NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do mundo. 1. ed. Rio de Janeiro: Leya, c2013.
O guia politicamente incorreto da história do mundo
Resolvi ler este livro depois que, no dia 5 de janeiro, comprei um exemplar físico da publicação para dar de presente ao meu amigo Silmo Schuler, aniversariante do dia. No dia seguinte, adquiri um exemplar em PDF (cortesia do meu colega Denis Puhl, a.k.a. Mestre) e resolvi ler a obra, afinal, tinha curiosidade em saber se eu tinha comprado um bom ou mau presente. Acabei lendo durante as minhas férias de verão, que passei na praia de Rondinha (24 a 30/1).
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| Leandro Narloch, autor do livro. |
O "GPI" da história do mundo é o último da série escrita por Leandro Narloch, autor que não deixa nenhuma dúvida com relação ao seu posicionamento direitista, conservador e favorável ao capitalismo. Mas, calma, antes que você interprete isso como grande ofensa, devo-lhe dizer que achei o livro muito bom e que, sim, eu concordo (aliás, já concordava antes mesmo de ler o livro) com grande parte das ideias do autor.
Inicialmente temos uma releitura de períodos históricos como o Império Romano e a Idade Média, na qual o autor absolve nomes eternamente associados a crápulas, como Nero. Também desmente alguns mitos como o embate Ciência X Religião.
Os "filósofos naturais"
Os "filósofos naturais"
Hoje eu tenho sensatez suficiente pra não culpar tanto a igreja pelo atraso da ciência. Se eu fosse eleger um inimigo verdadeiro hoje, diria que é a Política. A religião, a espiritualidade e a crença no misticismo já acompanhou nomes como Galileu (que era católico e amigo do Papa) e o maior de todos, Newton, que era adepto da alquimia. Se o legado de ambos não fosse tão inquestionável nos dias de hoje, ambos provavelmente entrariam pra história (se entrassem) como charlatães. Não havia, por exemplo, distinção entre "astronomia" e "astrologia".
Aliás, uma curiosidade interessante: o termo "cientista" só surgiu mesmo centenas de anos após a morte de Galileu (em 1840, mais precisamente). Antes, estes eram chamados de "filósofos naturais", o que não deixa de comprovar que existe uma evidente relação entre as duas áreas. Aliás, isso vai de acordo com o que Marcelo Gleiser defende quando diz que a filosofia é a mãe da ciência.
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| Galileu e Newton seriam eternos charlatões se não tivessem sido relevantes. |
Mas o livro começou a me empolgar mesmo quando começou a falar de Revolução Industrial e sua mais interessante consequência: a consolidação do Capitalismo. É aqui que o autor começa a encher os comunistas de chineladas.
“O capitalismo industrial foi o melhor que aconteceu aos pobres em toda a história do mundo.” NARLOCH, Leandro
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| Viva a Revolução Industrial e o início da automação! |
Nobre vapor
Ao falar da automação, o livro tocou num assunto que eu defendo com todas minhas convicções. O advento da Revolução Industrial melhorou muito a vida da maioria das pessoas e se mostrou uma das três principias transformações pró-abundância que o planeta já vivenciou. As outras duas foram a Revolução Neolítica, que fez a agricultura proliferar e alimentar o planeta por mais de um milênio, e a Revolução Tecnológica, que estamos vivendo agora.
Ao falar da automação, o livro tocou num assunto que eu defendo com todas minhas convicções. O advento da Revolução Industrial melhorou muito a vida da maioria das pessoas e se mostrou uma das três principias transformações pró-abundância que o planeta já vivenciou. As outras duas foram a Revolução Neolítica, que fez a agricultura proliferar e alimentar o planeta por mais de um milênio, e a Revolução Tecnológica, que estamos vivendo agora.
Não sente progressos com a Revolução Tecnológica? Bom, talvez você se identifique com as muitas pessoas que, em tempos de Revolução Industrial, amaldiçoavam a automação. Nessa turma estavam Marx e Engels, os teóricos fundadores do comunismo. Claro que, num primeiro momento, a Revolução Industrial parecia estar instaurando o inferno na Terra, desempregado trabalhadores em massa e transformando-os em mendigos que bebiam e urinavam nas metrópoles cada vez mais sujas e fedorentas.
Mas basta uma breve espiada nas estatísticas pra entender que a Revolução Industrial diminuiu efetivamente a mortalidade infantil (talvez a coisa mais triste do mundo), gerou abundância de muitos recursos escassos na época (alimentos, eletrodomésticos, vestimentas), aumentou consideravelmente a expectativa de vida das pessoas e tirou as crianças do trabalho insalubre.
