção que originou o Príncipe George, é bem possível que você seja co-responsável por esse DNA específico do futuro rei da Inglaterra. Mas eu sinceramente acho que você não tá com essa moral toda. Aliás, eu duvido que você os conheça pessoalmente. Duvido que eles saibam da sua existência ou que acompanhem seus stories. Até porque, se conhecesse algum membro da família real inglesa, nem estaria lendo um texto tão maluco como esse. Então, é bem mais provável que algum chef de cozinha, barman ou faxineiro do Palácio de Kensington tenha mais influência semi-direta no DNA de George Alexander Louis do que você. Eles, sim, possuem alguma influência no organismo de William e Kate.


Jantar de gente chique é outra coisa.

Mas, calma, não quero prejudicar sua auto estima. Muito pelo contrário: é agora que eu vou começar a desenhar um sorrisinho no seu rosto. Lembre-se sempre dos seis graus de separação (teoria essa que eu, particularmente, não concordo muito, mas enfim...). Quais são os seis graus de separação que te separam da família real britânica? Vamos lá, faça um esforço para montar esse dominó.

Você pode nunca ter jantado com a família real birtânica, mas possivelmente já fez alguma refeição com alguma autoridade ou algum político (vereador, prefeito, deputado…). O simples fato de ter participado dessa refeição, independente do que você andou comendo, provocou alguma reação no ambiente: você pode ter diminuído a quantidade de arroz da panela, ter alterado o fluxo do garçom ao pedir mais um copo, ter sujado mais guardanapos do que devia… Lembre-se sempre que, na teoria do caos, todo detalhe idiota pode fazer uma grande diferença.


Moral da história


Dilma passando uns germes brasileiros para o primeiro ministro David Cameron.

Mas não se empolgue, lembre-se que temos uma linha do tempo irreparável e que devemos respeitá-la. Essa refeição na companhia de uma figura importante tem que ter acontecido lá no passado (de preferência, antes de julho/2012), antes de todos outros acontecimentos que vamos tentar resgatar daqui pra frente na tentativa de desenhar esse arquétipo que liga você à família real britânica através de seis graus de separação. Já encontramos o primeiro grau, que é essa pessoa importante que almoçou ou jantou contigo há mais de sete anos atrás. Essa pessoa, posteriormente, participou de outras refeições bem mais importantes (tão mais importantes que você nem estava lá). Mas sabe quem estava na mesa? Algum senador, deputado federal ou governador bem relacionado. Esse mesmo figurão, dias depois, jantou com a ex-presidente Dilma que, depois, mais precisamente no dia 25 de julho de 2012, reuniu-se com o então primeiro ministro britânico, David Cameron, na 10 Downing Street. O mesmo David Cameron, aos 29 dias de agosto de 2012 (quase um mês depois de se reunir com a Dilma), participou da cerimônia de abertura dos Jogos Paralimpicos de Londres ao lado do Príncipe William e de Kate Middleton. E sabe o que aconteceu com o casal William e Kate onze meses depois dessa cerimônia? Eles tiveram seu primeiro filho: George. Ou seja, com cinco graus de separação (nem precisamos de seis) acabamos de conectar você com o futuro rei da Inglaterra: o vereador que fez uma refeição contigo (1), o prefeito/deputado/senador que jantou com esse vereador (2), a Dilma (3), David Cameron (4) e os pais de George (5).


David Cameron e o casal William & Kate poucos meses antes da concepção de George.

E se você não fez nenhuma refeição com um vereador ou gente importante antes do primeiro semestre de 2012, tudo bem, podemos utilizar mais um grau de separação para ligar o tal vereador/autoridade a alguma pessoa relativamente importante com quem você certamente tombou naquela época (vamos lá, você não pode ser tão anti-social assim!).

