KAKU,
Michio. Visões do futuro: como a ciência revolucionará o século XXI. Rio
de Janeiro: Rocco, 2001.
Michio
Kaku foi um dos grandes nomes que passaram a integrar a minha lista de “gurus”.
Essa lista já tinha nomes como Jacque Fresco, Ray Kurzweil, Richard Dawkins,
Marcelo Gleiser, Charles Darwin, Isaac Newton e Albert Einstein. Meu interesse
pelo trabalho do físico de olhos puxados despertou quando assisti a alguns de
seus documentários no Youtube, nos quais ele fala sobre Universos Paralelos e a
teoria do Multiverso. Antes disso, porém, meu amigo Leandro Zayd já havia
mencionado o seu nome em conversas sobre Singularidade, colocando-o no mesmo
patamar que Ray Kurzweil. Não é pouca coisa.
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| Michio Kaku, um dos físicos mais famosos do mundo. |
O
currículo de Michio Kaku também é admirável: ele formou-se em Física na
Universidade de Harvard em 1968. Em 1972, recebeu o PhD no Berkeley Radiation
Laboratory, na Universidade de Berkeley. Em 1973, tornou-se membro da
Universidade de Princeton e, atualmente, é professor da City University of New
York. Mas o que mais me chamou atenção e me fez criar simpatia por ele é o fato
dele se assumir como “fã de ficção científica”. Ele possui um programa
de TV chamado Sci-Fi Science, no qual aborda assuntos muito interessantes no
campo da física, sempre com um pezinho na ficção científica (fãs de Star Trek,
Matrix e animes chegam a interagir junto, alguns até de cosplay).
Depois
de assistir alguns de seus vídeos, resolvi jogar o nome dele no browser
de busca da biblioteca da Unisc e, pra minha surpresa, haviam dois livros dele
no catálogo (Fresco e Kurzweil não fazem parte do acervo, infelizmente). Entre
os dois livros escritos por Michio, escolhi aquele que tinha o título mais
atraente: “Visões do Futuro – Como a ciência revolucionará o Século XXI”.
Retirei no final de novembro e levei quase um mês pra ler todas suas 460
páginas (sim, leio devagar).
Considero
“Visões do Futuro” um dos melhores livros que li nos últimos anos. Chega a
fazer frente a grandes obras como “A Magia da Realidade” (de Richard Dawkins),
“A Dança do Universo” (de Marcelo Gleiser) e “Uma breve História do Mundo” (de
Geoffrey Blainey). A leitura é agradável, tem palavras fáceis de entender e se
distancia bastante daquela linguagem técnica e pesada de textos muito
científicos. E olha que o tema “ciência” é o foco da discussão do começo ao fim
do livro.
O
embasamento científico de Michio Kaku em “Visões do Futuro” é tão sério que ele
contou com a colaboração de 150 cientistas para ajuda-lo a escrever a obra. No
meio desses 150 malucos, temos vários vencedores do Prêmio Nobel, diretores de
grandes companhias, doutores e PhD.
O
livro chega a tocar em dois temas que andam merecendo grande parte da minha
atenção ultimamente: Singularidade e Economia Baseada em Recursos. Embora não
seja necessariamente com essas palavras, Michio Kaku vai em cheio no “X da
questão” ao discutir assuntos relacionados a essas duas áreas. Confesso que
fiquei positivamente surpreso.
| Michio Kaku é um entusiasta da tecnologia e geek confesso. |
No
penúltimo capítulo do livro (15 – Rumo a uma civilização planetária), Michio
Kaku visualiza um mundo ideal no seu ponto de vista: um mundo sem estados
nações, onde a ciência prevalece aos interesses políticos, onde a natureza é
quem dita as regras, onde seres humanos, planeta e meio ambiente interagem como
se fossem um só organismo. Um mundo sem discriminação de raças, etnias e
classes sociais. Parecia o Jacque Fresco falando! Incrível como a mesma ideia
chega a ser defendida de forma quase idêntica por duas pessoas que
provavelmente nunca se falaram. Aliás, Michio Kaku nem deve saber quem é Jacque
Fresco (o Kurzweil não sabe).