“A Revolução Industrial acabou com o trabalho infantil.” NARLOCH, Leandro
Isso sim é uma revolução que pode ser considerada influente na vida das pessoas. Muito mais do que baderneiros levantando cartazes em alguma praça pública ou ementas de governo. Mas é claro que, ainda assim, haviam aqueles dizendo que a automação era um problema pro mundo e que a vida das pessoas só iria piorar a partir dali.
Consolidou-se assim o Capitalismo, que é, na visão do autor, o melhor sistema entre os três que conhecemos. Concordo parcialmente: não acho que o Capitalismo seja o que há de melhor pro mundo nos dias de hoje mas, comparado ao Socialismo e ao Comunismo, é absurdamente melhor. Mil vezes a ganância, competição e covardia capitalista ao fracassado e patético Comunismo. Pegue estatísticas e descubra onde morre mais gente e onde a qualidade de vida é melhor. Mas calma que a peleia tá só começando.
Na opinião do autor, o que mais contribuiu com a paz mundial até hoje foi o comércio. Ele alega isso dizendo que o empecilho para um país guerrear com outro é a questão diplomática instituída por relação comercial entre ambos. Um exemplo: o Brasil nunca vai jogar uma bomba na Argentina (e vice-versa) porque a economia de um país depende muita da outra. Disse até que o McDonalds é um dos maiores responsáveis pela paz no mundo porque você nunca vai ver uma guerra entre dois países que detém franquias do lanche do Ronald. (meio forçada essa parte, na minha opinião)
O fascismo na política atual
Quando o assunto da vez passa a ser o Fascismo, o autor apresenta uma pesquisa que ele realizou com 60 deputados federais em Brasília. Na pesquisa, haviam cinco frases relacionadas à forma de pensar do ditador Benito Mussolini. Sem citar a autoria das frases, o autor submeteu os deputados a dizerem qual seu nível de concordância com aquilo que estava escrito. Era aquela velha escala de 0 (discordo totalmente) a 4 (concordo totalmente). A soma total de concordância indicaria 20.
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| McDonalds, os embaixadores da paz?? |
O fascismo na política atual
Quando o assunto da vez passa a ser o Fascismo, o autor apresenta uma pesquisa que ele realizou com 60 deputados federais em Brasília. Na pesquisa, haviam cinco frases relacionadas à forma de pensar do ditador Benito Mussolini. Sem citar a autoria das frases, o autor submeteu os deputados a dizerem qual seu nível de concordância com aquilo que estava escrito. Era aquela velha escala de 0 (discordo totalmente) a 4 (concordo totalmente). A soma total de concordância indicaria 20.
Para a surpresa (ou não) do autor, a maioria dos deputados que concordavam com o pensamento de Mussolini foram os seguintes: Oziel Oliveira, do PDT-BA, com 14 pontos; Jair Bolsonaro (alguma surpresa?) do PP-RJ, com 12 pontos e; Vander Loubert, do PT-MS, com 10 pontos.
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| Bolsonaro ficou em 2º Lugar. Será que ele vai recorrer na Justiça? |
A surpresa maior foi com relação aos partidos mais afinados com a teoria fascista: PCdoB em 1º lugar (isso mesmo! PC do B!), com 8,33 de concordância; PT em 2º lugar, com 7 pontos e; PDT em 3º lugar, com 6,9 pontos.
Eis que o autor começa a comparar a filosofia de Hitler e Mussolini com as práticas socialistas. Embora os adeptos do Socialismo tenham o costume de chamar a turma da direita de “fascistas”, os fatos históricos comprovam que as ditaduras fascistas e também nazistas estão muito mais compatíveis com a esquerda.
Aquele velho discurso de “dias melhores virão”, de “tirar o povo das mãos dos empresários”, de “lutarmos por nossos direitos a todo custo” já foi usado pelos ditadores que causaram a 2ª Guerra Mundial e continuam sendo usado por intelectuais de esquerda.
ManiFEST' 68 - Paris
Quando o livro passa a falar sobre o épico Maio de 68, na França, a comparação com o junho de 2013, no Brasil, é inevitável. Jovens tomaram as ruas de Paris para protestarem contra... contra o que mesmo? Ninguém sabia dizer exatamente por quê, mas que a baderneira foi grande, isso foi. No fim das contas, depois de duas semanas de reivindicações e confusão (Sessão da Tarde?), o governo de Charles de Gaulle concordou em aumentar o salário mínimo e conceder a quarta semana de férias aos trabalhadores. Essas foram as maiores conquistas daquela baderna toda (bom, já bem melhor do que o não aumento dos R$ 0,20, né?).