Se cada um desses graus de separação envolveu qualquer tipo de comida compartilhada, relação anti-higiênica ou algo que interfira minimamente no organismo alheio, é bem provável que, sim, aquela refeição protocolar da qual você nem lembra, lá em 2012, resultou nesse cara que possivelmente será uma das pessoas mais importantes do mundo no final desse século. E ele possivelmente nem saberá que você existe ou existiu. Mas tudo bem: ele sequer teria vindo ao mundo se não fosse por você. Porque ele teria perdido uma corrida de espermatozóides que só foi vencida graças a uma infinidade de influências que o organismo de seus pais sofrera antes da concepção que o gerou. No meio dessa infinidade de influências está a troca de germes, oxigênio, silício, alumínio, ferro, cálcio, magnésio, sódio e potássio compartilhada com o ex-primeiro ministro David Cameron durante a abertura dos Jogos Paralímpicos de Londres. Essa quantidade e peculiaridade específica de elementos trazida por Cameron não teria sido a mesma sem o encontro com Dilma Rousseff semanas antes (lembre-se sempre da teoria do caos). A Dilma, por sua vez, trouxe para terras britânicas uma considerável quantidade de bactérias e elementos que vieram do jantar com aquele deputado que, dias antes, jantou com o mesmo vereador que talvez nem lembre, mas estava contigo (ou com algum amigo seu) em uma refeição realizada em 2011 ou 2012. E se você tirar qualquer peça desse dominó, tudo desmorona.


Esse guri só é desse jeito por sua causa.

Mas não precisa se achar ou pensar que essa refeição que você fez lá em 2011/2012 é o ponto de partida de tudo. Não existe ponto de partida (quer dizer, talvez o Big Bang seja o único ponto de partida para tudo no universo). Aquela sua refeição, da qual você nem lembra direito, é só um entre infinitos fatores externos e indiretos (muito indiretos) que culminaram em tantas outras coisas. Uma dessas coisas foi o nascimento do Príncipe George.


REFERÊNCIAS:

2012 London Paralympics - Opening Ceremony
http://www.zimbio.com/photos/David+Cameron/Prince+William/2012+London+Paralympics+Opening+Ceremony/HB6IpcWhnI-

6 graus de separação
https://www.youtube.com/playlist?list=PLaEdNHfbj3FtUxdDqrVhZVIjSpaoMMHM0

Bimbadas que mudaram o curso da história
http://energiaespacial.blogspot.com/2019/10/bimbadas-que-mudaram-o-curso-da-historia.html

Dilma é recebida por David Cameron em Downing Street
https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-e-recebida-por-david-cameron-em-downing-street,905393

PRÍNCIPE GEORGE É O BEBÊ MAIS INFLUENTE
http://caras.sapo.pt/realeza/inglaterra/2014-04-15-principe-george-e-o-bebe-mais-influente

SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO | Nerdologia
https://www.youtube.com/watch?v=YMI3CrChwSk

Bimbadas que mudaram o curso da história

A origem da vida é uma coisa bem gozada!

Iniciamos essa divagação com a premissa de que existem algumas pessoas que, dadas suas respectivas excentricidades e relevâncias, mudaram para sempre a história do mundo. Citarei alguns casos famosos que dispensam argumentação: se não fosse Jesus Cristo, não existiria o Cristianismo; se não fosse Galileu, não existiria a ciência moderna; se não fosse Napoleão, não existiriam as guerras que o sucederam; se não fosse Hitler, não existiria o holocausto; se não fosse Alan Turing, não existiria o computador; se não fosse Steve Jobs, não existiria a Apple; se não fosse Mark Zuckerberg, não existiria o Facebook…

O “se não fosse fulano”, aqui, equivale a “se tal pessoa não tivesse nascido”. Sendo mais direto: “se o pai desse cara não tivesse engravidado a mãe dele”. Ou, melhor ainda: “se os pais dele não tivessem acasalado naquele dia, naquele horário, naquela temperatura, naquela umidade, naquela posição e naquelas condições físicas e hormonais”. Essa última afirmação pode parecer um exagero, mas tudo isso interfere no resultado final da pessoa vindoura.

Entenda que, cada pessoa que nasce, por mais inútil e dispensável que seja, já vem ao mundo como um “vencedor” por ter derrotado outras centenas de milhões de espermatozóides na “Sperm Race”, a corrida da vida. Parece papo de coach, né? Mas é isso mesmo: todo espermatozóide que chega ao óvulo e vira um feto tem o direito de gritar “Eu sou um vencedor!”. Antes mesmo de sair da barriga da mãe e ver a luz do mundo.

Haviam 300 milhões de competidores. Só um venceu: você!

Não é pouca coisa não: são 300 milhões de competidores com chances iguais de virar um ser humano. Só um deles chega ao óvulo e “vence”. É a chamada “loteria genética” da qual você certamente já ouviu falar nas aulas de biologia. Além de cada espermatózoide ter seu próprio "genoma" (e cada óvulo idem), você adiciona aí as possíveis combinações de 46 cromossomos. Cada mãe doa 23 cromossomos e cada pai mais 23 para, então, formar o ovócito, que depois vira o zigoto e, finalmente, o feto.

