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| A origem da vida é uma coisa bem gozada! |
Iniciamos essa divagação com a premissa de que existem algumas pessoas que, dadas suas respectivas excentricidades e relevâncias, mudaram para sempre a história do mundo. Citarei alguns casos famosos que dispensam argumentação: se não fosse Jesus Cristo, não existiria o Cristianismo; se não fosse Galileu, não existiria a ciência moderna; se não fosse Napoleão, não existiriam as guerras que o sucederam; se não fosse Hitler, não existiria o holocausto; se não fosse Alan Turing, não existiria o computador; se não fosse Steve Jobs, não existiria a Apple; se não fosse Mark Zuckerberg, não existiria o Facebook…
O “se não fosse fulano”, aqui, equivale a “se tal pessoa não tivesse nascido”. Sendo mais direto: “se o pai desse cara não tivesse engravidado a mãe dele”. Ou, melhor ainda: “se os pais dele não tivessem acasalado naquele dia, naquele horário, naquela temperatura, naquela umidade, naquela posição e naquelas condições físicas e hormonais”. Essa última afirmação pode parecer um exagero, mas tudo isso interfere no resultado final da pessoa vindoura.
Entenda que, cada pessoa que nasce, por mais inútil e dispensável que seja, já vem ao mundo como um “vencedor” por ter derrotado outras centenas de milhões de espermatozóides na “Sperm Race”, a corrida da vida. Parece papo de coach, né? Mas é isso mesmo: todo espermatozóide que chega ao óvulo e vira um feto tem o direito de gritar “Eu sou um vencedor!”. Antes mesmo de sair da barriga da mãe e ver a luz do mundo.
O “se não fosse fulano”, aqui, equivale a “se tal pessoa não tivesse nascido”. Sendo mais direto: “se o pai desse cara não tivesse engravidado a mãe dele”. Ou, melhor ainda: “se os pais dele não tivessem acasalado naquele dia, naquele horário, naquela temperatura, naquela umidade, naquela posição e naquelas condições físicas e hormonais”. Essa última afirmação pode parecer um exagero, mas tudo isso interfere no resultado final da pessoa vindoura.
Entenda que, cada pessoa que nasce, por mais inútil e dispensável que seja, já vem ao mundo como um “vencedor” por ter derrotado outras centenas de milhões de espermatozóides na “Sperm Race”, a corrida da vida. Parece papo de coach, né? Mas é isso mesmo: todo espermatozóide que chega ao óvulo e vira um feto tem o direito de gritar “Eu sou um vencedor!”. Antes mesmo de sair da barriga da mãe e ver a luz do mundo.
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| Haviam 300 milhões de competidores. Só um venceu: você! |
Não é pouca coisa não: são 300 milhões de competidores com chances iguais de virar um ser humano. Só um deles chega ao óvulo e “vence”. É a chamada “loteria genética” da qual você certamente já ouviu falar nas aulas de biologia. Além de cada espermatózoide ter seu próprio "genoma" (e cada óvulo idem), você adiciona aí as possíveis combinações de 46 cromossomos. Cada mãe doa 23 cromossomos e cada pai mais 23 para, então, formar o ovócito, que depois vira o zigoto e, finalmente, o feto.
A ejaculação do “papai” é o disparo que dá a largada na Sperm Race. Numa corrida com tantos competidores em chances iguais, todo detalhe acaba fazendo toda a diferença. O mesmo vale para cada óvulo que a “mamãe” ovula por mês e que é geneticamente diferente do que seria em outro período. Ou seja, se o casal estava numa posição “papai-e-mamãe” na hora da ejaculação, o resultado final da “Sperm Race” certamente não seria o mesmo caso a posição fosse com a mulher em cima do homem, ou de quatro, ou de pé, ou sentados, ou no banco de trás do carro (vai, divirta-se aí preenchendo a lista). Também não seria o mesmo caso o “quarto do abate” estivesse 1°C mais quente ou mais frio. Também não seria o mesmo se a ejaculação acontecesse 1 segundo antes ou depois. O mesmo vale para as condições físicas, alimentares, higiênicas e psicológicas do casal. Sim, esses detalhes fazem toda a diferença porque, afinal de contas, são 300 milhões de resultados possíveis. Lembre-se sempre desse número: 300 milhões! Se fosse um país, seria a 4ª maior população do mundo.
