quarta-feira, 14 de maio de 2014

RESENHA: A Magia da Realidade



Como de costume, aqui estou resenhando sobre um livro que acabei de terminar de ler. Trata-se de uma prática muito útil e eficiente que aprendi a desenvolver durante a graduação. Fica, inclusive, um conselho para todo tipo de leitor: sempre faça uma resenha ou “ficha de leitura” dos livros que você lê. Arquive em algum lugar esses resumos e retome-os quando estiver a fim de recordar o aprendizado que essa determinada obra lhe deixou. Sempre!
A resenha a seguir trata-se do livro “A Magia da Realidade”, obra do escritor Richard Dawkins. Aproveito a ocasião para demonstrar meu profundo agradecimento ao amigo e colega Iuri, que me indicou esse livro durante o “Madrugadão da Biblioteca” da Unisc, em setembro de 2013. Foi graças ao conselho do Iuri que eu conheci este livro, que me pareceu bastante interessante. “A ciência é a minha religião”, disse o próprio Iuri ao abordar o assunto tratado nessa obra. Tem tudo a ver com o que meus colegas e eu costumamos discutir em “papos cabeças” e eventuais conversas que fatalmente culminam em Economia Baseada em Recursos ou Singularidade.
Assim que o livro ficou disponível no acervo, tratei de retirá-lo e o devorei em quatro dias. Uma leitura extremamente leve, agradável, facílima de compreender e com ilustrações que tornam o conteúdo ainda mais simpático e assimilável. Aliás, que belíssimo trabalho do ilustrador Dave McKaen! Uma obra prima em termos de conteúdo e qualidade visual. Certamente, o melhor livro que li até agora nesse ano. Brigadão, Iuri!

Richard Dawkins, autor do livro.


Life´s Show Time

Richard Dawkins optou por um método padrão de tratar praticamente todos os assuntos abordados em seu livro, divididos em doze capítulos: ele primeiro encarrega-se de apresentar alguns temas na versão contada pelas mitologias, religiões ou fábulas. Em seguida, ele desmascara todos esses mitos abstratos e desprovidos de fundamento com aquela versão que ele considera a “real”: a versão da ciência.
Temos diversos exemplos desmascarados pela ciência e que são contados em detalhes pelo livro: o que é um arco-íris; o que é um terremoto; porque existem tantos animais; como surgiu o ser humano; o que é o sol; como os continentes se formaram... todas as versões contadas durante séculos pela religião e pelas lendas têm seu espaço no livro, mas são devidamente desmascaradas por Dawkins. Eu diria até que é uma boa forma de calar a boca de muito fundamentalista religioso ou alienado que desmerece o poder da ciência e atribui tudo que existe à nossa volta a poderes divinos ou histórias inventadas há milênios atrás.

O livro é repleto de belíssimas ilustrações que colaboram com sua didática.

Dawkins bate de relho nesses mitos absurdos e põe os fundamentalistas religiosos no papel de ridículos. Ele diz que acreditar em lendas urbanas e histórias contadas pela religião é algo muito mais grave do que desmerecer a ciência: é acreditar que os grandes mistérios do mundo não podem ter explicação científica e nunca poderão. Quem acredita que o mundo foi criado em seis dias e que Eva surgiu da costela de Adão se nega a aceitar qualquer teoria científica ou desafio encarado pelos cientistas. Quem desmerece a teoria da evolução de Charles Darwin recusa-se a compactuar com qualquer descoberta científica que provém da teoria de seleção natural.
Eu já era um entusiasta da ciência antes de ler esse livro, já negava completamente a hipótese de haver um velhinho chamado Deus num céu coberto de nuvens fofinhas, já achava um absurdo certas lorotas empurradas goela abaixo pela igreja, já via fanáticos religiosos como alienados, já considerava a igreja uma instituição ultrapassada e desnecessária... mas com os exemplos e abordagens de Dawkins, esse conceito se tornou ainda mais evidente.

A teoria de Charles Darwin é fortemente defendida por Dawkins.

Me encantei com alguns exemplos fantásticos como o do nosso 185.000º avô: uma espécie de peixe já extinto e que habitava a Terra há cerca de 417 milhões de anos atrás. Dawkins compara a teoria da evolução das espécies com a teoria de evolução dos próprios seres humanos em vida. É tão difícil dizer quando uma espécie evoluiu pra outra como dizer “quando você deixou de ser criança e virou adolescente”, ou “quando passou de adolescente pra adulto”. Não são mudanças que ocorrem duma hora pra outra. No caso da evolução das espécies, são milhões de anos! Por essa razão, é impossível determinar quando uma espécie deu lugar a outra ou até mesmo “quando surgiu o primeiro homem”. São mudanças graduais que tornam essa pergunta impossível de ser respondida com precisão.
Eu tinha uma pequena dificuldade de compreender a teoria da evolução e de citar exemplos práticos. Agora não tenho mais! O curioso é que compreender essa teoria nos permite também entender muitas outras coisas. Entre elas, as próprias características físicas de nós, seres humanos, e até mesmo dos outros animais. Todas nossas características e atributos físicos são resultados de genes que acumulamos durante toda a evolução da espécie a qual hoje pertencemos.
Este livro é um prato cheio pra quem quer desmascaram religiosos insuportáveis ou até aqueles charlatões que se dizem dotados de poderes sobrenaturais. O sobrenatural, segundo Dawkins, é algo que não existe ou que ainda está por ser desmascarado pela ciência. Dentro dessa linha de raciocínio, não seria nenhum exagero concordar com a ideia de que “Charles Darwin matou Deus”.
Temos também outro cientista brilhante que tem papel destacado no livro: o gênio Isaac Newton. 

