Recentemente, bati um papo com o futurista italiano Federico
Pistono, que esteve em Porto Alegre no início de setembro. Tinha algumas
perguntas na ponta da língua pra fazer a ele e, felizmente, foi possível
conversarmos numa boa. Fiquei surpreso com sua paciência, atenção e entusiasmo
ao falar sobre o assunto.
![]() |
| Jacque Fresco e Federico Pistono em 2010. |
Pistono é um importante membro do Movimento Zeitgeist, o
mesmo que tornou o Venus Project conhecido pra muita gente (eu, inclusive). Ele também tem
passagem pela Singularity University e circula no meio de bacanas como Peter Diamandis,
Ray Kurzweil e Elon Musk.
![]() |
| No ombro do Bozo! |
Seu livro “Robots will steal your job, but that’s okay” já
foi citado várias vezes nesse blog e é também um feroz defensor daquilo que o
TVP tanto argumenta: ninguém deveria trabalhar no que não gosta; ninguém
deveria ser escravizado pelo sistema; ninguém deveria depender do
dinheiro/trabalho pra sobreviver. O mesmo livro chegou a ser citado e recomendado
pelo CEO do Google, Larry Page.
Contudo, Pistono simplesmente parou de falar no TVP de uns
tempos pra cá. Em seu livro não há nenhuma menção ao projeto, nem ao Jacque
Fresco e nem mesmo a algo que sugira uma Economia Baseada em Recursos. Essa era
a principal dúvida que eu tinha pra tirar com ele: “Por que?” Se ele conhece o
TVP e até admira as ideias do Jacque Fresco (acho que AQUI isso fica bem
claro),
por que não o mencionou nenhuma vez em seu livro, sendo que são dois assuntos
que se complementam?
Bom... no Congresso da ADVB, Pistono sugeriu o tal da UBI
(Unconditional Basic Income) como uma das grandes soluções para sobrevivermos à
automação que está crescendo em uma escala assustadoramente exponencial. Já
falei sobre isso em outro post: é uma espécie de “subsídio que custeia plenamente
a vida de uma pessoa, de forma que ela possa sobreviver sem a necessidade de
ter um trabalho e rentabilidade financeira.”
Bolsa Família chique
![]() |
| O que os anti-assistencialismo que desdenham o Bolsa Família diriam da UBI? |
Quando eu ouvi falar pela primeira vez de algo do tipo, a
associação com um presságio de EBR foi inevitável. Lógico que temos algumas
diferenças aqui: numa EBR, a necessidade do dinheiro deixaria de existir por
completo e o Capitalismo naturalmente perderia o sentido. Numa UBI, o
Capitalismo continua existindo, bem como o incentivo ao consumismo, a busca
pelo lucro, as hierarquias sociais... Ainda assim, eu continuo vendo a UBI (não confundir com UBER) como
uma espécie de “meio termo” entre o Capitalismo dos dias atuais com uma
eminente EBR. Um processo de transição, talvez.
Ao responder a pergunta sobre o TVP, Pistono disse que
considera o Jacque Fresco um excelente engenheiro, um talentoso arquiteto e um
senhor de ideias muito louváveis. Mas acaba por aí. Em termos práticos, tudo o
que ele já fez foram belas maquetes, as mesmas que ele vem apresentando ao Larry
King e ao mundo desde os anos 1970. Mas
maquetes e desenhos pertencem ao mundo das ideias. Cientistas de verdade não
trabalham só com ideias. Cientistas e os verdadeiros protagonistas da mudança
são aquelas pessoas que, parafraseando o Tiago Mattos, vão lá e fazem. Nesse
ponto eu até concordo com o Pistono.
Em termos práticos, os trabalhos do Jacque Fresco nunca chegaram
a impactar diretamente a sua vida ou a minha, certo? Apesar dele já ter
trabalhado como engenheiro na época em que nossos pais sequer tinham nascido (afinal, são
99 primaveras nas costas), as grandes obras do TVP só existem em forma de
maquete. É como se fosse um “John Lennon” cantando Imagine (exemplo que peguei
emprestado do meu colega Pedro Becker). Um artista.
| TVP: nada mais do que belas maquetes? |
Ok... apesar de pagar pau pras maquetes do TVP e reconhecer
que o trabalho de designer do Fresco também é “VLEF”, reconheço que falta uma
dose de prática pra coisa realmente ganhar vida. Foi por isso que eu perguntei
ao Pistono: “Como é que figurões como Peter Diamandis, Ray Kurzweil, ou Larry
Page ou Elon Musk nunca ouviram falar do Venus Project? Como é que ninguém
nunca apresentou um ao outro? Seria o encaixe perfeito! Já pensou se o Google,
ou a Space X, ou a Tesla, ou a X Prize resolvem abraçar o TVP e começar a botar
o projeto na prática?”