Em uma corrida de fórmula 1, por exemplo, temos um número bem menor de competidores: apenas vinte. E nem todos estão em chances iguais, seja pela posição de largada, seja pelo carro, seja pela escuderia, seja pela própria competência do piloto. A pista também faz toda a diferença, bem como a temperatura, a umidade e o horário da corrida. Ainda assim, o resultado final, de quem vai subir ao pódio, nem sempre é previsível (talvez até fosse na época do Schumacher).
A ejaculação do “papai” é o disparo que dá a largada na Sperm Race. Numa corrida com tantos competidores em chances iguais, todo detalhe acaba fazendo toda a diferença. O mesmo vale para cada óvulo que a “mamãe” ovula por mês e que é geneticamente diferente do que seria em outro período. Ou seja, se o casal estava numa posição “papai-e-mamãe” na hora da ejaculação, o resultado final da “Sperm Race” certamente não seria o mesmo caso a posição fosse com a mulher em cima do homem, ou de quatro, ou de pé, ou sentados, ou no banco de trás do carro (vai, divirta-se aí preenchendo a lista). Também não seria o mesmo caso o “quarto do abate” estivesse 1°C mais quente ou mais frio. Também não seria o mesmo se a ejaculação acontecesse 1 segundo antes ou depois. O mesmo vale para as condições físicas, alimentares, higiênicas e psicológicas do casal. Sim, esses detalhes fazem toda a diferença porque, afinal de contas, são 300 milhões de resultados possíveis. Lembre-se sempre desse número: 300 milhões! Se fosse um país, seria a 4ª maior população do mundo.
Em uma corrida de fórmula 1, por exemplo, temos um número bem menor de competidores: apenas vinte. E nem todos estão em chances iguais, seja pela posição de largada, seja pelo carro, seja pela escuderia, seja pela própria competência do piloto. A pista também faz toda a diferença, bem como a temperatura, a umidade e o horário da corrida. Ainda assim, o resultado final, de quem vai subir ao pódio, nem sempre é previsível (talvez até fosse na época do Schumacher).
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| Em uma corrida de Fórmula 1, o número de competidores cai para 20. |
Numa corrida de 300 milhões de competidores em busca da fecundação, essa soma de detalhes é proporcionalmente maior e bem mais afetável. O homem ter tomado um gole a mais ou a menos de cerveja antes de ir pra cama com a rapariga pode, mesmo que levemente, interferir no seu organismo (e, consequentemente, no “grid de largada” dos espermatozóides). O banho mais recente, o tipo de sabonete e as roupas íntimas da moça também podem influenciar decisivamente o seu pH vaginal, que é outro fator fundamental no resultado da “Sperm Race”.
Mas é claro que todas essas informações não têm nenhuma serventia para quem pretende ter um “super filho” (ou pra quem quer evitar colocar um “novo Hitler” no mundo). Sabemos que tudo isso interfere de algum jeito, mas não temos conhecimento sobre o resultado final e muito menos controle sobre a situação. Não temos como controlar a loteria genética, salvo avancem os polêmicos testes de manipulação dos genes (aí já é uma outra história). Você não precisa pensar nessas coisas na hora de afogar o ganso! Não vai fazer diferença.
O que cabe aqui é uma reflexão: você é o resultado da combinação de um único espermatozóide específico com um único óvulo também específico, fertilizados em uma circunstância absurdamente específica e com trilhões de detalhes influenciando de alguma forma. Se fosse qualquer outro daqueles 300 milhões de espermatozóides do seu pai que tivesse entrado no óvulo da sua mãe, você não seria você. Seria uma pessoa levemente (ou absurdamente) diferente! Poderia ter olhos mais claros, um cabelo mais liso, mais "vocação" para outra área de atuação, mais chances de ter câncer... Poderia até ter nascido do sexo oposto e isso, obviamente, daria um rumo bem diferente à sua vida.
Já pensou se Hitler, por exemplo, tivesse perdido a “Sperm Race” e nascesse no corpo de uma menina (as chances eram de 50%)? Seu nome poderia ter sido Paula (que veio a ser o nome de sua irmã mais nova), certamente não teria ascendido à carreira militar e os desdobramentos da 2ª Guerra Mundial, obviamente, teriam sido outros. Ou, mesmo que o vitorioso da “Sperm Race” fosse de cromossomo Y e o bebê tivesse nascido no corpo de um homem, o jovem Adolf poderia ter uma personalidade bem distinta. Poderia ter sido um artista talentoso e ter se matriculado na Academia de Belas-Artes de Viena (coisa que o “nosso Adolf” tentou e não conseguiu). Ou poderia ter uma personalidade levemente diferente daquela do Adolf que todos odiamos ter conhecido, mas que tomaria decisões e seguiria caminhos diferentes (seja por valores ou competência), o que daria um outro rumo para a história. As chances de termos tido um “outro Adolf” totalmente idêntico (indistinguível) ao que entrou pra história é basicamente 1 em 300 milhões. Já as chances de termos tido um Adolf “parecido” são um pouco maiores, dadas as peculiaridades genéticas e o mesmo ambiente de criação mas, ainda assim, muito remotas. Seria como tirar o mesmo número duas vezes na roleta.
