segunda-feira, 5 de maio de 2014

Minha visita ao Projeto Vênus

O Projeto Vênus é uma organização que tem como objetivo melhorar a sociedade pela construção de cidades sustentáveis e a utilização de energia de forma eficiente, bem como a gestão dos recursos naturais da Terra, usando automação avançada e focando nos benefícios à sociedade. Seu fundador chama-se Jacque Fresco, um senhor que hoje tem 99 anos e que, apesar da idade, ainda está plenamente lúcido.
Jacque Fresco é um autodidata, projetista industrial, engenheiro social, escritor, professor, futurista e inventor que trabalhou como projetista numa grande variedade de áreas, desde inovações biomédicas a sistemas sociais totalmente integrados. Ele acredita que suas ideias beneficiarão o maior número de pessoas e diz que algumas delas vêm dos anos de sua formação durante a Grande Depressão (ou Crise de 1929).


No dia 26 de abril de 2014 (um sábado), tive a oportunidade e o privilégio de conhecer pessoalmente o Projeto Vênus e o Sr. Jacque Fresco, que mora em 21 Valley Ln (Flórida - EUA).

Pra chegar lá, tive que percorrer cerca de 2h30 de estrada. Peguei um carro alugado em Orlando-FL e segui o caminho recomendado pelo Google Maps. Isso porque não existe transporte público que me levasse pra lá e o local fica numa região bastante remota, longe de tudo! Mas deu tudo certo e consegui chegar pontualmente no horário combinado: 13h.

Lá estavam os dois idealizadores do projeto: Jacque Fresco e sua parceira Roxanne Meadows. Havia ainda uma dúzia de outras pessoas que também estavam fazendo um tour naquela tarde. Todos visitantes recebem um kit que contem um exemplar do livro "The best that money can´t buy" (escrito por Fresco e Roxanne), um DVD e três CDs que falam sobre o Projeto Vênus.
Jacque Fresco, sentado em um sofá, falou por cerca de 1 hora sobre esse sistema podre e corrupto no qual vivemos, sobre os problemas causados pelo dinheiro, sobre sua história de vida, sobre seu trabalho como engenheiro social e sobre aquilo que ele chama de Economia Baseada em Recursos (Resource Based Economy, em inglês). Nada era novidade pra mim, pois já tinha assistido vários vídeos dele no Youtube e já tinha lido muito sobre suas ideias e o Projeto Vênus. Mas foi muito legal ver ele dizendo pessoalmente aquilo, pois eu estava diante de uma lenda viva.
Durante a conversa, foi oferecido aos visitantes um lanchinho que tinha cenoura, morangos, uvas, salgadinhos e cookies, além de limonada. Estava delicioso! Eu, que não tinha almoçado, comi feito um porco.


Depois, foi a vez de Roxanne nos convidar para dar um rolé pelo amplo local onde eles moravam. Um local muito bem cuidado e todo arborizado. Havia uma casa modelo nos moldes daquilo que Fresco imagina que será realidade numa Economia Baseada em Recursos. Conhecemos também as muitas maquetes e protótipos de construções e veículos projetados por Fresco. Era muita coisa! Uma ideia mais genial do que a outra.
Chega a ser angustiante perceber que muitas daquelas obras fantásticas só não foram colocadas em prática por causa da sua incompatibilidade com o nosso sistema capitalista defasado.




Perguntei a Roxanne se ela concordava que "abundância" era a palavra chave ao falarmos sobre Economia Baseada em Recursos. Ela disse que sim. Perguntei isso porque o termo "abundância" vai de encontro com aquilo que os entusiastas da Singularidade acreditam. No livro "Abundância  - O Futuro é melhor do que você imagina", de Peter Diamandis (fundador e reitor da Singularity University), o autor acredita que a tecnologia irá proporcionar alimento, água, agasalho e moradia para todas as pessoas do mundo, erradicando a pobreza no planeta e conduzindo a humanidade para um futuro mais próspero. Por isso, tive que perguntar a Roxanne o que ela pensava sobre a tal da Singularidade e a ideia defendida por Ray Kurzweil. Ela me respondeu dizendo: "Kurzweil acredita que viveremos em um mundo com dinheiro e isso pode ser um problema."




