quarta-feira, 14 de maio de 2014

RESENHA: Visões do Futuro – Como a ciência revolucionará o Século XXI


 
KAKU, Michio. Visões do futuro: como a ciência revolucionará o século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

Michio Kaku foi um dos grandes nomes que passaram a integrar a minha lista de “gurus”. Essa lista já tinha nomes como Jacque Fresco, Ray Kurzweil, Richard Dawkins, Marcelo Gleiser, Charles Darwin, Isaac Newton e Albert Einstein. Meu interesse pelo trabalho do físico de olhos puxados despertou quando assisti a alguns de seus documentários no Youtube, nos quais ele fala sobre Universos Paralelos e a teoria do Multiverso. Antes disso, porém, meu amigo Leandro Zayd já havia mencionado o seu nome em conversas sobre Singularidade, colocando-o no mesmo patamar que Ray Kurzweil. Não é pouca coisa.

Michio Kaku, um dos físicos mais famosos do mundo.

O currículo de Michio Kaku também é admirável: ele formou-se em Física na Universidade de Harvard em 1968. Em 1972, recebeu o PhD no Berkeley Radiation Laboratory, na Universidade de Berkeley. Em 1973, tornou-se membro da Universidade de Princeton e, atualmente, é professor da City University of New York. Mas o que mais me chamou atenção e me fez criar simpatia por ele é o fato dele se assumir como “fã de ficção científica”. Ele possui um programa de TV chamado Sci-Fi Science, no qual aborda assuntos muito interessantes no campo da física, sempre com um pezinho na ficção científica (fãs de Star Trek, Matrix e animes chegam a interagir junto, alguns até de cosplay).
Depois de assistir alguns de seus vídeos, resolvi jogar o nome dele no browser de busca da biblioteca da Unisc e, pra minha surpresa, haviam dois livros dele no catálogo (Fresco e Kurzweil não fazem parte do acervo, infelizmente). Entre os dois livros escritos por Michio, escolhi aquele que tinha o título mais atraente: “Visões do Futuro – Como a ciência revolucionará o Século XXI”. Retirei no final de novembro e levei quase um mês pra ler todas suas 460 páginas (sim, leio devagar).
Considero “Visões do Futuro” um dos melhores livros que li nos últimos anos. Chega a fazer frente a grandes obras como “A Magia da Realidade” (de Richard Dawkins), “A Dança do Universo” (de Marcelo Gleiser) e “Uma breve História do Mundo” (de Geoffrey Blainey). A leitura é agradável, tem palavras fáceis de entender e se distancia bastante daquela linguagem técnica e pesada de textos muito científicos. E olha que o tema “ciência” é o foco da discussão do começo ao fim do livro.
O embasamento científico de Michio Kaku em “Visões do Futuro” é tão sério que ele contou com a colaboração de 150 cientistas para ajuda-lo a escrever a obra. No meio desses 150 malucos, temos vários vencedores do Prêmio Nobel, diretores de grandes companhias, doutores e PhD.
O livro chega a tocar em dois temas que andam merecendo grande parte da minha atenção ultimamente: Singularidade e Economia Baseada em Recursos. Embora não seja necessariamente com essas palavras, Michio Kaku vai em cheio no “X da questão” ao discutir assuntos relacionados a essas duas áreas. Confesso que fiquei positivamente surpreso.

Michio Kaku é um entusiasta da tecnologia e geek confesso.

