quinta-feira, 8 de maio de 2014

Tokusatsu X Singularidade

Eu não sou a pessoa mais indicada pra falar sobre Singularidade Tecnológica, mas sou um curioso que se interessa bastante pelo assunto. Já li e pesquisei muito sobre essa “hipótese” levantada por Ray Kurzweil, que acredita que migraremos para uma nova era a partir do ano de 2045, quando os seres humanos se fundirem com as máquinas e atingirem a tão sonhada imortalidade. Seria loucura, não fosse o investimento pesado de uma empresinha chamado Google, para a qual Kurzweil trabalha na função de diretor de engenharia. Não é o meu assunto preferido, mas sobre o qual me sinto muito à vontade pra trocar uma ideia.

O robô Hal, do filme 2001.

Falando a grosso modo, esse papo de Singularidade está diretamente relacionado aos clássicos da ficção científica. Como não lembrar do robô HAL 9000, do filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço”? Ou então do temível império das máquinas do “Exterminador do Futuro”? O filme “Blade Runner” também nos assombrou com um eminente futuro em que os ciborgues escravizarão os seres humanos. Já filmes como “Zardoz”, “Highlander” e “Eu Robô” são famosos por pintarem a imortalidade como uma coisa ruim, no fim das contas. Com relação ao alerta sobre o perigo de sermos domados pelas máquinas num futuro assombroso, esses filmes são bem parecidos e essa mensagem distópica já se tornou uma espécie de clichê.

Blade Runner, um clássico de 1982.

O Império das Máquinas em Exterminador do Futuro.

Em Zardoz, ninguém queria viver pra sempre.


Não é muito diferente do que se vê em algumas séries live actions de super–heróis japoneses, que podem ser chamadas de Tokusatsu. Esse sim, meu assunto preferido. O fato de acompanhar de forma aficcionada esse tipo de produção desde que me conheço por gente faz eu absorver muita coisa bacana que essas séries têm a nos ensinar. E não estou falando só das lições de amizade, valores e bons modos que as crianças costumam receber.

Cybercops - Os Policiais do Futuro.


Na série Dennou Keisatsu Cybercops (1988), por exemplo, temos constantes alertas sobre o perigo de sermos substituídos por máquinas no futuro. O vilão Barão Kageyama refere-se aos seres humanos como elementos vulneráveis e incapazes de se comparar às máquinas. No último episódio da série, ele se une ao supercomputador Führer para se tornar um ser invencível. Além disso, há um trio de renomados cientistas que trabalham pra ele no obscuro esconderijo da Destrap: Madame Durwin, Dr. Einshtein e Dr. Ploid. Há também a vilã Luna, que surge na segunda metade da série. Todos eles pensam que são humanos, mas na verdade são ciborgues cuja consciência foi manipulada pelo Barão Kageyama.

O perverso Barão Kageyama.


Tudo nos leva a crer que um futuro dominado pelas máquinas é algo ruim e perigoso, certo? Mas temos que parar pra pensar também que o Barão Kageyama é um vilão, um crápula, um bandido! Apesar dele dizer que seus fins justificam os meios e que sua causa é nobre, ele se mostra um vilão frio e cruel durante toda a série.
Barão Kageyama precisou mentir para os quatro cientistas que trabalhavam com ele, fazendo-os acreditar que eram humanos. Mentir para manipular alguém nunca pode ser considerada uma causa justa. E é isso que me incomoda um pouco: sempre colocam os cientistas ambiciosos como vilões a serem detidos. Como se toda revolução científica fosse uma ameaça. Como se a melhor coisa pra acontecer no final fosse deixar as coisas como estão: manter as amizades, os sorrisos e a boa vida que levamos.
Um exemplo mais recente é Kamen Rider Gaim, série que se passa na fictícia Zawame City. A Yggdrasil Corporation, empresa localizada na cidade, é a líder mundial em biotecnologia e fármacos. A corporação foi inicialmente criada com fins de pesquisas secretas, que estudam uma eminente contaminação da superfície terrestre pela desconhecida e misteriosa “dimensão” que eles chamam de Hellheim. Acontece que o projeto cresceu tanto ao ponto de se formar uma incrível e gigantesca multinacional, presidida por Takatora Kureshima, o Kamen Rider Zangetsu.

Gaim, o Kamen Rider da vez.

Zawame City vive sob a sombra da Yggdrasil Corp.


Ao que tudo indica, Kureshima é um personagem bem intencionado, que pretende lutar pela sobrevivência dos terráqueos e, para isso, conta com uma competente equipe de cientistas liderada por Ryouma Sengoku. Este, por sua vez, reconhece que salvar toda a população humana é uma tarefa impossível. A Yggdrasil tem condições de preservar apenas um sétimo da população terrestre (1 bilhão de habitantes). E é aí que o jovem Kouta, personagem principal da série, perde as estribeiras. Ele simplesmente não aceita a ideia de que seis bilhões terão que sucumbir para somente uma fração da população mundial ter condições de sobrevier.