A ejaculação do “papai” é o disparo que dá a largada na Sperm Race. Numa corrida com tantos competidores em chances iguais, todo detalhe acaba fazendo toda a diferença. O mesmo vale para cada óvulo que a “mamãe” ovula por mês e que é geneticamente diferente do que seria em outro período. Ou seja, se o casal estava numa posição “papai-e-mamãe” na hora da ejaculação, o resultado final da “Sperm Race” certamente não seria o mesmo caso a posição fosse com a mulher em cima do homem, ou de quatro, ou de pé, ou sentados, ou no banco de trás do carro (vai, divirta-se aí preenchendo a lista). Também não seria o mesmo caso o “quarto do abate” estivesse 1°C mais quente ou mais frio. Também não seria o mesmo se a ejaculação acontecesse 1 segundo antes ou depois. O mesmo vale para as condições físicas, alimentares, higiênicas e psicológicas do casal. Sim, esses detalhes fazem toda a diferença porque, afinal de contas, são 300 milhões de resultados possíveis. Lembre-se sempre desse número: 300 milhões! Se fosse um país, seria a 4ª maior população do mundo.

Em uma corrida de fórmula 1, por exemplo, temos um número bem menor de competidores: apenas vinte. E nem todos estão em chances iguais, seja pela posição de largada, seja pelo carro, seja pela escuderia, seja pela própria competência do piloto. A pista também faz toda a diferença, bem como a temperatura, a umidade e o horário da corrida. Ainda assim, o resultado final, de quem vai subir ao pódio, nem sempre é previsível (talvez até fosse na época do Schumacher).

Em uma corrida de Fórmula 1, o número de competidores cai para 20.

Numa corrida de 300 milhões de competidores em busca da fecundação, essa soma de detalhes é proporcionalmente maior e bem mais afetável. O homem ter tomado um gole a mais ou a menos de cerveja antes de ir pra cama com a rapariga pode, mesmo que levemente, interferir no seu organismo (e, consequentemente, no “grid de largada” dos espermatozóides). O banho mais recente, o tipo de sabonete e as roupas íntimas da moça também podem influenciar decisivamente o seu pH vaginal, que é outro fator fundamental no resultado da “Sperm Race”.

Mas é claro que todas essas informações não têm nenhuma serventia para quem pretende ter um “super filho” (ou pra quem quer evitar colocar um “novo Hitler” no mundo). Sabemos que tudo isso interfere de algum jeito, mas não temos conhecimento sobre o resultado final e muito menos controle sobre a situação. Não temos como controlar a loteria genética, salvo avancem os polêmicos testes de manipulação dos genes (aí já é uma outra história). Você não precisa pensar nessas coisas na hora de afogar o ganso! Não vai fazer diferença.

O que cabe aqui é uma reflexão: você é o resultado da combinação de um único espermatozóide específico com um único óvulo também específico, fertilizados em uma circunstância absurdamente específica e com trilhões de detalhes influenciando de alguma forma. Se fosse qualquer outro daqueles 300 milhões de espermatozóides do seu pai que tivesse entrado no óvulo da sua mãe, você não seria você. Seria uma pessoa levemente (ou absurdamente) diferente! Poderia ter olhos mais claros, um cabelo mais liso, mais "vocação" para outra área de atuação, mais chances de ter câncer... Poderia até ter nascido do sexo oposto e isso, obviamente, daria um rumo bem diferente à sua vida.

Já pensou se Hitler, por exemplo, tivesse perdido a “Sperm Race” e nascesse no corpo de uma menina (as chances eram de 50%)? Seu nome poderia ter sido Paula (que veio a ser o nome de sua irmã mais nova), certamente não teria ascendido à carreira militar e os desdobramentos da 2ª Guerra Mundial, obviamente, teriam sido outros. Ou, mesmo que o vitorioso da “Sperm Race” fosse de cromossomo Y e o bebê tivesse nascido no corpo de um homem, o jovem Adolf poderia ter uma personalidade bem distinta. Poderia ter sido um artista talentoso e ter se matriculado na Academia de Belas-Artes de Viena (coisa que o “nosso Adolf” tentou e não conseguiu). Ou poderia ter uma personalidade levemente diferente daquela do Adolf que todos odiamos ter conhecido, mas que tomaria decisões e seguiria caminhos diferentes (seja por valores ou competência), o que daria um outro rumo para a história. As chances de termos tido um “outro Adolf” totalmente idêntico (indistinguível) ao que entrou pra história é basicamente 1 em 300 milhões. Já as chances de termos tido um Adolf “parecido” são um pouco maiores, dadas as peculiaridades genéticas e o mesmo ambiente de criação mas, ainda assim, muito remotas. Seria como tirar o mesmo número duas vezes na roleta.

