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| Um livro bem mais ou menos. |
Nessa resenha, farei uma análise bem pessoal da leitura do livro “O Oráculo da Noite”, de Sidarta Ribeiro. Antes disso, vale mencionar que o interesse pela leitura surgiu quando prestei atenção no nome do autor pela primeira vez, que foi na sua entrevista para o apresentador Marcelo Tas no programa Provocações, da TV Cultura. Tas avisou, de antemão, que a entrevista com Sidarta seria uma das melhores da temporada, elevando consideravelmente as expectativas.
Ver um neurocientista como Sidarta falando com tanta propriedade sobre o assunto “sonhos” certamente despertou um interesse “adormecido” (com o perdão do trocadilho). Fez também com que eu acompanhasse outras entrevistas do autor em programas de televisão e no Youtube, sempre com destaque para esse tema.
A partir de então, passei a me aprofundar mais no assunto “sonhos” e, claro, isso aumentou o meu interesse pela obra que gerou essa resenha. A verdade é que a expectativa gerada era a de que “O Oráculo da Noite” seria uma espécie de “guia definitivo sobre os sonhos”, indo desde uma análise histórica sobre a relação de civilizações antigas com o sonho a um embasamento mais técnico e científico (afinal de contas, o autor é um neurocientista), com direito a um “dicionário” para interpretar e decifrar aqueles sonhos mais malucos que são tão bizarros quanto divertidos de relatar (você certamente deve ter os seus).
Mas devo confessar uma coisa: o livro foi bem aquém do esperado. Nota 6, eu diria. Levei mais de um mês para terminar de ler e, admito, na maioria das vezes, pegava no sono (sim, piada pronta). Devo dizer que só terminei de ler por questão de honra mesmo. E várias das respostas que eu procurava ficaram a ver navios.
Ainda assim, merece uma resenha para, pelo menos, consolidar em um breve resumo os ensinamentos e as sensações que eu tive lendo essa obra. Vamos a elas.
O arquétipo do sonho
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| Sonho Causado pelo Voo de uma Abelha ao Redor de uma Romã um Segundo Antes de Acordar, de Salvador Dali (1944). |
Antes de correlacionarmos o sonho com o ato de dormir, vamos deixar bem claro que o sono é um processo que faz parte da vida de todo ser humano (entre outras incontáveis espécies). Esse processo é indispensável para o funcionamento do organismo e deveria obedecer às exigências do mesmo. Ou seja, dormir menos do que o mínimo que seu corpo precisa para estar em pleno funcionamento pode até fazer você parecer alguém importante, mas é um veneno. Utilizar medicamentos para manipular o curso natural do seu sono é um veneno. Usar despertador para dizer quando você tem que acordar todo santo dia é um veneno.
O sono natural de uma pessoa divide-se em duas etapas: sono de ondas lentas e “sono R.E.M.” (que podemos chamar aqui de “sono profundo”). O nome “R.E.M.” significa “rapid eyes moviment”, ou seja, diz respeito sobre o movimento veloz dos olhos, que nada mais é do que a velocidade do nosso cérebro em processar as informações que recebemos quando estamos acordados (ou “na vigília”, que é o termo usado). Esse “sono profundo” normalmente se manifesta na “segunda metade da noite”, ou nas últimas 4 horas de sono, para quem tem o hábito saudável (e raro) de manter-se dormindo por 8 horas. Também costuma dividir o sonho em “cinco enredos”. Ou seja, uma pessoa “normal” produz uma maratona de cinco diferentes sonhos de 40 minutos cada durante a noite (o que é basicamente como assistir a cinco episódios de seriado em sequência).
Esse lance de “rapid eyes moviment” diz muita coisa sobre o nível de “realismo” de alguns sonhos, afinal, se o movimento dos nossos olhos enquanto dormimos é o mesmo de quando estamos acordados, o nível de relação com o que está acontecendo “no mundo do sonho” é bem semelhante àquele com o qual estamos habituados na vigília. É diferente do sono de ondas lentas, que ainda está num processo de transição entre a vigília e o período “onírico” (o termo usado para referir-se ao que acontece durante o sonho). E, por estar em uma etapa de transição, nem sempre está engatado na mesma marcha do sono R.E.M.
