sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Como seria o futebol na EBR?



  
Jacque Fresco acredita que, numa eventual Economia Baseada em Recursos, os esportes competitivos darão lugar aos esportes mais cooperativos e recreativos, reflexo de um sistema que incentiva menos a competição entre indivíduos e/ou equipes. No entanto, acho pouco provável que esportes populares como o futebol percam sua relevância. Muito pelo contrário, acho que o fato das pessoas não se preocuparem com dinheiro, trabalho e sustento seria um bom motivo para que peladeiros, que hoje fazem isso por hobby, dedicassem mais tempo do seu dia praticando o esporte, seja o futebol ou qualquer outro que os faça se sentirem bem.
O futebol se tornaria algo mais recreativo e menos “capitalista” (óbvio). Sabemos que, no mundo de hoje, esse esporte é uma máquina de fazer dinheiro e, como via de regra, um amplo e fértil playground para os corruptos encherem seus bolsos de grana, lavarem dinheiro sujo e tudo aquilo que cansamos de ver nos noticiários. A entidade máxima do futebol mundial não me deixa mentir.
Sem dinheiro pra roubar, sem gananciosos pra corromperem coisa alguma e sem todo esse mar de lama que envenena o futebol, teríamos um cenário bem diferente, certo? Então eliminemos a FIFA e seus pilantras engravatados da equação, pra começo de conversa. Felizmente, o futebol sobreviveria sem eles. No começo, seria tudo muito confuso e desorganizando, cada um por si, mas aos poucos surgiriam “associações” entre alguns clubes de mesmo interesse (não confunda com o Clube dos 13) pra estabelecer um mínimo de ordem.
Os presidentes dos clubes seriam como “representantes de ONGs” ou de “torcidas organizadas”: pessoas muito identificadas com seu clube e que farão o possível pra ganhar os principais títulos e “contratar” os melhores jogadores. Exclui-se aqui a necessidade de um paletó, lobby político, rabo preso com patrocinadores ou salário astronômico.


MERCADO DA BOLA


Quem contrataria quem sem o dinheiro na jogada?


Quem gosta de jogar e assistir futebol continuaria fazendo a mesma coisa. A diferença é que os jogadores teriam outros tipos de critério na hora de escolher o clube a ser defendido. Neymar, por exemplo, nunca trocaria o seu amado Santos pelo Barcelona. Carlitos Tevez passaria a vida toda jogando no Boca Júniors, inclusive no auge da sua carreira. Ronaldinho Gaúcho nunca deixaria o Grêmio (quer dizer...). Ao invés do dinheiro, o que faria um jogador ir para o clube X, ao invés do clube Y, seria a sua identificação com o mesmo.
Mas se fosse por isso, clubes como Flamengo e Corinthians teriam que colocar milhões de jogadores em campo, certo? Não, acredito que continuaríamos com onze jogadores pra cada lado e mais uns doze no banco. Jogar no Flamengo seria para pouquíssimos: os melhores! Seria como trabalhar no Google: todo mundo quer, mas as vagas são limitadas. Então, um jogador que ama o Flamengo e sonha jogar no rubro-negro carioca precisaria ser muito bom pra conseguir essa façanha. Do contrário, teria que se contentar em jogar num clube menor até fazer por merecer uma chance (ou desistir). Não é muito diferente do que vemos hoje, exceto pela parte da grana. A expressão “amor à camisa” finalmente passaria a fazer sentido.
Mas e quem determinaria que o fulano pode vestir ou não a camisa do Flamengo? O técnico do time, oras! E quem define o técnico do time? O presidente e seu respectivo conselho (talvez a torcida poderia opinar e participar da escolha, mas isso dependeria da política de inclusão do time). Nesse aspecto, seria mais parecido com uma seleção do que com um clube: ao invés de contratações, teríamos convocações (na verdade, convites, porque o jogador pode recusar a proposta, caso não vá com a cara do time). Alguns jogadores iriam desenvolver uma relação tão forte e profunda com seu clube e sua torcida que passariam a carreira toda atuando no mesmo time. Outros não seriam tão fiéis assim e agiriam como “putas”, passando por vários tipos de clube do mundo. Digamos que seja o “poliamor” do futebol.