Centenas de milhões de espermatozóides para nascer um bosta desses.

A Dona Klara e o Seu Alois (pais de Adolf) certamente não sabiam de nada disso e jamais poderiam imaginar que, quando deram "aquela bimbada" no verão de 1888, um dos 300 milhões dos espermatozóides ejaculados por Alois viria a se tornar, nove meses depois, o futuro Führer da Alemanha Nazista. Sabe-se lá como foi essa “bimbada” (se quiser imaginar a cena, fique à vontade) ou que tipo de fatores a influenciaram (um vinhozinho no jantar ou aquela acordada inspirada no meio da madrugada). O que sabemos é que ela transformou o mundo e custou a vida de milhões de pessoas.

O mesmo vale para todas as personalidades raras, excêntricas e “insubstituíveis” que transformaram a história: Sócrates, Cleópatra, Jesus, Galileu, Joana D’Arc, Einstein, Steve Jobs… Imagina se cada uma dessas pessoas tivesse sido derrotada na “Sperm Race”! Quais as chances de outro daqueles 300 milhões de espermatozóides derrotados ter obtido os mesmos resultados? Lembrando sempre que, segundo estudos, as características genéticas determinam 50% do comportamento e personalidade do indivíduo, contra outros 50% que são determinados pelo ambiente de criação e influenciadores externos como amigos, leituras, escola, ídolos, youtubers, bandas de rock e experiências de vida (não vou colocar horóscopo nessa equação).

50% x 50%. Metade do que você é vem dos genes dos seus pais.

Agora imagine mais além ainda: imagine quais fatores influenciaram essas corridas malucas que mudaram o nosso mundo. São todas corridas que acontecem durante bimbadas épicas e repletas de fatores externos decisivos. Cada um desses fatores tem uma importância indispensável e aparentemente irrelevante, como o teor de cafeína naquele espressinho tomado pelo casal depois da sobremesa horas antes da bimbada; a temperatura da água que deu origem ao espresso; as condições psicológicas da pessoa que esquentou a água naquela temperatura precisa; a formação como indivíduo e peculiaridades genéticas que culminaram naquela condição psicológica específica da pessoa que preparou o café e; claro, a bimbada dos pais que originaram a pessoa que preparou aquele espresso, seja lá quem tenha sido esse ilustre desconhecido (viajei agora, né?).

Isso só nos faz acreditar que cada detalhe ao nosso redor pode fazer toda uma enorme diferença nessa equação caótica que permeia o universo observável. Detalhes como a temperatura da água do seu banho, a cor do seu xixi, a quantidade de sal que põe na comida, a marca do seu desodorante, a posição em que deixa os talheres, a quantidade de pasta que usa para escovar os dentes e o tempo que levou pra ler esse texto. E toda vez que isso soar como exagero, lembre-se desse número: 300 milhões!



  • Agradecimentos à Roberta Oliveira, bióloga e Doutoranda em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará, e à nutricionista Mônica Broilo, que ajudaram nos esclarecimentos de algumas informações contidas no texto.


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REFERÊNCIAS: A Grande Corrida da Vida https://www.youtube.com/watch?v=iZGjgJIn3FE A loteria genética da reprodução: https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,a-loteria-genetica-da-reproducao,169592
Fertilization
https://www.youtube.com/watch?v=_5OvgQW6FG4&feature=youtu.be
MEMÓRIA GENÉTICA | Nerdologia: https://www.youtube.com/watch?v=L9f9oaYdBZE
MLODINOW, Leonard. O Andar do Bêbado - como o acaso determina nossas vidas. Zahar, 2009. O que dá nossa personalidade? | Nerdologia: https://www.youtube.com/watch?v=fiXPdWAmFyI Você, o espermatozóide vencedor | Superinteressante: https://super.abril.com.br/ciencia/voce-o-espermatozoide-vencedor/