Roxanne e Fresco não acreditam em um mundo decente racionado pelo dinheiro. E eu também não. O dinheiro é um mero racionador de recursos, que só faz sentido num mundo no qual os recursos são escassos. Se houvesse abundância de todos recursos disponíveis no planeta (ar, água, alimento, moradia, diversão, agasalho, conhecimento, energia, saúde, segurança...) o dinheiro seria inútil. Mas quem garante que temos condições de ter abundância em todos esses recursos? É aí que entra o bendito método científico. É perfeitamente possível criar um sistema e mecanismos capazes de gerar recursos em alta escala pra todo planeta, de forma que fossem distribuídos de maneira inteligente, visando conter a escassez.



Roxanne falou sobre isso durante o tour. Alguns dos visitantes chegaram a questioná-la se as ideias de Fresco não pegavam uma carona no Comunismo e nos ideais de Karl Marx. Ela disse que o Comunismo, bem como o Socialismo e o Capitalismo, trabalham com a ideia do dinheiro, o que pra ela é inconcebível. As ideias do Projeto Vênus, diferente do achismo do Comunismo, são baseadas exclusivamente no método científico. E é por isso que não podem ser classificadas como utópicas. Seriam utópicas se fossem meras teorias ou ideologias de um teórico ou intelectual revolucionário. Fresco não é nada disso. Fresco é cientista.


Ao observarmos as maquetes das cidades desenhadas por Fresco, fiz um comentário informal para Roxanne. Disse que as cidades pareciam aquelas vistas em produções japonesas como Dragon Ball (tinha que mostrar a minha face nerd em algum momento). De fato, eu acho que algumas das cidades que Akira Toriyama apresentou em DBZ muito semelhantes às cidades do Projeto Vênus. Roxanne só me perguntou se essas produções eram recentes. Eu disse que a mais recente delas (Dragon Ball) era dos anos 1980. Roxanne só respondeu que iria "comentar isso com o Jacque".



Confesso que fiquei impressionado com a maneira gentil e atenciosa que ela me recebeu, bem como a paciência em responder todas as perguntas. Nos muitos vídeos que assisti pela internet, o pessoal do Projeto Vênus parecia bastante sério e introspectivo, mas pessoalmente eles se mostraram bem informais e hospitaleiros.
Havia um outro sujeito dando explicações no tour, um gordinho cabeludo que aparentava já ter mais de 40 anos. Ele explicou como funcionava o tal do “planetário” do Venus Project. Em sua explicação, ele comentou que o planeta funciona como um corpo humano: um único organismo no qual as diferentes partes funcionam em harmonia e em prol do funcionamento como um todo. Quando nos cortamos, o corpo se encarrega de produzir novas células que curam a lesão. É um sistema inteligente que funciona automaticamente. Assim deveria ser também o planeta. Ele falou também que os filmes de ficção científicas não merecem ser levados tão a sério pois são geralmente escritos por artistas, e não por cientistas.



De volta ao "cafofo do Fresco", assistimos a um breve documentário chamado “Future by Design”. Na sequência, Fresco falou mais um pouco sobre o Projeto Vênus e sobre a Economia Baseada em Recursos. Começou, então, a sessão de perguntas. Alguns dos visitantes pareciam resistentes em aceitar as ideias de Fresco, como qualquer pessoa recém apresentada ao Venus Project e à aparente absurda ideia de vivermos num mundo sem dinheiro. Contudo, Fresco mostrou que sabia responder com maestria e precisão todas as perguntas (algumas, inclusive, o levavam a se estender até demais).
Ele também impressionou a todos ao mostrar um papel que foi colocado em formato cilíndrico em cima da mesa. O cilindro de papel, posicionado de forma ereta sobre a mesa, conseguiu suportar o peso de 40 livros empilhados. Fantástico!
Perguntei pro Fresco sobre o que ele pensava a respeito da Singularidade. Ele disse que “máquinas não pensam, máquinas não sentem. Máquinas são programadas pelo ser humano para facilitar nossas vidas e não se fundir conosco ou nos substituir completamente.” Logo, deu a entender que não concorda totalmente com as ideias defendidas pelo Kurzweil, apesar de ambos serem entusiastas dos avanços tecnológicos.
É evidente que, pra fazer essa pergunta, tive que contar com a ajuda do Joel Holt, pois o Fresco, coitado, tem muita dificuldade pra escutar. Joel precisou berrar em voz alta pro velhinho ouvir: “DO YOU KNOW KURZWEIL?”. Fresco disse que não o conhecia pessoalmente.
O assunto "Singularidade" parece que interessou mais gente. Uma das pessoas que participava da conversa até pediu pro Fresco definir o que ele entende por Singularidade. Eu cheguei até a comentar que estava em cartaz, nos cinemas (pelo menos nos Estados Unidos) o filme Transcendence, estrelado por Johnny Depp e Morgan Freeman. Contudo, pouca gente tinha ouvido falar do filme que, por sinal, mostrou-se um fiasco de bilheteria.