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| Partiu protestar, galeraaaaa?? Uhuuuu!!! /o/ |
Não escondo de ninguém que eu simplesmente repudio esses movimentos baderneiros. Acho uma vergonha alheia ver um bando de playboys maconheiros reivindicando com seus cartazes, agindo como se estivessem a um passo de mudar o mundo. Achei uma palhaçada os protestos de junho de 2013, que ganharam o apropriado apelido de “ManiFest”, onde milhares de jovens iam pras ruas pra encher a cara e tirarem suas selfies no meio da micareta que defendia uma causa que ninguém sabia dizer direito qual era. Portanto, pra mim, esse capítulo do livro foi empolgante! Me identifiquei muito com o que o autor disse e também com suas comparações ao Maoísmo na China (sim, muitos franceses tinham em Mao Tse Tung uma espécie de Che Guevara de olhos puxados).
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| O maio de 1968, em Paris. |
O filósofo britânico Edmund Burke já dizia: “Mudanças correm o risco de acabarem em miséria e devastação se não forem pacíficas e graduais.” Concordo plenamente! Por isso eu defendo que essas badernas que a gente volta e meia vê por aí acabam mudando muita pouca coisa (pouquíssima se comparada à baderna e ao caos que provocam). Grandes revoluções são resultado de uma mudança de longuíssimo prazo. Por isso eu digo que só houveram três revoluções até hoje: a Neolítica (de 9.000 a 3.000 a.C.), a Industrial (Século XVII) e a Tecnológica (estamos no começo dela, acalme-se).
O melhor exemplo disso que Burke falou foi a Revolução Francesa, que decapitou Luis XVI e Maria Antonieta (além de dezenas de milhares de outras pessoas) em nome da proclamação da república, aboliu a monarquia e, mais tarde, acabou tendo como consequência a ascensão de... Napoleão Bonaparte! A monarquia estava reconstituída e o pior: depois de tanto sangue derramado, a revolução terminou com um líder muito mais despótico que Luís XVI.
Vai um tóchico aí?
Vai um tóchico aí?
Outro capítulo que me agradou bastante por ir de acordo com o que eu penso é o que defende os agrotóxicos. Já tinha começado a enxergar com olhos mais positivos o uso de agrotóxicos quando li o “Abundance”, do Peter Diamandis. Num dos exemplos que o autor dá no livro, ele cita que, na Índia, a produção de arroz aumentou, graças à “Revolução Verde”, quase 400%, enquanto a área destinada a esse cultivo aumento apenas 40%. Ou seja: mais comida com menos área desmatada. Tá certo que existem os problemas causados pelo lixo acumulado e o nitrogênio jogado ao solo, que vai parar em rios, o que causa a proliferação de algas que diminuem o oxigênio da água. Mas aí a gente teria que entrar numa discussão sobre reciclagem e um sistema inteligente de aproveitamento dos resíduos. Com relação a isso, adivinha quem virá pra nos defender... a Tecnologia, claro!
Há também um mito com relação ao câncer provocado pelo consumo de agrotóxicos. Todos tipo de câncer diagnosticáveis diminuíram ou ficaram mais ou menos instáveis dos anos 50 pra cá. A única exceção é o câncer de pulmão (viu, quem mandou começar a fumar?). “A maior redução ocorreu justamente nos casos relacionados ao aparelho digestivo, pois a geladeira e os conservantes fizeram as pessoas comer alimentos mais frescos.”, diz o autor.
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| A polêmica dos agrotóxicos, presente no "Abundance" está de volta nesse livro. |
A lorota comunista
Pra encerrar o livro, temos um capítulo muito divertido chamado: “32 razões para não levar o Comunismo a sério”. Eu já não levava o Comunismo a sério antes de ler o livro e sempre tive uma certa birra com a esquerda, mas essa lista de motivos é simplesmente uma pá de cal nos ideais marxistas. Existem casos que chegam a ser bizarros como o do Khmer Vermelho, que reinou no Camboja entre 1975 a 1979. O líder Pol Pot defendia que todos trabalhadores deveriam voltar ao trabalho rural, sem uso da tecnologia (Amish?) e em total condição de igualdade. Nada poderia parecer urbano, rico ou educado. A capital Phnom Penh chegou a perder mais de 90% de seus habitantes. Vários “crimes” levavam à pena de morte, como o uso de óculos. Segundo os ditadores, quem usava óculos é porque sabia ler e, quem sabia ler, costumava pertencer à classe dos burgueses urbanos. Portanto, morte aos que usam óculos!
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| Pena de morte pra quem usar óculos! |
Há também a citação de um excelente exemplo de Millôr Fernandes que sintetiza o Comunismo: "o comunista é aquele alfaiate que, depois de inúmeras tentativas frustradas de costurar um terno pra você, resolve argumentar que o problema está é no seu corpo."