Takatora Kureshima, o Kamen Rider Zangetsu.


Isso leva a um outro questionamento: seria a Singularidade um privilégio para poucos? E qual seria o critério de separação para distanciar os que merecem serem “singulares” e os que não merecem? Não quero acreditar que seja o maldito dinheiro, que é o principal fator que diferencia ricos de pobres, privilegiados de marginalizados, vencedores de fracassados e até cultos de ignorantes (pelo menos enquanto o conhecimento for racionado pelo dinheiro). Isso sim pode ser perigoso. Já chegou a refletir sobre isso?
Aliás, quem costumava colocar altas doses de reflexões em suas obras era o formidável Shotaro Ishinomori (1938 - 1998), criador do primeiro Kamen Rider, Himitsu Sentai Goranger, Kikaider, Kaiketsu Zubat, Inazuman, Patrine, Bicrosser, entre tantas obras. Em seu mangá de maior sucesso, Cyborg 009, Ishinomori alerta sobre o paradoxo que é a transformação do ser humano em ciborgue. Seus personagens sempre entram em conflito pessoal e mergulham em profunda crise de identidade, o que pode ser um problema para aqueles que não aceitam a imortalidade ou a “desumanização”.

Grande mestre Shotaro Ishinomori.

Cyborg 009, uma das princpais obras de Shotaro Ishinomori.

Dentre os Metal Heroes, o que tivemos mais próximo disso foi o herói Metalder, um homem-máquina que passa a ter emoções e sentimentos de ser humano. Isso, consequentemente, provoca uma série de conflitos pessoais para o personagem. Fato curioso é que Metalder possui fortes semelhanças com outro super-herói japonês: Kikaider, outro homem-máquina com suas crises existenciais. Não por acaso, Metalder é considerado, de forma unânime, a série mais adulta do gênero Metal Heroe.

Em Go-Busters, a tecnologia é quem dita as regras.

 
Os “perigos” da Singularidade também aparecem no recente Super Sentai de 2012, Tokumei Sentai Go-Busters. Num mundo tão dependente da tecnologia e que funciona com base na informática, impossível não temer uma invasão de hackers e de vírus que ameaçam provocar um grande colapso cibernético. Em Go-Busters, a organização maligna Vagras pretende roubar toda fonte de energia chamada Enetron, que abastece toda a cidade. E se em plenos anos dourados da Singularidade surgisse um vírus ou um hacker mal intencionado disposto a controlar todo o sistema digitalizado? Assustador, não?
Só pra não dizer que citei apenas exemplos que se opõem à Singularidade, vou mencionar aqui a produção mais “fiel” à teoria do Kurzweil que já assisti até agora. Trata-se do filme/websérie SYNC. Uma produção amadora e com atores que precisam melhorar muito pra serem ruins, mas que se encaixa bem direitinho nessa ideia de migrarmos nossa consciência de um corpo pra outro. O projeto é muito bem feito e foi até financiado pelo Google (o que explica muita coisa, né?).

SYNC, produzido por Corridor Digital.


Em Sync, o personagem principal é o oficial Charlie, que é um protótipo daquilo que imaginamos ser o “ser imortal” no futuro. Ele possui “avatares” em estado de hibernação que podem ser acionados através da sua consciência. Ou seja, ele pode trocar de corpo(s). Para os fãs de Ultraman, podemos dizer que é basicamente o mesmo processo que ocorre quando o hospedeiro dá lugar ao gigante guerreiro da Nebulosa M-78. A consciência do terráqueo fica em estado de hibernação enquanto seu corpo serve como suporte para o herói.

O primeiro Ultraman, de 1966.

No primeiro episódio de Ultraman, um terráqueo chamado Hayata “tecnicamente” morre no exercício de sua função. Contudo, seu corpo acaba sendo escolhido pelo guerreiro Ultra para servir de hospedeiro e sua consciência, bem como suas memórias e sua personalidade, ganham uma segunda chance. Fica aí uma dica pra quando você quiser viajar pra outro planeta no futuro sem precisar se deslocar através de uma nave espacial: basta arranjar um hospedeiro por lá. ;)
Lógico que quando Eiji Tsuburaya (1901 - 1970) criou o primeiro Ultraman, lá em 1966, esse papo de migrar a consciência de um corpo para o outro era mera ficção, sem compromisso nenhum com a realidade. Imagino que nenhuma pessoal dita normal, naquela época, imaginou que esse assunto seria tratado com ares de seriedade décadas depois.


Eiji Tsuburaya, uma lenda do cinema japonês.
 
Hayata pouco antes de ser abdusido pelo Ultraman.

A futurologia não deixa de ser um prato cheio para os autores de ficção científica. Sabemos que vivemos em meio a uma evolução exponencial em termos de avanços tecnológicos e isso permite que nossa imaginação ganhe asas. Quem nunca se arriscou a imaginar ou prever que daqui a dez, cem ou mil anos vamos ter carros voadores, ou celulares transparentes, ou poderes de telepatia, ou viagens intergalácticas, ou as Cápsulas Hoy-Poy de Dragon Ball (peraí, as impressoras 3D estão chegando lá)?