No penúltimo capítulo do livro (15 – Rumo a uma civilização planetária), Michio Kaku visualiza um mundo ideal no seu ponto de vista: um mundo sem estados nações, onde a ciência prevalece aos interesses políticos, onde a natureza é quem dita as regras, onde seres humanos, planeta e meio ambiente interagem como se fossem um só organismo. Um mundo sem discriminação de raças, etnias e classes sociais. Parecia o Jacque Fresco falando! Incrível como a mesma ideia chega a ser defendida de forma quase idêntica por duas pessoas que provavelmente nunca se falaram. Aliás, Michio Kaku nem deve saber quem é Jacque Fresco (o Kurzweil não sabe).
Michio Kaku e Ray Kurzweil possuem muito em comum. O livro “Visões do Futuro” já está um pouco defasado (é de 2001) e, por isso, sequer faz menção ao Kurzweil. Mas as projeções de futuro do físico nipo-americano  e as do profeta tecladista são parecidíssimas. Isso só reforça a minha ideia de que o papo é sério: pessoas diferentes e distantes chegando às mesmas conclusões, isso não pode ser só acaso.

Ray Kurzweil e Michio Kaku são bons amigos.

Kurzweil atribui a consolidação da Singularidade a três diferentes revoluções: a Revolução Genética, Revolução Robótica e Revolução Nanotecnológica. Já Michio Kaku tem sua própria versão das três revoluções: a Revolução Quântica, a Revolução da Informática e a Revolução Biomolecular. O livro, inclusive, é dividido nessas três partes. Se compararmos as duas teorias (de Kurzweil e Michio), veremos que têm muita coisa em comum.
Destaco uma das teorias mais interessantes levantadas por Michio Kaku: a das civilizações Tipo I, Tipo II e Tipo III. Tem tudo a ver com Singularidade. Essas três civilizações estão diretamente relacionadas com a forma como aproveitam a energia disponível. A civilização Tipo I é aquela que usufrui de toda energia vital de seu respectivo planeta. A Civilização Tipo II usufrui da energia vital de sua estrela-mãe (no nosso caso, seria o Sol) e a Civilização Tipo III é aquela que terceiriza (Paulinho?) energia de outras estrelas, além da própria. Para Michio-san, nós ainda estamos longe de nos tornarmos uma civilização Tipo I, pois sequer utilizamos toda a energia vital do nosso planeta (utilizamos formas bem toscas como combustíveis fósseis e energia suja). Somos, segundo o autor, uma civilização do Tipo 0 (ainda).
Talvez só no dia em que deixemos de usar energia suja, de colocar interesses políticos acima de tudo e de avacalhar com o meio ambiente (Projeto Vênus?) a gente evolua para uma Civilização Tipo 1. Quem sabe? Michio Kaku acha que isso é inevitável (muito otimismo da parte dele), salvo aconteça uma catástrofe até lá (uma guerra, um meteoro, um tsunami, uma bomba nuclear...).
Ele acha que nos tornaremos imortais também. Só não me ficou claro em qual dessas três civilizações isso vai acontecer. Ele cita autores que defendem a ideia de nos tornarmos “ciborgues imortais” no futuro (Marvin Minsky, por exemplo).

Marvin Minsky
 Assuntos como exploração espacial também não ficam de fora. Michio Kaku concorda comigo que essa questão de viajar pra fora da Terra se tornará, cedo ou tarde, nossa garantia de sobrevivência. A Terra não vai durar mais do que 7 bilhões de anos e, até lá, precisamos dar um jeito de criarmos nossa Arca de Noé e migrarmos pra outro planeta (quem sabe até outra galáxia).
O livro também é cheio de várias discussões acerca da moral e da ética que tangem assuntos como estes. Ele ressalva o perigo de sermos dominados pelas máquinas no futuro, de perdermos a nossa essência como seres humanos, de abrirmos mão do nosso livre arbítrio e de “brincarmos de Deus”. Mas apenas levanta as discussões, não chega a impor sua opinião ao leitor.
Não vou ser desonesto ao ponto de dizer que 100% do livro é fantástico. Algumas partes me pareceram cansativas. Haviam capítulos inteiros dedicados à cura do Câncer e à longevidade. A parte sobre a Revolução Biomolecular me pareceu a menos interessante, apesar de ter me ensinado muita coisa sobre manipulação do código genético, seleção artificial (e não natural), biodesign e imortalidade.
Gostei demais dos últimos capítulos do livro. O final é bastante emocionante e surpreendente. Parece até que eu estava lendo um romance com direito a final revelador e aparição de personagens inesperados. Meu interesse pela Singularidade, pela Economia Baseada em Recursos e pela teoria dos Multiversos só aumentou depois dessa.