“Apesar de todas essas histórias que ultrapassam de longe as estripulias da Coreia do Norte e as crueldades nazistas, o comunismo segue firme hoje em dia. Seus seguidores defendem a ideologia com brilho nos olhos. Formam grupos de estudo e de propaganda financiados por universidades públicas. Propagam as ideias de Marx com vigor, são aplaudidos em palestras como fiéis defensores dos pobres e da liberdade. Nos países mais tristes, os comunistas ainda ocupam prefeituras, secretarias e ministérios.” NARLOCH, Leandro
Esse é o ultimo e principal capítulo do livro, pois sintetiza todo o ódio e repúdio que o autor tem da doutrina comunista. Dei uma pesquisada no Google pra saber mais sobre o tal do Leandro Narloch e vi que ele já trabalhou como repórter da Revista Veja (bom, isso explica muita coisa).
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| Alguém sério ainda leva o Comunismo a sério? |
No geral, eu concordo com boa parte do que o autor escreveu no livro. Concordo que a Revolução Industrial (e, principalmente, a automação) tornaram o mundo bem melhor do que era antes. Concordo que o Comunismo é uma piada. Concordo que manifestações de baderneiros como as que citei anteriormente são uma idiotice em forma de micareta. Porém, não tenho condições de concordar que o Capitalismo, tão idolatrado pelo autor, seja o que há de melhor. Veja bem: ser melhor do que um desastre como o Comunismo não significa ser bom. Eu acho que o Capitalismo foi o que houve de melhor até o fim do século XX. O Capitalismo, assim como o dinheiro, nos trouxe inúmeros progressos, nos tornou mais organizados e, principalmente, fez a tecnologia evoluir bastante.
Mas se olharmos pra frente, é quase impossível acreditar que esse modelo vai continuar se sustentando dessa forma. E se um dia a tecnologia tiver condições de gerar abundância pra qualquer tipo de recurso (água, comida, agasalho, veículos, guitarras, computadores, pranchas de surf, cerveja, brinquedos...) de forma sustentável? Quem vai precisar do dinheiro num mundo de abundância? É aí que entra a Economia Baseada em Recursos. Uma pena que o autor provavelmente nunca tenha ouvido falar nesse termo.
Aliás, é uma pena que a EBR seja tão confundida com o Comunismo. Na verdade, qualquer um que conteste o Capitalismo é automaticamente taxado de comunista. Não é nada disso: o fato de eu odiar o Corinthians, por exemplo, não significa que eu sou palmeirense. Apesar de ser infinitamente melhor do que o Comunismo (na visão do autor e na minha também), o Capitalismo peca em hierarquizar demais a sociedade, provocando desigualdades absurdas: 67 pessoas têm tanto dinheiro quanto metade do planeta!!! Peca também no discurso da meritocracia, que só funciona teoria (a teoria que os capitalistas vivem dizendo que é a única desculpa dos comunistas). A sociedade baseada no consumo inconsequente gera muita poluição e não existe nenhum sistema que conspire a favor da natureza. Ou seja, enquanto os magnatas enchem os bolsos, a natureza só se fode.
Portanto, não me chame de capitalista, direitista ou fascista só porque eu repudio o Comunismo. Eu estou cada vez mais convicto de que o que há de melhor pro planeta é uma EBR e, depois de ter lido esse livro, ficou ainda mais claro que essa briga entre capitalistas e anti-capitalistas só leva em consideração os problemas do passado.
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| Obrigado por tudo, Capitalismo. Foi bom enquanto durou. Agora dá o fora daqui! |
O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo não deixa de ser um complemento ao melhor livro que li em 2013 (Abundance – The future is better than you think), pois enaltece os benefícios que o Capitalismo, a automação e a tecnologia nos trouxeram. Resta saber se vamos fazer bom uso desses benefícios, virar a página e evoluir com eles ou se vamos continuar estacionados nesse sistema, só porque é melhor do que outros.
PALAVRAS-CHAVE: Capitalismo; comunismo; história; mundo; política.












Mas no capítulo "Agrotóxico"ele não fala sobre agrotóxicos, tentando induzir que fertilizantes e agrotóxicos são sinônimos ou tem o mesmo resultado final o que não é verdade, no afã de contratirar e desconstruir ele fala do que lhe interessa e convém, assim como a grande maioria das pessoas, objetos e posturas que critica, tornando uma leitura que não favorece em nada a criticidade e o bom raciocínio do leitor mediano.
ResponderExcluirHummm... Boa observação! Não tinha analisado por esse prisma. De qualquer forma, obrigado pela contribuição! O livro é propositalmente polêmico mesmo.
ResponderExcluirAbraços!
Bruno