Com uma Cápsula Hoy-Poy, você pode ter casa, carro, moto e tudo mais na
palma da sua mão.


Mas devemos ter uma coisa bem clara: filmes e produções de ficção científica são escritos por artistas, não cientistas. São pessoas que, em geral, dominam muito bem a técnica de desenvolver personagens, criar enredos marcantes e até proporcionar lições de vida, mas não possuem o mesmo nível técnico de um cientista. E quando me refiro aos cientistas, estou falando naqueles que protagonizam e proporcionam avanços consideráveis para a humanidade, como Leonardo Da Vinci, Galileu Galilei, Isaac Newton, Charles Darwin, Thomas Edison, Albert Einstein...


Esses sim devem ser levados a sério quando se fala de perspectivas no campo da ciência, da tecnologia e dos avanços que teremos nos próximos anos. E entre eles está Ray Kurzweil, famoso por sua importante contribuição no reconhecimento ótico de caracteres, síntese de voz, reconhecimento de fala e teclados eletrônicos. Não é um lunático qualquer dando palpites sem embasamento nenhum. Kurzweil possui a chancela do Google e é um dos fundadores da Singularity University.
 
Ray Kurzweil: um louco, um visionário, ou os dois?

A prestigiadíssima Singularity University.

Se eu concordo com o que Kurzweil diz? Não! Acho que a previsão de que chegaremos na Singularidade em 2045 exageradamente precipitada. 2045 é daqui a 31 anos. É agora! Ainda há um longo caminho pela frente, por mais que possamos compreender a Lei de Moore e outras teorias que sustentam esse argumento. Mas acho que chegaremos lá um dia, sim. Não nesse século (e talvez nem no próximo), mas num futuro distante sim. Os avanços nas áreas da genética, nanotecnologia e robótica tendem a culminar nesse ponto. É algo praticamente inevitável. Eu disse “praticamente” (vai que um inesperado meteoro caia na Terra agora e exploda tudo enquanto você perde seu tempo lendo esse artigo).

Kurzweil acha que a Singularidade virá na primeira metade deste século.


O que fãs de Tokusatsu podem temer é que Kurzweil seja uma espécie de cientista maligno querendo dominar o mundo. Um Dr. Jean-Marie (é o vilão do Jiban, pra quem não lembra) que trabalha para uma organização global chamada Google (Yggdrasil?). Ou que o próprio Google seja uma entidade diabólica que pretende dominar o mundo com fins inescrupulosos. Uma espécie de Shocker.
Eu sinceramente duvido disso. Não que o Google não queira dominar o mundo (sob certo ponto de vista, eles já dominam), mas não creio que seja uma corporação maléfica. Posso ser muito ingênuo, mas acredito no “Don´t be evil”. Acredito que os seus fundadores, Larry Page e Sergey Brin, estão muito mais interessados em tornar o mundo num lugar melhor ao invés de nadar em rios de dinheiro. Pessoas que revolucionam pra sempre a história da humanidade são muito mais importantes do que aquelas que enriquecem e torram toda a grana ao seu bel prazer.

"Não seja mau", diz o Google.

Cientistas do mal são muito legais como vilões a serem vencidos no último episódio. Mas, na vida real, sabemos que o que precisamos mesmo é de cientistas capazes de promover grandes descobertas. É na mão deles que está o futuro. Se a ciência estiver sob a tutela de um ser humano bem intencionado e disposto a melhorar o planeta, feliz de nós no futuro. Agora, se essa mesma ciência tiver como protagonista alguém ganancioso sedento por poder, aí sim vamos ter que torcer pra aparecer algum representante da M-78, ou veículos de combate formando um robô gigante, ou um motoqueiro gritando “Henshin!”.


REFERÊNCIAS:

GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de criação ao Big-Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
JONES, Gerard. Brincando de Matar Monstros: Por Que as Criancas Precisam de Fantasia, Videogames e Violencia de Faz-De-Conta. São Paulo: Conrad, 2004.
KAKU, Michio. Visões do futuro: como a ciência revolucionará o século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2001;
KURZWEIL, Raymond. The Singularity is Near. When Humans Transcend Biology. Nova Iorque: Viking Press, 2005.
NAGADO, Alexandre. Almanaque da Cultura Pop Japonesa. Via Lettera, 2007.


SITES:

Dr. Bishop: drwillbishop.tumblr.com
Google vs. Death (matéria publicada na revista Time, em setembro de 2013): http://time.com/574/google-vs-death
O século XXI irá representar 20.000 anos de progresso humano:
inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=020110021007
Sobre a relevância do tokusatsu e seu lugar na cultura pop japonesa: http://nagado.blogspot.com.br/2012/01/sobre-tokusatsu-e-cultura-pop-japonesa.html


VÍDEOS:

O Futuro da Humanidade:




SYNC:



Transcendent Man:

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