Black Mirror é a tão-falada série britânica que estreou em 2011 mas que só agora, em 2016, ganhou uma projeção muito maior graças à sua terceira e mais recente temporada, produzida e transmitida pelo Netflix. Se você não sabe do que eu estou falando ou simplesmente ainda não assistiu a todos os 13 episódios dessa série, esse post acaba aqui. Sério.
Farei comentários sobre cada um dos episódios partindo da suposição que você já viu tudo e que sabe exatamente do que eu estou falando, ok?
Antes de irmos para as análises individuais dos episódios, um comentário geral:
Eu não sou um grande fã de seriados (tirando Tokusatsu, claro) e nem maratonista de Netflix, mas considero Black Mirror uma das melhores coisas pra se assistir. O primeiro e principal motivo é que é uma excelente produção, com ótimos roteiros, uma direção incrível e histórias que te fazem pensar profundamente. Considero, inclusive, um erro assistir dois ou mais episódios no mesmo dia. O ideal é você assistir a um episódio, ir pra cama e ficar pensando nele. Se puder conversar com alguém que acabou de assistir, melhor ainda! Essa é, na minha opinião, a melhor forma de “saborear” a série. São histórias desconexas e carregadas de discussões em potencial que não merecem ser vistas em maratona.
Outra curiosidade sobre Black Mirror é o profundo sentimento de desconforto que a série provoca. Distopia total! E ainda assim consegue agradar a entusiastas do futurismo que se julgam esperançosos, como eu. Talvez esse seja o único elemento em comum entre 13 episódios sem relação uns com os outros: você sempre termina com vontade de cortar os pulsos. Mas acho que é mais um convite a reflexão do que um presságio do apocalipse.
Black Mirror fez (quer dizer, está fazendo) um grande serviço para o futurismo: a popularização do assunto! E isso tem um poder incrível! Nunca antes na história desse país se viu tanta gente discutindo futurismo em mesas de bar ou no churrasco de domingo. A ficção científica é, possivelmente, a maior responsável por essa popularização. Com Black Mirror, mais pessoas passaram a discutir sobre os perigos das tecnologias exponenciais, sobre a privacidade na era da internet, sobre a “sociedade do espetáculo”, sobre a obsessão por likes, sobre o preconceito induzido, sobre ética na ciência, sobre imortalidade… Isso é sensacional!
Enquanto esse assunto for discutido apenas por estudiosos e entusiastas do assunto, o progresso tenderá a ser lento. Mas com o sucesso de Black Mirror, mais pessoas poderão se revelar futuristas em potencial, só pelo fato de refletirem e discutirem sobre os assuntos pautados na série.
Mas como inexiste conexão entre os episódios, cada um deve ser analisado individualmente. Por isso, segue aqui um comentário sobre cada um deles:
S1E1: The National Anthem
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| O Primeiro Ministra prestes a "comer" um porco. |
O episódio do “ministro e o porco” tem como tema central uma piada de mal gosto que, ao longo da trama, vai ganhando ares mais sérios e deixando o espectador, assim como o ministro, num dilema cada vez mais extremo. No final, fica claro que o misterioso vilão tinha um único objetivo: instaurar o caos. Era como o Coringa, do Batman. O objetivo é cumprido e, apesar do final feliz (a princesa Susannah é libertada e o ministro recupera sua popularidade), a cena final revela que o casamento de Michael Callow e sua esposa Jane nunca mais seria o mesmo, preservando apenas as aparências.
É o episódio do “negão da esteira”, que aparentemente se passa num futuro mais distante (em comparação ao primeiro, pelo menos). O que temos aqui é uma crítica ao nosso sistema atual: pessoas que possuem rotinas basicamente industriais e que trabalham em prol do entretenimento que é, na verdade, uma janela escancarada para a propaganda e o consumismo. Esse ciclo vicioso ganha ares ainda mais extremos com o reality show inspirado no American Idol e a maneira como o show business aliena as pessoas.
S1E3: The Entire History of You
Um dos meus preferidos! Esse episódio traz uma tecnologia que eu acho que teria tudo pra vingar (e que é, na verdade, um upgrade das câmeras de smartphone). É o episódio do “corno que grava com os olhos”. Daria pra fazer muitas histórias bacanas como pano de fundo dessa interessante tecnologia, mas escolheram uma bem legal com altas doses de drama, traição, vingança e crises familiares. E o final ainda apresenta uma “solução” para essa ferramenta que vai se revelando uma vilã durante o enredo: “Não gostou? Não quer mais? Simples: abandona!” É o que eu digo pra quem não quer mais Facebook: “Você não é obrigado a ter. Se a sua vida é melhor sem, deleta!”