A humanidade evoluiu com os sonhos
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| Tirem os criacionistas da sala! |
Apesar de ser um livro escrito por um neurocientista, o “Oráculo” é repleto de embasamentos históricos e informações resgatadas de civilizações antigas. Para quem curte estudar História e culturas remotas, é uma boa sugestão. Tudo para explicar a íntima relação da humanidade com o hábito de sonhar. Faz todo sentido, afinal, sabemos que nossos antepassados de centenas de milhares de anos atrás eram tão humanos como nós (biologicamente falando) e, como tais, também dormiam e, claro, sonhavam.
É óbvio, porém, que a vida dos homens das cavernas era bem diferente da nossa em todos os aspectos alheios à biologia: cultura, hábitos, relação com a sociedade, alimentação, higiene, valores, propósito, objetivos de vida… Por consequência, os sonhos deles eram bem diferentes do tipo de sonho que uma pessoa alfabetizada, civilizada e vacinada tem nos dias de hoje. E é isso que torna tão curiosa essa “evolução” que o hábito de sonhar sofreu com o passar dos anos, com o advento das civilizações e com o avanço da tecnologia.
Como se constrói um sonho
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| "Você é o responsável pelos seus sonhos". COACH, Qualquer |
Sabemos que todo enredo onírico é abastecido e roteirizado por aquilo que vemos, ouvimos e consumimos através dos cinco sentidos durante a vigília. Inclusive inconscientemente. Ou seja, até mesmo aqueles sonhos de caráter profético ou cheio de elementos inéditos são, acredite, formados por elementos que estavam guardados em algum lugar do nosso cérebro, mesmo que tenham tido uma relevância absolutamente nula durante a vigília (aquele outdoor que você mal reparou enquanto dirigia concentrado na estrada). Nosso inconsciente é uma coisa tão absurda que garimpa de uma forma muito doida e improvável as zilhões de informações visuais, auditivas, olfativas, táteis e gustativas que recebemos no dia-a-dia. Não bastasse o armazenamento improvável que essas informações recebem dentro da nossa cachola, as mesmas são submetidas a conexões ainda mais absurdas com outras informações, tão improváveis quanto, durante o período onírico. E isso, claro, resulta naqueles sonhos inexplicáveis.
Um sonho sempre é resultado de informações do passado vividas durante a vigília. É a consolidação da máxima de que “nada se cria, tudo se transforma”. Por mais original e inédito que possa parecer o enredo onírico, ele é, sim, fruto da nossa criatividade. Mesmo que inconsciente. E isso vale também para os sonhos proféticos que anunciam algo que vai acontecer. Não chega a ser tão absurdo assim juntar retalhos de experiências vividas na vigília e que formam, durante o sonho, uma história que, tempos depois, acaba se concretizando na vida real. Para ver sentido nisso, entenda que o ser humano é, por natureza, um bicho que vive premeditando o futuro (desde conferir a previsão do tempo a planejar a aposentadoria). A regra básica de um bom futurista é levantar diferentes cenários futuros possíveis através de sinais fracos que captamos no presente, através da nossa capacidade de nos mantermos informados e de observarmos o mundo à nossa volta. Isso, por si só, já ilustra na nossa mente, consciente ou não, cenários futuros alternativos. Só o fato de pensar como seria um futuro “possível” (seja este provável ou não) já lança, automaticamente, em alguma gaveta da nossa vasta massa cinzenta, uma sugestão de roteiro. Essa sugestão pode ser aproveitada em algum momento ou até fundida com outras tantas sugestões, lapsos de memória, experiências recentes e antigas, traumas, temores, preocupações, desejos (inclusive “proibidos”), ansiedades, façanhas, bobagens, fantasias sexuais, motivos de vergonha e tudo mais que o nosso surpreendente cérebro é capaz de resgatar ou conectar.
Portanto, se você teve um sonho super criativo ou acordou com uma ideia super inovadora e revolucionária na cabeça, parabéns, vá em frente! Mas não se esqueça: essa ideia não surgiu “do zero” durante o sonho, pois todo o sonho é abastecido por experiências vividas na vigília. Agradeça pelo sonho incrível que você teve, claro, mas agradeça também aos momentos que você viveu acordado, sejam esses marcantes ou não. Foi graças a eles que seu sonho teve o roteiro que teve.
