Como
de costume, aqui estou resenhando sobre um livro que acabei de terminar de ler.
Trata-se de uma prática muito útil e eficiente que aprendi a desenvolver
durante a graduação. Fica, inclusive, um conselho para todo tipo de leitor:
sempre faça uma resenha ou “ficha de leitura” dos livros que você lê. Arquive
em algum lugar esses resumos e retome-os quando estiver a fim de recordar o
aprendizado que essa determinada obra lhe deixou. Sempre!
A
resenha a seguir trata-se do livro “A Magia da Realidade”, obra do escritor
Richard Dawkins. Aproveito a ocasião para demonstrar meu profundo agradecimento
ao amigo e colega Iuri, que me indicou esse livro durante o “Madrugadão da
Biblioteca” da Unisc, em setembro de 2013. Foi graças ao conselho do Iuri que
eu conheci este livro, que me pareceu bastante interessante. “A ciência é a minha religião”, disse o próprio Iuri ao abordar o assunto tratado nessa
obra. Tem tudo a ver com o que meus colegas e eu costumamos discutir em “papos
cabeças” e eventuais conversas que fatalmente culminam em Economia Baseada em
Recursos ou Singularidade.
Assim
que o livro ficou disponível no acervo, tratei de retirá-lo e o devorei em
quatro dias. Uma leitura extremamente leve, agradável, facílima de compreender
e com ilustrações que tornam o conteúdo ainda mais simpático e assimilável.
Aliás, que belíssimo trabalho do ilustrador Dave McKaen! Uma obra prima em
termos de conteúdo e qualidade visual. Certamente, o melhor livro que li até
agora nesse ano. Brigadão, Iuri!
| Richard Dawkins, autor do livro. |
Life´s Show Time
Richard
Dawkins optou por um método padrão de tratar praticamente todos os assuntos
abordados em seu livro, divididos em doze capítulos: ele primeiro encarrega-se
de apresentar alguns temas na versão contada pelas mitologias, religiões ou
fábulas. Em seguida, ele desmascara todos esses mitos abstratos e desprovidos
de fundamento com aquela versão que ele considera a “real”: a versão da
ciência.
Temos
diversos exemplos desmascarados pela ciência e que são contados em detalhes
pelo livro: o que é um arco-íris; o que é um terremoto; porque existem tantos
animais; como surgiu o ser humano; o que é o sol; como os continentes se
formaram... todas as versões contadas durante séculos pela religião e pelas
lendas têm seu espaço no livro, mas são devidamente desmascaradas por Dawkins.
Eu diria até que é uma boa forma de calar a boca de muito fundamentalista
religioso ou alienado que desmerece o poder da ciência e atribui tudo que
existe à nossa volta a poderes divinos ou histórias inventadas há milênios
atrás.
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| O livro é repleto de belíssimas ilustrações que colaboram com sua didática. |
Dawkins
bate de relho nesses mitos absurdos e põe os fundamentalistas religiosos no
papel de ridículos. Ele diz que acreditar em lendas urbanas e histórias
contadas pela religião é algo muito mais grave do que desmerecer a ciência: é
acreditar que os grandes mistérios do mundo não podem ter explicação científica
e nunca poderão. Quem acredita que o mundo foi criado em seis dias e que Eva
surgiu da costela de Adão se nega a aceitar qualquer teoria científica ou
desafio encarado pelos cientistas. Quem desmerece a teoria da evolução de
Charles Darwin recusa-se a compactuar com qualquer descoberta científica que
provém da teoria de seleção natural.
Eu
já era um entusiasta da ciência antes de ler esse livro, já negava completamente
a hipótese de haver um velhinho chamado Deus num céu coberto de nuvens
fofinhas, já achava um absurdo certas lorotas empurradas goela abaixo pela
igreja, já via fanáticos religiosos como alienados, já considerava a igreja uma
instituição ultrapassada e desnecessária... mas com os exemplos e abordagens de
Dawkins, esse conceito se tornou ainda mais
evidente.
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| A teoria de Charles Darwin é fortemente defendida por Dawkins. |
Me
encantei com alguns exemplos fantásticos como o do nosso 185.000º avô: uma
espécie de peixe já extinto e que habitava a Terra há cerca de 417 milhões de
anos atrás. Dawkins compara a teoria da evolução das espécies com a teoria de
evolução dos próprios seres humanos em vida. É tão difícil dizer quando uma
espécie evoluiu pra outra como dizer “quando você deixou de ser criança e virou
adolescente”, ou “quando passou de adolescente pra adulto”. Não são mudanças
que ocorrem duma hora pra outra. No caso da evolução das espécies, são milhões
de anos! Por essa razão, é impossível determinar quando uma espécie deu lugar a
outra ou até mesmo “quando surgiu o primeiro homem”. São mudanças graduais que
tornam essa pergunta impossível de ser respondida com precisão.
Eu
tinha uma pequena dificuldade de compreender a teoria da evolução e de citar
exemplos práticos. Agora não tenho mais! O curioso é que compreender essa
teoria nos permite também entender muitas outras coisas. Entre elas, as
próprias características físicas de nós, seres humanos, e até mesmo dos outros
animais. Todas nossas características e atributos físicos são resultados de
genes que acumulamos durante toda a evolução da espécie a qual hoje
pertencemos.
Este
livro é um prato cheio pra quem quer desmascaram religiosos insuportáveis ou
até aqueles charlatões que se dizem dotados de poderes sobrenaturais. O
sobrenatural, segundo Dawkins, é algo que não existe ou que ainda está por ser
desmascarado pela ciência. Dentro dessa linha de raciocínio, não seria nenhum
exagero concordar com a ideia de que “Charles Darwin matou Deus”.