O episódio do “namorado ressuscitado” traz o tema “imortalidade” à discussão dum jeito bastante bizarro, à primeira vista. Apenas uma ressalva que eu faço: o que eu defendo como imortalidade não é exatamente o que acontece nesse episódio! Quando Martha trouxe Ash de volta, ela resgatou as “lembranças que tinha dele” e os registros deixados pelo mesmo em vida. Isso é só uma parte do que se foi. Tanto é que na cena em que os dois vão pra cama, o “avatar” de Ash diz não possuir nenhuma informação íntima em seus registros. É lógico que isso só podia dar em merda (e dá). Não quero esse tipo de imortalidade. Sou mais a imortalidade de Chappie e Transcendence.
Esse é talvez o episódio mais “tenso” de todas as temporadas, justamente pelo final revelador que surge como um soco no estômago! É o episódio “da fugitiva sem memória” que te faz torcer e acompanhar o tempo todo até que, no fim, descobre que a protagonista é a verdadeira filha-da-puta da história e que tudo não passa de um espetáculo midiático. Aí você pode assistir tudo e pensar: “Forçaram a barra, né? A sociedade nunca iria julgar e nem punir de maneira tão circense uma criminosa! Parece exagero.” Será mesmo? Tem certeza? Olhe bem ao seu redor.
S2E3: The Waldo Moment
É o episódio do “candidato Waldo” que coloca em discussão o processo eleitoral e os riscos de uma “democracia direta”. Na verdade, é uma crítica à democracia como um todo. A popularidade de Waldo dá a entender que as pessoas não são capazes de tomar decisões importantes. Não é à toa que esse episódio recebeu várias comparações com a eleição de Donald Trump nos EUA.
Especial de Natal: White Christmas
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| O Natal mais temido de todos os tempos. |
Este episódio é, na verdade, um especial de Natal com um tempo maior de duração (um longa metragem, basicamente), que mistura três histórias numa só. O que temos aqui é, na verdade, um interrogatório disfarçado em que Matt tenta arrancar as verdades de Joe. Para isso, Matt conta sobre seu lance como “coach” na mal sucedida tentativa de fazer um cliente seu se dar bem na balada. O resultado é trágico e faz com que Matt seja “bloqueado” pela sua própria esposa. O conceito de “bloqueado” aqui é absurdamente tenso. Depois, temos a igualmente tensa história de Matt “torturando” Greta com a sensação do tempo: Greta passa seis meses de tédio absoluto enquanto, para Matt, passaram-se apenas alguns segundos. Por fim, a confissão de Joe e sua história absurdamente trágica, que resultou na morte do pai e da filha de sua ex-esposa. No fim das contas, todo mundo se fode e todos são punidos com o que há de mais cruel nas tecnologias apresentadas nesse episódio: Matt é bloqueado definitivamente para todas as pessoas da sociedade e Joe fica numa eterna sensação de looping. Sinistro demais!
S3E2: Playtest
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| Game Over para Cooper. |
Esse episódio, do “game de terror na mansão”, tinha tudo pra ser um dos meus preferidos (e não deixa de ser), principalmente pelas expectativas que se geraram e pelo tema: mixed reality. Mas confesso que a reflexão e a discussão provocada pelo episódio anterior (Nosedive) mexeram mais comigo. Nesse episódio temos o conceito de “terror” sendo levado a vias extremas: o gamer (ou seria vítima?) Cooper começa enfrentando medos “comuns” até simplesmente pirar em suas fobias mais profundas, chegando a viver um paradoxo e constantes “resets” até pirar de vez. Mas fica claro, pra quem viu o episódio, que tudo foi causado por um acidente que aconteceu na hora em que o celular de Cooper tocou. Acidentes ocorrem de várias as formas e não necessariamente incriminam uma tecnologia.
É o episódio do “punheteiro chantageado”. Vejo uma semelhança muito forte com o White Bear: você torce para o protagonista o tempo inteiro, até que percebe, lá no final, que o cara é o verdadeiro filho-da-puta da história. A discussão sobre os perigos e ameaças de uma tecnologia vindoura ou exponencial não está presente nesse episódio. O que temos aqui é um excelente roteiro e um enorme clima de tensão e expectativa, além de um paradigma ético: “Você acha justo o que fizeram com os pervertidos?”
Esse foi, para mim, o pior episódio de todas as temporadas. Primeiro porque achei arrastado e cansativo a ponto de provocar profundos bocejos (e até umas “pescadas”). Logo eu pensei: “Esse episódio vai ter que ter um final muito, mas MUITO revelador pra não me deixar frustrado”. Mas não foi. Foi um final “legalzinho” até, mas longe de ser um “White Bear” ou “Playtest”. O que temos aqui é uma crítica irônica à imortalidade numa mistura de Matrix com “White Christmas”. Talvez seja o único episódio com “final feliz” (repare!), apesar da ironia. A cena do robô “encapsulando” as almas penadas em um gigantesco acervo é pra ser ironicamente assustador. E é mais uma proposta de “imortalidade” que não me agrada.