Do caos ao sonho
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| A concepção de um sonho pode ser tão caótica e improvável quanto uma corrida de espermas. |
Essa análise aqui você dificilmente encontrará em outra resenha sobre esse livro, pois trata-se de um assunto que eu particularmente conecto com tudo que me chama a atenção: “efeito borboleta e teoria do caos”. Explico: nos parágrafos anteriores, eu expliquei como se constrói um sonho, certo? Eles são resultados de experiências vividas durante a vigília. Essa construção de roteiro é algo que foge totalmente do nosso controle, pois se nutre de elementos super representativos na nossa mente (como uma tensão pré-cirurgia, um trauma em fase de superação ou uma paixão compulsiva) da mesma forma que resgata outros elementos aparentemente irrelevantes (como um figurante de algum comercial pouco interessante, a trilha sonora de um filme que você nem percebeu que estava passando no Super Cine ou o perfume de algum desconhecido que dividiu o vagão do metrô contigo). Junta tudo isso num liquidificador chamado cérebro e manda ver! Tá aí o seu sonho!
Poucas coisas podem ser mais aleatórias e sujeitas ao improvável do que isso. Aliás, eu faria aqui uma comparação sobre a qual ainda pretendo averiguar os níveis de proporção e correlação, que é a corrida de espermatozóides que origina a vida (agora você vai ter que ler outro texto meu pra entender do que estou falando). O elemento em questão é a quantidade absurda de elementos desconexos e aleatórios capaz de produzir um resultado único e singular. Numa reprodução sexual temos centenas de milhões de espermatozóides disparados numa ejaculação e que correm em direção ao óvulo sob circunstâncias influenciadas por posição sexual, temperatura, pressão atmosférica, pH vaginal, alimentação do casal, higiene pessoal, pressão sanguínea, umidade do lençol e tantos outros fatores (incontáveis). Tudo faz uma mínima diferença capaz de interferir de forma decisiva no resultado final, que é a vida de uma pessoa. Única e singular.
Na roteirização de um sonho, a quantidade de detalhes aparentemente irrelevantes e desconexos é proporcional. Só que, em vez de falarmos de fatores que influenciam nos organismos e na relação de um casal transante, o que está em questão na produção de um roteiro onírico são as informações que absorvemos no dia-a-dia. E elas também são muitas, incontroláveis, normalmente imperceptíveis e supostamente irrelevantes. Uma vez resgatadas durante o sono e conectadas com outras experiências vividas, relevantes ou não, formam um roteiro que pode ser algo completamente estúpido ou espetacular. Único e singular.
E, assim como vidas humanas, os sonhos também têm a capacidade de mudar o mundo.
Não menospreze o sonho
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| É Freud! |
Sim, os sonhos são ferozmente defendidos pelo autor do livro do início ao fim. Poderia até ser uma conclusão grosseira dizer que a grande mensagem da publicação é a de que “sonhar é importante”. Só que essa afirmação nem sempre foi óbvia e nem sempre foi exagerada (na real, acho que não é nem uma e nem outra). Muita gente, como o próprio autor, leva a sério a “ciência do sonho”, alegando que grande parte dos males da sociedade moderna se justifica pela desimportância e incapacidade das pessoas em sonharem mais, dormirem mais e observarem mais suas “obras autorais” roteirizadas sobre o travesseiro.
Por outro lado, a história nos conta que progressos oriundos do Capitalismo e da Revolução Industrial se encarregaram de fazer os estudos sobre sonhos parecerem bobagem ou perda de tempo. Um dos poucos que se aventurou a ser levado a sério por abordar esse assunto foi o controverso Sigmund Freud, talvez o mais célebre estudioso da mente humana já nomeado nos livros de história. O próprio Sidarta se revela um defensor de Freud, reconhecendo sua importância no processo de evolução da compreensão da mente humana e argumentando que o sonho tem, entre tantas qualificações, a função de “terapia inconsciente”.
Indo mais além nos resgates históricos, chama atenção o fato que as três principais religiões que dominam e doutrinam o mundo nos dias de hoje (cristianismo, islamismo e budismo) foram decisivamente influenciadas por sonhos de mortais que tiveram papel vital na construção de mitos, crenças, fábulas, divindades ou profecias que foram ganhando importância e devotos com o passar dos anos, até virarem religiões. Até mudarem completamente a história da humanidade.