ESTÁDIOS 

Quantas cabeças cabem no "Xoxotão" de Doha, no Qatar?


Com robôs trabalhando no lugar das pessoas, teríamos estádios “padrão FIFA” no mundo inteiro (e não somente em cidades-sede da Copa do Mundo). Estádios lindos, confortáveis, com altíssima tecnologia e sofisticação. Mas não daria pra colocar um milhão de espectadores no mesmo lugar, certo? E sem o dinheiro em questão, ficaria complicado de vender ingressos ou estabelecer um valor monetário para quem quisesse ver a partida. Seria um evento público e gratuito, mas de altíssima demanda.
Sendo assim, quem chegar primeiro, pega o melhor lugar. É como ficar na primeira fila de um show: ou você chega com bastante antecedência, ou dá uma de malandro e vai tomando a frente dos outros. De qualquer forma, é bem provável que tenhamos gente acampando na frente do estádio até a abertura dos portões, chegando na arquibancada com 12 horas de antecedência, vivendo intensamente aquele momento. Ei, mas não é isso que as torcidas organizadas fazem hoje?
Lógico que muita gente teria que se contentar em assistir à partida no conforto do lar. Ou num telão disponibilizado em praça pública, que é o que costuma acontecer nos eventos Fan Fest da FIFA durante a Copa do Mundo. A opção de ver um jogo no estádio provavelmente ficaria com os torcedores mais fanáticos. Se um pai quiser levar o filho pra ver o time jogar, aí teria que chegar mais cedo e entrar com antecedência. Esse provavelmente seria o “custo do ingresso”. 


PAÍSES X CLUBES

O "japonês" (???) André Santos. Mundo globalizado é isso aí.
 
Com ou sem EBR, o nacionalismo é uma coisa que tende a perder sua importância na próximas décadas. Conforme a tecnologia e a comunicação avançam, a globalização se consolida e as fronteiras caem por terra. Viajar pelo mundo já não é um sonho tão distante. Conhecer e conversar com pessoas de outros continentes também se tornou tão cômodo quanto ter amigos em cidades vizinhas. Nesse aspecto, o mundo se tornou uma coisa só. Logo, as fronteiras deixam de fazer sentido.
Na EBR, viajar pelo planeta inteiro seria gratuito. Teríamos pessoas que passariam a vida toda viajando. Conhecer os cinco continentes seria tão banal quanto conhecer todos os bairros de uma pequena cidade. Muita gente se tornaria nômade, preferindo morar uma semana em cada país ao invés de estabelecer residência fixa no mesmo lugar.
Com o nacionalismo em baixa e sem a necessidade de exaltar a pátria mãe, poucos seriam aqueles que iriam bater no peito pra ostentar esse tipo de orgulho. Mas sabemos que o ser humano é uma criatura que tem um forte “sentimento de pertencimento”. O meu palpite é que será muito mais comum ver as pessoas idolatrarem o clube do coração do que a seleção nacional. De certa forma, isso é um movimento que já está acontecendo. Só depois que o Brasil deixou de ser “o país do futebol” (e, principalmente, depois do 7 a 1) é que algumas pessoas passaram a desacreditar e perder o amor pela Seleção Brasileira.
Com clubes isso raramente acontece. O clube possui uma relação diferente com o torcedor, pois existem outros motivos que te levam a torcer por ele. A seleção não te dá motivo nenhum: “você nasceu aqui, então torça pelo seu país!” Tá certo que muitos torcedores acabam adotando um clube porque o pai determinou (ou um tio, um amigo, um padrinho...). Ainda assim, me parece uma relação mais amorosa e sincera do que “você nasceu aqui”. Gosto de comparar a relação “clube X seleção” com “amigo X parente”: “amigo a gente escolhe, parente vem no pacote”.
Além do mais, o clube tem aquela questão saudável da “flauta na segunda-feira”. Corinthianos convivem com palmeirenses e vice-versa. Acompanhar o desempenho de ambos os times é quase um complemento à rotina. Já um brasileiro que nunca saiu do país raramente vai ter aquele gostinho de tirar sarro da cara do outro: “nós temos cinco títulos mundiais, você não!” Num mundo mais globalizado, contudo, seria comum ver torcedores do Flamengo discutindo com torcedores do Barcelona, Corinthianos batendo boca com torcedores do Real Madrid, fãs do Boca Júniors com os do Manchester United...