Depois de uma interessante rodada de perguntas, aquele mesmo gordinho encerrou com a “questão fundamental” (ainda que em tom de brincadeira): “Por que estamos aqui?” Fresco entrou na questão filosófica e divagou brevemente sobre o seu propósito em vida. Uma questão interessante, principalmente quando abordada por um senhor de 98 anos que dificilmente viverá o seu sonho de migrarmos para uma Economia Baseada em Recursos. Contudo, não há como negar que seu legado é fascinante.
Já eram quase 18h quando a conversa chegou ao fim e começou o tão aguardado momento “tietagem”. Todo mundo queria tirar uma foto com Fresco e Roxanne, além de pegar um autógrafo no livro “The best that Money can´t buy”. Eu aproveitei a ocasião pra pegar mais um exemplar do livro pra dar de presente ao meu amigo Willian Ceolin, já que ele tentou visitar o Projeto Vênus em 2013, sem sucesso. Pedi pra Roxanne e Fresco gravarem uma mensagem pra ele. “Hi, Will! I hope I'll see you soon”, disse a Roxanne.
Depois de tirar uma foto com o Jacque Fresco, com a Roxanne e com o Joel, peguei um autógrafo com os autores do livro e os agradeci pela gentileza. Poder cumprimentar pessoalmente e dialogar com uma lenda viva como Jacque Fresco foi, certamente, uma das maiores façanhas da minha vida.
Já era 18h quando voltei pro carro e me despedi do Venus Valley. Quando voltei pro meu hotel, em Orlando, já havia anoitecido. Esse foi um daqueles dias que eu vou guardar pra sempre, pois eu tive a honra de conhecer pessoas que eu considero umas das mentes mais brilhantes do mundo.





Se você não conhece ou nunca ouviu falar do Projeto Vênus, certamente não tem ideia do que estou falando. Por isso, deixarei abaixo alguns links que explicam melhor do que se trata. Se você tiver capacidade para absorver todas as ideias, acredito que terás uma noção de como foi importante essa minha visita.

Abraços!


Site oficial do Venus Project: http://pt.thevenusproject.com
What is The Venus Project? youtube.com/watch?v=mX6Y0D8WACA
Documentário Paradise or Oblivion: youtube.com/watch?v=KphWsnhZ4Ag
Documentário The Choice is Ours (Part I e II): https://www.youtube.com/watch?v=PizMuqZUWbY
Jacque Fresco talking about The Venus Project: youtube.com/watch?v=TCCRb8KIQWc
Larry King entrevista Jacque Fresco: youtube.com/watch?v=Bs8iD2HIc5g
Roxanne Meadows talking about The Venus Project: youtube.com/watch?v=Bekherw1QJk
Trilogia Zeitgeist: youtube.com/watch?v=ieFEHHEJj00&list=PL84G1KHkUMOnvvO5Hr7p_zwbv8e_AAAef
Venus Project (Wikipedia): http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeto_Venus

2 comentários:

  1. Boa tarde ...saberia me dizer se já existe algo assim no Brasil...se não, ...quantos milhões preciso pra começar uma cidadezinha de 250 pessoas?..obrigado parabéns pela matéria...espetacular

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