![]() |
| Vai lá e faz, porra! |
Se eu fosse você
Já tive a oportunidade de conversar pessoalmente com JacqueFresco e Roxanne Meadows, perguntei a
eles sobre o Ray Kurzweil e sobre o que eles pensam sobre a Singularidade.
Fresco já conhecia as ideias do Kurzweil, mas discorda em vários pontos (com a
própria ideia de imortalidade, inclusive). Falou também que sua visão é
meramente tecnológica e que há pouca preocupação social. Roxanne diz que
Kurzweil imagina um mundo com dinheiro e que isso é um problema.
| Fresco e eu em abril de 2014. |
Por outro lado, Kurzweil e Diamandis provavelmente nunca
ouviram falar do Jacque Fresco ou do TVP (eis a prova).
Detalhe: Peter Diamandis escreveu um excelente livro sobre Abundância no qual
fala sobre exatamente as mesmas coisas que o Fresco defende: um mundo com
recursos suficientes pra eliminar o principal problema do mundo: a escassez (de
saúde, de educação, de alimento, de água, de energia, de agasalho, de tudo!).
São duas ideias que se complementam perfeitamente, mas que não se conhecem!
Quando falei isso pro Pistono, ele me lançou o seguinte
desafio: “Ok, então! Vamos fazer de conta que você é o Federico Piscoto e eu
sou o Peter Diamandis. Eu converso com ele toda semana, somos bons amigos, logo
não haveria problemas pra eu pedir para que ele conhecesse melhor as ideias do
Venus Project. Agora tente me convencer disso.” Confesso que me senti bloqueado
naquele momento, pois fiquei sem ter o que falar. Ainda assim, argumentei
que o Venus Project e a ideia de promover a abundância têm muita
coisa em comum e que as cidades inteligentes projetadas pelo Fresco se
encaixariam perfeitamente nesse sistema. Pistono (interpretando o Diamandis),
contudo, disse: “Tá, ok. Eu diariamente recebo várias ideias pró-abundância. Na
Singularity University há pessoas de todo lugar do mundo inteiramente dedicadas
a isso. O que essa sua ideia tem de tão especial?”. Tentei argumentar que o Jacque
Fresco possui uma boa experiência de causa, dado o fato de ter presenciado a Crise
de 1929, de ter vivido duas guerras mundiais e de ter dedicado uma vida inteira
(uma longa vida) a isso. Veja bem: não estou propondo uma sociedade
entre ambos, apenas sugerindo uma referência a nível de curiosidade.
Senti que havia uma certa birra do Pistono com relação ao
TVP. Perguntei, na cara dura, se tinha a ver com o divórcio com o TZM, que
ocorrera em 2012. Suas respostas, contudo, dificilmente eram precisas e diretas.
Eu estou envergonhado?
Meu colega Pedro Becker acompanhou de perto a conversa e até
trocou uma ideia comigo dias depois. Fiquei surpreso ao saber que ele já
conhecia o Venus Project antes mesmo de fazer o Tomorrow. Pedro disse que, pela
sua percepção, o Pistono já deixou de lado essa vibe mais “ativista” e está
mais focado em participar de forma influente como cientista ou Google Advisor. “Eu
cheguei a dizer a ele que o conhecia por causa do Movimento Zeitgeist, e
percebi que ele não esboçou nenhum contentamento.”
Conversando com o Pedro, levantamos a questão de que o Pistono possa estar tentando desvincular sua imagem a movimentos como o TZM. Esse tipo de associação, sabemos, pode confundi-lo com anarquista, marxista, ativista, "neo hippie"... Não pega bem para um cientista chancelado pelo Google. Sua atitude de defender a UBI já é suficientemente polêmica por si só (principalmente para aqueles que a comparam com um Bolsa Família ou incentivo à vagabundagem).
Quando perguntei ao Pistono se a UBI poderia ser considerada um “meio termo” entre Capitalismo e Singularidade, ele também não
foi direto na resposta. Disse que a UBI, caso consolidada, levaria um bom tempo
e poderia ressignificar muita coisa, inclusive a EBR. Poderia ser uma transição
para uma EBR, sim, como poderia ser a transição para qualquer outro tipo de
sistema. O cenário “pós-UBI” é imprevisível.
Ainda assim, eu apoio a UBI justamente por continuar
enxergando nela uma ponte muito nítida entre o sistema atual e a EBR.