PATROCÍNIOS

Ninguém merece ter que olhar pra esse tipo de aberração, né?

Nem preciso explicar essa parte, né? O patrocínio seria totalmente dispensável. Camisetas que mais parecem páginas de classificados iriam finalmente dar um descanso aos nossos olhos. Talvez, no máximo, teríamos alguma “causa” no lugar de uma marca: “Doe sangue!”, “Feliz Natal!”, “Paz nos estádios”, “Somos todos macacos”. Ainda assim, o bom senso prevaleceria.


REGRAS

"Pode isso, Arnaldo?"

Não acho que o Capitalismo ou a fome da FIFA pelo lucro interfira em alguma regra do futebol. Talvez, no máximo, teríamos uma modernização maior em termos de uso da tecnologia. Num mundo menos desigual, não haveria problemas de implementar chips, por exemplo, ou goleiras inteligentes em campeonatos disputados na África. É bem provável que a adesão por auxílios tecnológicos fosse maior, o que no mundo de hoje é algo bem discutível e que esbarra numa restrição bastante contestada por parte da FIFA. Talvez o bandeirinha finalmente seja substituído por um robô.


COPA DO MUNDO

Imagina na Copa!
 
Acho que uma competição entre clubes tomaria o lugar da Copa do Mundo entre nações. Assim, teríamos um sistema semelhante ao que vemos em competições nacionais: Primeira Divisão, Segunda Divisão, Terceira Divisão... Mas dessa vez seria a nível global!

E qual seria o número ideal para clubes na Primeira Divisão, a elite do futebol mundial? Penso que 20 seria uma boa quantia. É o mesmo número seleto de clubes que temos hoje no Campeonato Brasileiro, no Espanhol, no Italiano, no Inglês...
Para estruturar bem a competição, uma boa opção seria dividir os 20 clubes em quatro grupos de cinco. Essa divisão seria determinada por sorteio. Dentro dos grupos, os clubes jogariam entre si em jogos de ida-e-volta, ou seja, cada clube disputaria um total de oito jogos na primeira fase.
Apenas os dois primeiros colocados de cada grupo garantiriam vaga para as quartas-de-final. O último colocado de cada chave seria rebaixado para a Segunda Divisão. Nas quartas e nas semi-finais teríamos novamente confrontos de ida-e-volta. A final, porém, seria realizada em um jogo único, ao estilo Liga dos Campeões, com toda a pinta de “Super Bowl”. O local do confronto seria pré-determinado antes do início da competição.
Seguindo esse modelo, os clubes finalistas teriam que encarar um total de 13 partidas na competição. É o número de semanas de uma estação do ano (ou o número de episódios de uma temporada de seriado). Isso significa que o torneio poderia ser disputado numa única temporada anual. Dessa forma, cada clube disputaria no máximo um jogo por semana, engrandecendo a exclusividade de cada confronto.
O campeonato seria anual. Ao invés da Copa do Mundo da FIFA, que acontece a cada quatro anos, esta seria de quatro em quatro estações.
Simulei um sorteio de grupos no qual teríamos os vinte principais times do mundo disputando o torneio. Adotei como critério os dez times de maior torcida no mundo, seguindo daqueles que possuem maior número de fãs no Facebook. A formação dos grupos ficou assim:




Acredito que a primavera do hemisfério norte seria uma boa época para a disputa do torneio (nem tão quente e nem tão frio para os times de ambos os continentes). Ou seja, a competição iniciaria em meados de 21 de março, encerrando-se aos 21 dias do mês de junho. O restante do ano poderia ser dedicado a amistosos e competições menores.
Digamos que, no ano de 2045, o torneio comece em 24/3 (sexta-feira) e termine num domingo, 25/6.

O Flamengo, da maior torcida do mundo, teria muitos adeptos jogando por "amor à camisa".
 