Portanto, sim, sonhos que se passaram na cabeça de alguns dorminhocos lá nas antigas podem (ou devem) ter, claro, influenciado o mundo de hoje. E é nesse raciocínio que eu te convido a refletir sobre aquilo que eu disse há pouco: sonhos não surgem do zero! Eles são o resultado de uma série improvável e aleatória de experiências vividas na vigília. Todo detalhe experienciado na vida real pode ter tido um papel decisivo na roteirização desses sonhos que mudaram o curso da humanidade. Esses detalhes, entenda, são imprescindíveis na história do planeta. E quando eu falo em detalhes, são detalhes mesmo: um decote que mal chamou atenção; o som de um pássaro desafinado; uma nuvem em forma de sapo; aquele cheirinho de chuva misturado com cheiro de cocô de cavalo; uma dor bem de leve no calcanhar; o gosto de um café que ficou um pouco mais doce do que precisava; uma vontade de espirrar que já passou… Tudo isso gera, de alguma forma, informação computada a armazenada pelo nosso cérebro (são, precisamente, dados). Durante a vigília, temos o poder de controlá-lo e saber o que fazer ou não fazer com essas informações. Durante o sono, não temos controle nenhum. Ou temos?
Sou eu quem manda nessa merda!
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| Ao controlar o sonho, você pode ser e fazer o que bem entender. |
É possível controlar os sonhos, sim. Não é charlatanismo e nem papo de coach. Existem até técnicas bem aplicáveis para tal. Mas, sinceramente, nem tentei me aprofundar nisso. A vantagem de poder controlar o seu próprio sonho é que você pode ter um mundo de fantasia supostamente realista no qual você é o dono da situação. Você pode voar; se teletransportar; soltar Hadouken; ressuscitar entes queridos; transar com quem você quiser; matar as pessoas que você não gosta sem sofrer nem um tipo de consequência; se masturbar em vias públicas sob aplausos da multidão; jogar futevôlei com o Renato Gaúcho; fazer moonwalker na Lua (e sem traje de astronauta); imitar o Sílvio Santos na frente do Sílvio Santos; vencer a corrida de São Silvestre pulando numa perna só; descer a rampa do Planalto de cambalhota e bêbado; decretar o fim do Carnaval; ligar pro McDonalds e pedir um Bob’s (e ser atendido)... Sim, tudo o que sua mente puder imaginar.
Mas, repito: esse tipo de manipulação não me fascina. E, voltando à comparação da concepção onírica com a concepção de uma vida humana, diria que roteirizar conscientemente um sonho autoral é proporcional à uma edição genética, na qual você ignora o resultado aleatório de uma corrida de espermatozóides ou uma ovulação para dizer exatamente como você quer que seja o seu filho. Tem suas vantagens, pode até ser justificável e tecnicamente possível, mas acaba com toda essa magia maravilhosa que é o “milagre da aleatoriedade”.
Aliás, quem nunca acordou surpreso com um sonho completamente improvável, daqueles que você tem vontade de contar pra todo mundo na certeza de irresistíveis gargalhadas?
Para preguiçosos
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| Pra quem prefere ir direto no atalho. |
Já disse que esse livro não me fisgou. Mesmo rendendo uma resenha enorme e cheia de assuntos derivados que poderiam desencadear outras resenhas, não me fisgou. Então, se você tá a fim de se aprofundar mais no assunto, entender melhor sobre o curioso e interessante universo dos “sonhos” e, assim como eu, tem uma certa preguiça para livros enormes (vai, me julga!), recomendo que assista ao primeiro episódio da série “Explicando A Mente” (no Netflix). Em 20 minutos, você vai economizar horas de leitura.
Claro que não é exatamente a mesma coisa. São produções diferentes, mídias diferentes, linguagens diferentes, abordagens diferentes e narrativas diferentes. Mas eu trocaria fácil a leitura pelo documentário se soubesse que o livro seria tão cansativo quanto se mostrou. Então, fica a dica! ;)
Explicando A Mente
https://www.netflix.com/title/81098586








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