Tercerizando opiniões
Além do Pedro Becker, outras três pessoas me ajudaram a digerir
esse assunto: o Gustavo Nogueira, que também participou da conversa com o Pistono
e fez excelentes observações; o Willian Ceolin, que está na Holanda cursando graduação em Inteligência Artificial e; o
vlogueiro especialista Leandro Zayd, profundo conhecedor do assunto.
![]() |
| Ceolin largou tudo no Brasil pra estudar I.A. em Groningen, na Holanda. |
O Ceolin disse que concorda com o Pistono quando ele diz que
falta “VLEF” pro pessoal do Venus Project. As ideias e a visão de mundo são as
melhores já vistas (pelo menos por nós), mas somente boas ideias não bastam.
Diferente do Jacque Fresco, pessoas como Larry Page, Mark Zuckerberg e Tesla “foram
lá e fizeram” algo que os tornaram mundialmente famosos (não que a fama seja a
maior das recompensas). Essas pessoas sim fizeram algo que mudou
consideravelmente a vida da maioria dos terráqueos (direta ou indiretamente).
![]() |
| Leandro Zayd se fantasia feito louco pra falar sobre assuntos sérios. |
Já o Leandro Zayd foi direto ao apontar o que ele vê como
solução entre a teoria e a prática. Os Ecopolos, segundo ele, são o caminho. “Lá
se empreende. Mas a posse é coletiva pra se automatizar, eliminando os próprios
trabalhos. A renda básica também é outra medida boa.” Só que os Ecopolos não são
exatamente uma “filial” do Venus Project, uma vez que o próprio TVP não os
reconhece como tal. Para o Zayd, falta uma visão mais “Open Source” ao TVP, que
se mostra centralizador demais para o que propõe. Talvez essa falta de “Open
Source” e jogo de cintura seja um dos maiores impedimentos para que o projeto
ganhe a expansão que merece. “Falta um pouco de humildade ao pessoal do Venus
Project nesse ponto”, disse Zayd, “senão vão continuar apenas fazendo docs que
mal conseguem ter mais visualização que o meu canal”.
![]() |
| Zayd aponta os Ecopolos como solução prática e imediata. |
Pra onde correr?
Uma das coisas mais legais do TVP é que, apesar de não haver
nenhuma influência prática realmente impactante no mundo (diferente do Google,
da Tesla, do Facebook ou do Linux), eles disseminaram uma ideia bem
interessante que já mudou a mentalidade de muita gente (a minha, inclusive). É
bem verdade que essa ideia já tinha sido disseminada pelo Zeitgeist, mas este
sim é totalmente situado no mundo das ideias (no meu ponto de vista).
Se não fosse as ideias do TVP terem fritado os meus
neurônios, eu provavelmente nunca iria me interessar por futurismo, nem
Singularidade, nem Transhumanismo... dificilmente tomaria conhecimento do Ray
Kurzweil ou do Tiago Mattos, não teria conhecido a Perestroika, nem o
Tomorrow, nem os amigos que fiz no Tomorrow... Ou seja, PRA MIM teve um
importante impacto em termos de visão de mundo. Consequentemente, pessoas que
conversam comigo e acabam sendo "contaminadas" pela minha visão de
mundo também acabam sofrendo influências dessas mesmas ideias. Influências que
podem mudar drasticamente suas vidas, diga-se de passagem. Ou seja, não é um
conhecimento meramente teórico e inútil.
Mas concordo que a falta do VLEF pode tirar a credibilidade
da mais bela das teorias. Portanto, chega de teorizar e ficar confabulando.
Hora de arregaçar as mangas e ir pra prática!
O que temos que fazer PRA HOJE? Ecopolos? Startups? Gibi?
Vlog? Tirinhas? Um podcast? Filhos? Comer todo mundo e depois ir embora? Churrasquinho de boa?
Aceito sugestões! ^^
LINKS:
Programa de Ecopolos da Cooperativa Equilibrium: http://equilibrium.org.br/portal/ecopolos
Singularity University: http://singularityu.org
The Venus Project: www.thevenusproject.com
Site do Federico Pistono: http://federicopistono.org
Singulariyu Hub: http://singularityhub.com
The Venus Project: www.thevenusproject.com
Site do Federico Pistono: http://federicopistono.org
Singulariyu Hub: http://singularityhub.com
Leandro Zayd no Diáspora: https://despora.de/people/83e19de22ddae274
Bate-papo com Leandro Zayd na Unisc: https://www.youtube.com/watch?v=QaFVXoCrYM8