Michio
Kaku e Ray Kurzweil possuem muito em comum. O livro “Visões do Futuro” já está
um pouco defasado (é de 2001) e, por isso, sequer faz menção ao Kurzweil. Mas
as projeções de futuro do físico nipo-americano e as do profeta
tecladista são parecidíssimas. Isso só reforça a minha ideia de que o papo é
sério: pessoas diferentes e distantes chegando às mesmas conclusões, isso não
pode ser só acaso.
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| Ray Kurzweil e Michio Kaku são bons amigos. |
Kurzweil
atribui a consolidação da Singularidade a três diferentes revoluções: a
Revolução Genética, Revolução Robótica e Revolução Nanotecnológica. Já Michio
Kaku tem sua própria versão das três revoluções: a Revolução Quântica, a
Revolução da Informática e a Revolução Biomolecular. O livro, inclusive, é
dividido nessas três partes. Se compararmos as duas teorias (de Kurzweil e
Michio), veremos que têm muita coisa em comum.
Destaco
uma das teorias mais interessantes levantadas por Michio Kaku: a das
civilizações Tipo I, Tipo II e Tipo III. Tem tudo a ver com Singularidade.
Essas três civilizações estão diretamente relacionadas com a forma como
aproveitam a energia disponível. A civilização Tipo I é aquela que usufrui de
toda energia vital de seu respectivo planeta. A Civilização Tipo II usufrui da
energia vital de sua estrela-mãe (no nosso caso, seria o Sol) e a Civilização
Tipo III é aquela que terceiriza (Paulinho?) energia de outras estrelas, além
da própria. Para Michio-san, nós ainda estamos longe de nos tornarmos uma
civilização Tipo I, pois sequer utilizamos toda a energia vital do nosso
planeta (utilizamos formas bem toscas como combustíveis fósseis e energia
suja). Somos, segundo o autor, uma civilização do Tipo 0 (ainda).
Talvez
só no dia em que deixemos de usar energia suja, de colocar interesses políticos
acima de tudo e de avacalhar com o meio ambiente (Projeto Vênus?) a gente
evolua para uma Civilização Tipo 1. Quem sabe? Michio Kaku acha que isso é
inevitável (muito otimismo da parte dele), salvo aconteça uma catástrofe até lá
(uma guerra, um meteoro, um tsunami, uma bomba nuclear...).
Ele
acha que nos tornaremos imortais também. Só não me ficou claro em qual dessas
três civilizações isso vai acontecer. Ele cita autores que defendem a ideia de
nos tornarmos “ciborgues imortais” no futuro (Marvin Minsky, por exemplo).
| Marvin Minsky |
Assuntos
como exploração espacial também não ficam de fora. Michio Kaku concorda comigo
que essa questão de viajar pra fora da Terra se tornará, cedo ou tarde, nossa
garantia de sobrevivência. A Terra não vai durar mais do que 7 bilhões de anos
e, até lá, precisamos dar um jeito de criarmos nossa Arca de Noé e migrarmos
pra outro planeta (quem sabe até outra galáxia).
O
livro também é cheio de várias discussões acerca da moral e da ética que tangem
assuntos como estes. Ele ressalva o perigo de sermos dominados pelas máquinas
no futuro, de perdermos a nossa essência como seres humanos, de abrirmos mão do
nosso livre arbítrio e de “brincarmos de Deus”. Mas apenas levanta as
discussões, não chega a impor sua opinião ao leitor.
Não
vou ser desonesto ao ponto de dizer que 100% do livro é fantástico. Algumas
partes me pareceram cansativas. Haviam capítulos inteiros dedicados à cura do
Câncer e à longevidade. A parte sobre a Revolução Biomolecular me pareceu a
menos interessante, apesar de ter me ensinado muita coisa sobre manipulação do
código genético, seleção artificial (e não natural), biodesign e imortalidade.