Isaac Newton, o maior gênio de todos os tempos.

Aliás, cabe aqui uma ressalva: depois de ter lido o livro do Marcelo Gleiser (A Dança do Universo) e agora esse do Dawkins, me sinto seguro o suficiente pra afirmar: Isaac Newton é o maior cientista de todos os tempos. Além de ter descoberto a esplêndida teoria da gravidade, Newton teve uma importante contribuição para a nossa compreensão do que são as cores e a forma como elas se propagam através da luz. Tudo isso graças ao experimento do prisma e da formação dos raios de luz que formam o arco-íris. Dawkins ilustra esse exemplo com interessantes ilustrações e um passo-a-passo fácil de ser assimilado até para um asno como eu.

Sim, somos um chorume no espaço.
A ideia de que “somos um chorume no espaço” (HELFER, 2012) ganha ainda mais consistência nesse livro. Dawkins utiliza bons exemplos pra nos fazer entender que a Terra é mesmo menos significante que um grão de areia para o vasto universo. Mais ainda: o exemplo que ele dá usando bolas de futebol, uma semente de pimenta e uma ponta de agulha para ilustrar a distância que uma estrela tem da outra é mais uma prova de que somos verdadeiramente insignificantes.
Dawkins afirma que, se tivesse que apostar, diria que existe vida fora da Terra sim. É a mesma opinião que muitos cientistas renomados possuem (como Marcelo Gleiser) e que eu também defendo (só que a minha, obviamente, não significa nada). Porém, Dawkins justifica seu ponto de vista com todas ressalvas. É importante ter bem claro que não é bem assim para um planeta possuir condições de abrigar vida como a Terra (esse tipo de vida que nós conhecemos) e usa todo seu sarcasmo pra dar uma chinelada naqueles que acreditam ter visto ETs ou terem feito contato direto com alienígenas. Dawkins os coloca no mesmo lugar que os religiosos bitolados.

O físico e astrônomo Marcelo Gleiser.

Algumas das lendas e mitos apresentados durante o livro chegam a ser até engraçados. Isso só reforça a ideia de que acreditar em teorias sobrenaturais é algo absurdo. E a principal conclusão que o autor tenta passar aos leitores é justamente a capacidade de enxergar a própria realidade (versão da ciência) como algo maravilhoso e admirável. A realidade é, por si só, fantástica e linda. Não precisamos de mitos ou fábulas pra contemplar a beleza do céu, do arco-íris ou das estrelas. Saber o que essas coisas são, de verdade, também atribui a elas uma beleza fascinante. Não precisamos ficar decepcionados ao descobrir que a lua não é a namorada do sol e sim um satélite que orbita em volta da Terra. Compreender as coisas como elas realmente são é, além de uma atitude mais inteligente, uma forma de contemplá-las em sua verdadeira essência.

Magi ka? Magi de? Magi da! Show Time!
 

Minhas considerações

Particularmente, gostei demais de ter lido esse livro. Recomendo-o para todas pessoas que se interessam por ciência, mas que têm aversão a cálculos, nomes complicados e fórmulas mirabolantes. É um livro ideal para curiosos, não para cientistas. Curiosos que não têm a pretensão de se tornarem físicos, químicos, biólogos ou matemáticos, mas sim abrir a mente e compreender as coisas como elas realmente são. É um guia geral do ponto de vista científico.
Para um leigo como eu, que anda estudando, lendo e discutindo muito sobre assuntos envolvendo EBR e Singularidade, o livrou caiu como uma luva. Pude ter uma noção mais clara do que representa essa coisa que enxergamos chamada “luz”. Pude compreender melhor a teoria da evolução das espécies e esses animais chamados seres humanos. Pude observar exemplos que resumem bem como nossos continentes se formaram e porque nosso planeta possui esse aspecto que conhecemos hoje. Enfim, os exemplos são muitos.
Dawkins cita uma curiosa frase conhecida como a Terceira Lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Isso nos remete àquela “profecia” de Ray Kurzweil: tudo que acontece Harry Potter será possível um dia. Mas Dawkins diz que a maioria das coisas prometidas pela ficção não vai acontecer. Algumas sim. Pois eu continuo com razões pra ser otimista e sigo apostando todas minhas fichas na ciência, que continua sendo, para mim, a única coisa que faz algo de bom pra nós nesse mundo. Bem diferente da religião, do governo ou do dinheiro.

Para Kurzweil, todas as mágicas de Harry Potter serão possibilitadas pela ciência.
 
Faço das palavras do Iuri as minhas: “a ciência é a minha religião.” Se um dia nós, seres humanos, tivermos a oportunidade de ressuscitarmos e sermos imortais, será graças a ela. E somente a ela. Torço muito para que um dia a bendita ciência consiga cumprir tudo aquilo que a religião já nos prometeu na tentativa de nos confortar somente. Se as verdades apresentadas pela ciência são mais fascinantes do que as lorotas inventadas pelas lendas e mitos, há boas razões pra acreditarmos que as promessas da ciência serão ainda melhores do que as da religião.

Go, Fight! Magi! Magi! Magiranger!
  
DAWKINS, Richard. A magia da realidade: como sabemos o que é verdade. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012;
GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big-Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
 



Nenhum comentário:

Postar um comentário