Esse sim propõe uma discussão fervorosa! É o episódio do “soldado que mata pessoas como se fossem zumbis” (ou as chamadas “baratas”, como eles costumam se referir). O que temos aqui é uma tecnologia que faz com que soldados como Stripe matem inimigos pensando estar eliminando ameaças semelhantes a zumbis. É tudo um plano do governo para que os soldados percam qualquer sensação de empatia e assim exterminem outros seres humanos sem nenhum remorso. O que temos hoje não é muito diferente disso, não! Ao invés de um apetrecho tecnológico, porém, o que temos na vida real é a mais devastadora de todas as armas: a ignorância. Você não precisa de tecnologia nenhuma para ver muçulmanos, negros ou até animais como monstros descartáveis: basta desconhecê-los ou rejeitar a empatia.
O episódio das “abelhas assassinas” propõe uma discussão semelhante ao que ocorre em Death Note. Quando a sociedade toma para si o direito de julgar, aos seus critérios, quem merece viver ou morrer, o pior pode acontecer. É o senso de justiça sendo levado ao extremo! As primeiras vítimas são aquelas apedrejadas nas redes sociais (pessoas que fazem merda em público). Depois, acaba sobrando para todas as que aderiram a esse “jogo da morte”, eliminando milhões de pessoas. Por fim, a caça às bruxas come solta, com as pessoas fazendo a justiça com as próprias mãos.
EXTRA!
QUIZ BLACK MIRROR:
E você, curtiu Black Mirror? Montei aqui um Quiz com algumas perguntas sobre a série pra ver se você prestou a merecida atenção:
1 - No episódio “The National Anthem”, o que o criminoso faz com o dedo indicador de uma das mãos da princesa Susannah?
- Corta fora e envia para a imprensa
- Come
- Quebra
- Nada
2 - A música “Anyone Who Knows What Love Is”, de Irma Thomas, toca em três episódios da série. Você sabe quais são?
- "Fifteen Million Merits", "The Entire History of You" e "White Christmas"
- "Fifteen Million Merits", "White Christmas" e “Nosedive”
- "Fifteen Million Merits", "White Christmas" e “Men Against Fire”
- "White Christmas", “Nosedive” e “San Junipero”
3 - O ator Robert Downey Jr, que interpretou Tony Stark nos cinemas, pretende transformar um dos episódios da série em longa metragem. Qual episódio é esse?
- The National Anthem
- The Entire History of You
- Be Right Back
- Men Against Fire
4 - O ator Domhnall Gleeson (o Ash de “Be Right Back”) foi protagonista de um filme que também traz uma forte pegada sobre os “perigos” da Tecnologia. Que filme é esse?
- Transcendence
- Chappie
- Ex-Machina
- Lucy
5 - A atriz Tuppence Middleton, que faz a Rilley Blue em Sense 8, tem participação destacada em dos episódios da série. Qual?
- The National Anthem
- White Bear
- White Christmas
- San Junipero
6 - O especial de Natal, “White Christmas”, é o recordista em referências aos demais episódios da série. Qual dessas cenas NÃO aparece no episódio:
- Um dos usuários que participa da conferência com Matt utiliza o nickname "I_AM_WALDO"
- O teste de gravidez da esposa de Joe é o mesmo usado por Martha em “Be Right Back”
- A música cantada por Bethany no karaokê é a mesma que Abi canta em "Fifteen Million Merits".
- Matt afirma ter tido um caso com Ffion, a esposa de Toby em "The Entire History of You"
7- Qual desses personagens possui a pior avaliação em "Nosedive"?
- Ryan, o irmão de Lacie
- Naomi, a “amiga noiva”
- Susan, a caminhoneira
- Paul, o noivo de Naomi
8 - Qual a doença enfrentada pelo falecido pai de Cooper em “Playtest”?
- Alzheimer
- Câncer
- Aids
- Mal de Parkinson
9 - O ator Michael Kelly, que interpreta o personagem Arquette em “Men Against Fire” faz também um importante personagem em outra série do Netflix. Que série é essa?
- House of Cards
- Daredevil
- Sense 8
- Narcos
10 - Quem foi a primeira vítima da hashtag #DeathTo em “Hated in the Nation”?
- a jornalista Jo Powers
- o oficial Shaun Li
- o rapper Tusk
- Clara Meades
Respostas: 1-D; 2-C; 3-B; 4-C; 5-B; 6-D; 7-C; 8-A; 9-A; 10-A.
