Temos
também outro cientista brilhante que tem papel destacado no livro: o gênio
Isaac Newton.
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| Isaac Newton, o maior gênio de todos os tempos. |
Aliás, cabe aqui uma ressalva: depois de ter lido o livro do Marcelo Gleiser (A Dança do Universo) e agora esse do Dawkins, me sinto seguro o suficiente pra afirmar: Isaac Newton é o maior cientista de todos os tempos. Além de ter descoberto a esplêndida teoria da gravidade, Newton teve uma importante contribuição para a nossa compreensão do que são as cores e a forma como elas se propagam através da luz. Tudo isso graças ao experimento do prisma e da formação dos raios de luz que formam o arco-íris. Dawkins ilustra esse exemplo com interessantes ilustrações e um passo-a-passo fácil de ser assimilado até para um asno como eu.
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| Sim, somos um chorume no espaço. |
A
ideia de que “somos um chorume no espaço” (HELFER, 2012) ganha ainda mais
consistência nesse livro. Dawkins utiliza bons exemplos pra nos fazer entender
que a Terra é mesmo menos significante que um grão de areia para o vasto
universo. Mais ainda: o exemplo que ele dá usando bolas de futebol, uma semente
de pimenta e uma ponta de agulha para ilustrar a distância que uma estrela tem
da outra é mais uma prova de que somos verdadeiramente insignificantes.
Dawkins
afirma que, se tivesse que apostar, diria que existe vida fora da Terra sim. É
a mesma opinião que muitos cientistas renomados possuem (como Marcelo Gleiser)
e que eu também defendo (só que a minha, obviamente, não significa nada).
Porém, Dawkins justifica seu ponto de vista com todas ressalvas. É importante
ter bem claro que não é bem assim para um planeta possuir condições de abrigar
vida como a Terra (esse tipo de vida que nós conhecemos) e usa todo seu
sarcasmo pra dar uma chinelada naqueles que acreditam ter visto ETs ou terem
feito contato direto com alienígenas. Dawkins os coloca no mesmo lugar que os
religiosos bitolados.
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| O físico e astrônomo Marcelo Gleiser. |
Algumas
das lendas e mitos apresentados durante o livro chegam a ser até engraçados.
Isso só reforça a ideia de que acreditar em teorias sobrenaturais é algo
absurdo. E a principal conclusão que o autor tenta passar aos leitores é
justamente a capacidade de enxergar a própria realidade (versão da ciência)
como algo maravilhoso e admirável. A realidade é, por si só, fantástica e
linda. Não precisamos de mitos ou fábulas pra contemplar a beleza do céu, do
arco-íris ou das estrelas. Saber o que essas coisas são, de verdade, também
atribui a elas uma beleza fascinante. Não precisamos ficar decepcionados ao
descobrir que a lua não é a namorada do sol e sim um satélite que orbita em
volta da Terra. Compreender as coisas como elas realmente são é, além de uma
atitude mais inteligente, uma forma de contemplá-las em sua verdadeira
essência.
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| Magi ka? Magi de? Magi da! Show Time! |
Minhas considerações
Particularmente,
gostei demais de ter lido esse livro. Recomendo-o para todas pessoas que se
interessam por ciência, mas que têm aversão a cálculos, nomes complicados e
fórmulas mirabolantes. É um livro ideal para curiosos, não para cientistas.
Curiosos que não têm a pretensão de se tornarem físicos, químicos, biólogos ou
matemáticos, mas sim abrir a mente e compreender as coisas como elas realmente
são. É um guia geral do ponto de vista científico.
Para
um leigo como eu, que anda estudando, lendo e discutindo muito sobre assuntos
envolvendo EBR e Singularidade, o livrou caiu como uma luva. Pude ter uma noção
mais clara do que representa essa coisa que enxergamos chamada “luz”. Pude
compreender melhor a teoria da evolução das espécies e esses animais chamados
seres humanos. Pude observar exemplos que resumem bem
como nossos continentes se formaram e porque nosso planeta possui esse aspecto
que conhecemos hoje. Enfim, os exemplos são muitos.
Dawkins
cita uma curiosa frase conhecida como a Terceira Lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer
tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Isso nos
remete àquela “profecia” de Ray Kurzweil: tudo que acontece Harry Potter será
possível um dia. Mas Dawkins diz que a maioria das coisas prometidas pela
ficção não vai acontecer. Algumas sim. Pois eu
continuo com razões pra ser otimista e sigo apostando todas minhas fichas na
ciência, que continua sendo, para mim, a única coisa que faz algo de bom pra
nós nesse mundo. Bem diferente da religião, do governo ou do dinheiro.
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| Para Kurzweil, todas as mágicas de Harry Potter serão possibilitadas pela ciência. |
Faço
das palavras do Iuri as minhas: “a ciência é a minha religião.” Se um
dia nós, seres humanos, tivermos a oportunidade de ressuscitarmos e sermos imortais,
será graças a ela. E somente a ela. Torço muito para que um dia a bendita
ciência consiga cumprir tudo aquilo que a religião já nos prometeu na tentativa
de nos confortar somente. Se as verdades apresentadas pela ciência são mais
fascinantes do que as lorotas inventadas pelas lendas e mitos, há boas razões
pra acreditarmos que as promessas da ciência serão ainda melhores do que as da
religião.
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| Go, Fight! Magi! Magi! Magiranger! |
DAWKINS,
Richard. A magia da realidade: como sabemos o que é verdade. 1. ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 2012;
GLEISER,
Marcelo. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big-Bang. São
Paulo: Companhia das Letras, 1997.









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