Séries B, C e D

Diferente da “Série A”, a Segunda Divisão poderia ser menos “escassa” e ter 40 times, ao invés de 20. Os quatro melhores desses 40 garantiriam acesso à Primeira Divisão do ano seguinte. Já os oito piores (para manter 1/5 da totalidade) despencariam para a Série C.
Pra seguir o padrão, poderíamos fazer uma série C com um total de 60 equipes: sobem oito e caem doze. Já na Série D, você já deve estar imaginando, teríamos 80 clubes: sobem doze, caem dezesseis.
Repare que, somando as séries A, B, C e D já temos um total de 200 clubes!
Os dezesseis piores colocados da Série D seriam substituídos, no ano seguinte, pelos dezesseis melhores “desabrigados” (equipes fora do “Top 200”) colocados no Ranking. Esse Ranking envolveria todos os clubes do mundo e seguiria um critério coerente de pontuação (ou seja, bem diferente do atual Ranking da FIFA).

40 Clubes da Série B: Sevilla, Wolfsburg, Internacional, Atlético Madrid, Napoli, Villarreal, Fiorentina, Athletic de Bilbao, Porto, Valencia, Borussia Dortmund, Santos, Dynamo Kyiv, PSG, Jeonbuk Motors, Atlético Mineiro, Zenit, Seoul, Sporting CP, Borussia M'gladbach, Al Hilal, Monaco, Suwon Bluewings, Grêmio, Bayer Leverkusen, Santa Fé, Palmeiras, Dnipro Dnipropetrovsk, Cruzeiro, Seongnam, Lazio, Shakhtar Donetsk, Benfica, Liverpool, Al Ahly, Racing Club, Atlético PR, Roma, Schalke e Tigres-MEX.

60 Clubes da Série C: Tottenham Hotspur, Club Brugge, Sporting Braga, Guangzhou Evergrande, Sport Recife, Fluminense, Al Ahli, Ajax, Gamba Osaka, Chapecoense, San Lorenzo, Pohang Steelers, Torino, Estudiantes, Huracán, Krasnodar, Internazionale, CSKA Moskva, Al Nassr, Basel, Espanyol, Celta de Vigo, Independiente, Saint-Étienne, Everton, Incheon United, PSV, Olympiakos Piraeus, Garaní-PAR, Ulsan, Ponte Preta, Rosario Central, Southampton, Jeonnam Dragons, Smouha, Leicester City, Figueirense, Vasco da Gama, Lanús, Real Sociedad, Gent, Stoke City, Deportivo La Coruña, Anderlecht, Jeju United, Zorya, Partizan, Rayo Vallecano, Crystal Palace, Rapid Wien, Guingamp, Coritiba, Ismaily, Legia Warszawa, West Bromwich Albion, Nacional-POR, Málaga, Mainz 05.

80 Clubes da Série D: Hertha BSC, Banfield, Augsburg, Hamburgo, Belgrano, Avaí, Belenenses, Olympique Marseille, Köln, Atlético Nacional, Sparta Praga, Swansea City, Kashiwa Reysol, Werder Bremen, Olympique Lyonnais, Querétaro, Libertad, Santos Laguna, Rio Ave, Bordeaux, Al Ittihad (SAU), Pachuca, AZ, Goiás, Eibar, Lokomotiv Moskova, Sassuolo, Feyenoord, Rubin Kazan, Al Mokawloon, Getafe, Dinamo Moskova, Celtic, Slovan Liberec, West Ham United, Bastia, Beijing Guoan, Atlas, Al Ahli, Viktoria Plzen, Rosenborg, Lille, Al Ittihad (EGI), Lech, Poznan, Sampdoria, Chievo, Vorskla, Gwangju, Gimnasia La Plata, Sion, Hoffenheim, Levante, Herediano, Vitesse, Al Merreikh, Astra, Quilmes, Tigre, TP Mazembe, Panathinaikos, Tencín, Granada, Salzburg, Genoa, Midtjylland, Petrojet, Caen, Molde, Empoli, Marítimo, Eintracht Frankfurt, Aldosivi, PAOK, Rostov, Veracruz, El Daklyeh, Atalanta, Groningen.


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