Gostei
demais dos últimos capítulos do livro. O final é bastante emocionante e
surpreendente. Parece até que eu estava lendo um romance com direito a final
revelador e aparição de personagens inesperados. Meu interesse pela
Singularidade, pela Economia Baseada em Recursos e pela teoria dos Multiversos
só aumentou depois dessa.
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| A teoria dos Multiversos é levada cada vez mais a sério. |
Quero
assistir mais vídeos do Michio Kaku pra saber o que ele pensa e diz hoje, treze
anos depois de ter escrito esse livro. Se em 2001 ele já era tão foda, imagina
agora? De lá pra cá, surgiu o Google como o conhecemos, o Youtube, o Facebook,
as impressoras 3D, o popular Ray Kurzweil, a confirmação do Bóson de Higgs, a
Teoria de Expansão acelerada do Universo...
Valeu
a pena demais ter lido esse livro antes de terminar 2013, que pra mim foi o
“ano da Singularidade”. Mas vai valer mais ainda continuar me inteirando pelos
assuntos abordados ali. Principalmente esse papo de universos paralelos (ou
multiverso) que eu ainda não manjo muito. 2013 foi também o ano em que mais li
na minha vida: oito livros no total! Mais que o dobro da minha média anual
(brasileiro é foda).
Talvez
as previsões de Michio Kaku, assim como as de Kurzweil, tenham o mesmo papel
que os livros de autoajuda e best-sellers oportunistas como aquela lorota do
“Segredo”, de Rhonda Byrne (me desculpe quem gosta). São teorias otimistas que
falam o que as pessoas querem ouvir e que se escoram na ciência pra dar um
embasamento mais verdadeiro a seus argumentos (em tempos em que as desculpas
subjetivas da religião já não colam tão bem). Não descarto essa hipótese,
afinal, quem não gostaria de acreditar que um dia seremos imortais e imunes à
dor, à escassez e a todos problemas do mundo. É, sim, um futuro perfeito, uma
utopia. As religiões fizeram e fazem isso desde sempre.
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| Michio Kaku é professor e co-criador da teoria de campos de corda, um ramo da teoria das cordas. |
Michio
Kaku, porém, joga limpo ao colocar água fria em algumas projeções futurísticas
mirabolantes. Ele explica, com base no seu amplo conhecimento em Física, porque
algumas projeções são meramente fantasias imaginadas pelos roteiristas de
ficção científica: super-humanos com corpos geneticamente manipulados, por
exemplo. Ou seja, apesar do otimismo e do apego às obras de ficção científica,
ele mantem os pés no chão e usa seu vasto conhecimento pra provar que é um
visionário realista, acima de tudo.
Meu
objetivo com essa resenha é resumir o livro em menos de três páginas e
dispensar as pessoas que gostariam de lê-lo, mas não têm tempo hábil pra isso.
Discordo que um resumo substitua a importância do livro inteiro, mas entendo
que 460 páginas não se lê numa pegada só. Faça o seguinte: converse comigo
sobre o assunto, ok? Uma boa discussão sobre esse tema, sim, pode render mais
do que a leitura.
Palavras-chave:
Futuro; ciência; tecnologia; Singularidade; Multiverso.
Sumário
do Livro:
PARTE
I
Visões
do Futuro
1. Coreógrafos
da matéria, da vida e da inteligência
PARTE
II
A
Revolução informática
2. O
computador invisível3. O planeta inteligente
4. Máquinas que pensam
5. Depois do silício: Ciborgues e o computador definitivo
6. Pensando bem: Os seres humanos se tornarão obsoletos?
PARTE
III
A
revolução biomolecular
7. Códigos
de DNA pessoais8. A vitória sobre o câncer – consertando nossos genes
9. A medicina molecular e a ligação mente/corpo
10. Viver para sempre?
11. Brincando de Deus: Crianças de prancheta e clones
12. Algumas dúvidas: A genética de um admirável mundo novo?
PARTE
IV
A
revolução quântica
13. O futuro quântico14. Em busca das estrelas
15. Rumo a uma civilização planetária
16. Senhores do espaço e do tempo





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