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| Centenas de milhões de espermatozóides para nascer um bosta desses. |
A Dona Klara e o Seu Alois (pais de Adolf) certamente não sabiam de nada disso e jamais poderiam imaginar que, quando deram "aquela bimbada" no verão de 1888, um dos 300 milhões dos espermatozóides ejaculados por Alois viria a se tornar, nove meses depois, o futuro Führer da Alemanha Nazista. Sabe-se lá como foi essa “bimbada” (se quiser imaginar a cena, fique à vontade) ou que tipo de fatores a influenciaram (um vinhozinho no jantar ou aquela acordada inspirada no meio da madrugada). O que sabemos é que ela transformou o mundo e custou a vida de milhões de pessoas.
O mesmo vale para todas as personalidades raras, excêntricas e “insubstituíveis” que transformaram a história: Sócrates, Cleópatra, Jesus, Galileu, Joana D’Arc, Einstein, Steve Jobs… Imagina se cada uma dessas pessoas tivesse sido derrotada na “Sperm Race”! Quais as chances de outro daqueles 300 milhões de espermatozóides derrotados ter obtido os mesmos resultados? Lembrando sempre que, segundo estudos, as características genéticas determinam 50% do comportamento e personalidade do indivíduo, contra outros 50% que são determinados pelo ambiente de criação e influenciadores externos como amigos, leituras, escola, ídolos, youtubers, bandas de rock e experiências de vida (não vou colocar horóscopo nessa equação).
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| 50% x 50%. Metade do que você é vem dos genes dos seus pais. |
Agora imagine mais além ainda: imagine quais fatores influenciaram essas corridas malucas que mudaram o nosso mundo. São todas corridas que acontecem durante bimbadas épicas e repletas de fatores externos decisivos. Cada um desses fatores tem uma importância indispensável e aparentemente irrelevante, como o teor de cafeína naquele espressinho tomado pelo casal depois da sobremesa horas antes da bimbada; a temperatura da água que deu origem ao espresso; as condições psicológicas da pessoa que esquentou a água naquela temperatura precisa; a formação como indivíduo e peculiaridades genéticas que culminaram naquela condição psicológica específica da pessoa que preparou o café e; claro, a bimbada dos pais que originaram a pessoa que preparou aquele espresso, seja lá quem tenha sido esse ilustre desconhecido (viajei agora, né?).
Isso só nos faz acreditar que cada detalhe ao nosso redor pode fazer toda uma enorme diferença nessa equação caótica que permeia o universo observável. Detalhes como a temperatura da água do seu banho, a cor do seu xixi, a quantidade de sal que põe na comida, a marca do seu desodorante, a posição em que deixa os talheres, a quantidade de pasta que usa para escovar os dentes e o tempo que levou pra ler esse texto. E toda vez que isso soar como exagero, lembre-se desse número: 300 milhões!
- Agradecimentos à Roberta Oliveira, bióloga e Doutoranda em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Ceará, e à nutricionista Mônica Broilo, que ajudaram nos esclarecimentos de algumas informações contidas no texto.
CONFIRA AQUI A CONTINUAÇÃO DIRETA DESSE POST!
REFERÊNCIAS: A Grande Corrida da Vida https://www.youtube.com/watch?v=iZGjgJIn3FE A loteria genética da reprodução: https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,a-loteria-genetica-da-reproducao,169592
Fertilization
https://www.youtube.com/watch?v=_5OvgQW6FG4&feature=youtu.be
MEMÓRIA GENÉTICA | Nerdologia: https://www.youtube.com/watch?v=L9f9oaYdBZE
MLODINOW, Leonard. O Andar do Bêbado - como o acaso determina nossas vidas. Zahar, 2009. O que dá nossa personalidade? | Nerdologia: https://www.youtube.com/watch?v=fiXPdWAmFyI Você, o espermatozóide vencedor | Superinteressante: https://super.abril.com.br/ciencia/voce-o-espermatozoide-vencedor/





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