A teoria dos Multiversos é levada cada vez mais a sério.

Quero assistir mais vídeos do Michio Kaku pra saber o que ele pensa e diz hoje, treze anos depois de ter escrito esse livro. Se em 2001 ele já era tão foda, imagina agora? De lá pra cá, surgiu o Google como o conhecemos, o Youtube, o Facebook, as impressoras 3D, o popular Ray Kurzweil, a confirmação do Bóson de Higgs, a Teoria de Expansão acelerada do Universo...
Valeu a pena demais ter lido esse livro antes de terminar 2013, que pra mim foi o “ano da Singularidade”. Mas vai valer mais ainda continuar me inteirando pelos assuntos abordados ali. Principalmente esse papo de universos paralelos (ou multiverso) que eu ainda não manjo muito. 2013 foi também o ano em que mais li na minha vida: oito livros no total! Mais que o dobro da minha média anual (brasileiro é foda).
Talvez as previsões de Michio Kaku, assim como as de Kurzweil, tenham o mesmo papel que os livros de autoajuda e best-sellers oportunistas como aquela lorota do “Segredo”, de Rhonda Byrne (me desculpe quem gosta). São teorias otimistas que falam o que as pessoas querem ouvir e que se escoram na ciência pra dar um embasamento mais verdadeiro a seus argumentos (em tempos em que as desculpas subjetivas da religião já não colam tão bem). Não descarto essa hipótese, afinal, quem não gostaria de acreditar que um dia seremos imortais e imunes à dor, à escassez e a todos problemas do mundo. É, sim, um futuro perfeito, uma utopia. As religiões fizeram e fazem isso desde sempre.

Michio Kaku é professor e co-criador da teoria de campos de corda, um ramo da teoria das cordas.

Michio Kaku, porém, joga limpo ao colocar água fria em algumas projeções futurísticas mirabolantes. Ele explica, com base no seu amplo conhecimento em Física, porque algumas projeções são meramente fantasias imaginadas pelos roteiristas de ficção científica: super-humanos com corpos geneticamente manipulados, por exemplo. Ou seja, apesar do otimismo e do apego às obras de ficção científica, ele mantem os pés no chão e usa seu vasto conhecimento pra provar que é um visionário realista, acima de tudo.

Meu objetivo com essa resenha é resumir o livro em menos de três páginas e dispensar as pessoas que gostariam de lê-lo, mas não têm tempo hábil pra isso. Discordo que um resumo substitua a importância do livro inteiro, mas entendo que 460 páginas não se lê numa pegada só. Faça o seguinte: converse comigo sobre o assunto, ok? Uma boa discussão sobre esse tema, sim, pode render mais do que a leitura.

Palavras-chave: Futuro; ciência; tecnologia; Singularidade; Multiverso.


Sumário do Livro:

PARTE I
Visões do Futuro
1.      Coreógrafos da matéria, da vida e da inteligência

PARTE II
A Revolução informática
2.      O computador invisível
3.      O planeta inteligente
4.      Máquinas que pensam
5.      Depois do silício: Ciborgues e o computador definitivo
6.      Pensando bem: Os seres humanos se tornarão obsoletos?

PARTE III
A revolução biomolecular
7.      Códigos de DNA pessoais
8.      A vitória sobre o câncer – consertando nossos genes
9.      A medicina molecular e a ligação mente/corpo
10.  Viver para sempre?
11.  Brincando de Deus: Crianças de prancheta e clones
12.  Algumas dúvidas: A genética de um admirável mundo novo?

PARTE IV
A revolução quântica
13.  O futuro quântico
14.  Em busca das estrelas
15.  Rumo a uma civilização planetária
16.  Senhores do espaço e do tempo


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