quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Friends of Tomorrow - 3/8

Eu não vou conseguir falar da aula de quarta-feira (Blockchain & Bitcoin) sem traçar um paralelo constante e permanente com o assunto que eu tanto insisto em trazer à luz: Economia Baseada em Recursos.

MASTER CLASS COM FERNANDO ULRICH


A aula começou com uma revisão daquele tiroteio de conteúdo que tivemos no dia anterior. Tiago fez um breve comentário sobre cada um dos 21 ignites apresentados. Na sequência, entrou em cena Fernando Ulrich, o primeiro convidado para a série de Master Classes do FoT-SP. Fernando é uma autoridade no assunto “Bitcoin e Blockchain”, além de ser mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário no Brasil. É também conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária e entusiasta de moedas digitais. Seu livro “Bitcoin - a moeda na era digital” pode ser baixado gratuitamente NESSE LINK.


Fernando Ulrich, um grande palestrante (quase 2m de altura).

Confesso que o assunto “economia”, para mim, está diretamente relacionado a burocracia. E burocracia é algo que me dá náuseas. Então, eu admito que tava meio que cagando pra essa Master Class, apesar de já ter ouvido falar muito bem no Fernando Ulrich, que já esteve em Porto Alegre num evento da Aerolito no ano passado.




Como porta-voz do assunto, é claro que o Fernando ia vender o peixe e falar do Bitcoin como a oitava maravilha do mundo: “a maior revolução desde a internet”, segundo as palavras dele.
Talvez a definição mais lógica e precisa seja: “Sistema de pagamento global, sem fronteiras, sem banco e descentralizado”.


Apesar do subtítulo do livro do Fernando ser “a moeda na era digital”, ele mesmo adverte que essa definição é muito superficial: seria como descrever a internet como “lugar onde você acessa seus e-mails”.

É nóis na fita e o Bitcoin na rede.

Outras pessoas também aventuraram-se em definir o Bitcoin. Uma delas foi o Bill Gates, que disse que “o Bitcoin é melhor do que a moeda”. Uma definição que merece destaque também é a de Nassim Taleb (autor do livro “O Cisne Negro”): “O Bitcoin é o começo de algo extraordinário”. Eu concordo com isso, mas com um viés passível de divergências. E só pra não ficar com cara de propaganda eleitoral, ainda foi dado espaço para o talvez maior economista do mundo, Paul Krugman, que chineleia o Bitcoin.
O surgimento do Bitcoin é atribuído ao japonês Satoshi Nakamoto (中本哲史), em 2008. A ideia já nasceu com o propósito de ser algo open source e com o sistema de pagamento P2P ("rede distribuída" acho que tá mais na moda)


Agora sobre o Blockchain, que eu particularmente achei mais legal: é o banco de dados virtual de contabilidade pública que registra as transações do Bitcoin. Digo que é mais legal porque ele pode ser analisado fora da esfera econômica.
Por exemplo: o Fernando disse que registrou o nascimento da filha dele (nascida no último dia 17 de junho) na plataforma Blockchain. E foi bem menos burocrático e menos lento do que no cartório tradicional (também, se fosse o contrário, né…)
E antes que venha a dúvida: sim, pelo jeito é algo oficial e legalmente válido.


Aí divagamos, entre um exemplo e outro, sobre a infinidade de possibilidades que o Blockchain poderia trazer para a sociedade. Taí o porque da “rotulação supeficial”.


Uma das coisas mais interessantes do Blockchain é que a parada funciona nas nuvens e é conduzida pelo gerenciamento de dados. No caso do Bitcoin, esses dados são disponibilizados pelo computador dos usuários que chamamos de mineradores. Pra responder na prova: minerador é o cara que cede os dados geradas pelo seu computador em prol do funcionamento do “sistema monetário”.

Por trabalhar com o conceito mais fiel possível ao modelo de “rede distribuída”, o Blockchain faz tecnologias como o Uber parecerem ultrapassadas. Isso porque o Uber não opera rigorosamente no modelo distribuído, uma vez que tem o intermediário (que é o próprio Uber fazendo o meio-de-campo entre o passageiro e o motorista). Mas e então o que seria um “Uber sem o intermediário” (ou o “Uber sem Uber”)? Segundo o Fernando, isso já existe e chama-se Arcade City (mas calma que isso não chegou aqui ainda).

O Uber está na coluna do meio.

Depois da fala do Fernando, o Tiago fez o favor de traduzir alguns conceitos que ficaram um pouco confusos nas cabeças dos jumentos tipo eu. Nessa releitura do Tiago, deu pra sacar melhor o que é o tal do minerador, apesar de eu ainda ter uma dificuldade de assimilar completamente a bagaça.


A MORTE DO INTERMEDIÁRIO

Livre-se do intermediário e vá direto ao ponto.

A segunda etapa da nossa aula teve uma fala do Santiago que clareou bastante os meus horizontes. Ele apropriou-se desse conceito recém abordado sobre Blockchain para diagnosticar que os dias do intermediário estão contados. Intermediário é o Uber (como dito antes), é o Mercado Livre, é o AirBnb, é o Spotify... e eu iria mais adiante ainda: é os bancos, é o governo, é o dinheiro (isso serve pra você também, Bitcoin, guentaí), é os políticos... A tecnologia e o sistema P2P vão tornar o intermediário irrelevante.

Um dos exemplos mais animadores é o do Smart Contract, que tem tudo pra acabar com os cartórios que fedem a papel velho.

Mas o talvez de maior impacto social seja mesmo a Democracia Direta (no slide havia uma referência ao tal do Liberal Alliance, mas aí fui jogar no Google pra ver do que se trata e não senti muita semelhança com o que eu tinha em mente). O conceito de Democracia Direta é simples: tira o poder das mãos dos políticos e do congresso (que são intermediários, afinal de contas), transfere a tomada de decisão aos cuidados do povo (que pode votar ou sugerir leis pela internet, por exemplo). Dessa forma, você resolve um problema grave que é o gasto absurdo com esses intermediários de merda, dá mais poder de decisão às pessoas que realmente se preocupam em votar e propor leis e, de quebra, ainda acaba com o risco de lobby: as empresas sem-vergonha não teriam mais os políticos para comprar e o sistema se tornaria incorruptível.

Fala sério: ninguém precisa de políticos!

Obs.: só quero deixar claro que não sou 100% a favor da Democracia Direta. Acho que tem vários buguezinhos aqui e ali. Eu só usei o parágrafo acima pra definir o conceito dentro da lógica Blockchain.

Segundo o Santi, conforme o Blockchain for incorporado e assimilado pelas pessoas, é possível que o conceito de "troca" volte às suas origens (a.k.a. escambo) e elimine o fator intermediário, que é o dinheiro. Exemplo dado por ele mesmo: "eu uso o empréstimo do meu sofá como condição de troca por uma carona".

Repare que aqui estamos falando dum escambo de serviços (não produtos) e que operam dentro da lógica da abundância: dar carona e emprestar o sofá praticamente não possuem um "custo marginal". O mesmo serve para uma aula, uma consultoria, uma piada, um show, uma massagem... essas coisas não são finitas, nem etiquetadas e nem quantificáveis. São abundantes!

E quando o assunto é abundância, Tiago explica incrivelmente bem!

ABUNDÂNCIA é o antônimo de ESCASSEZ.

De acordo com a lógica da escassez, não tem recurso pra todo mundo (e antigamente não tinha mesmo). Quando isso acontece, os que têm encarregam-se de estocar porque né, "vai que falta".
A lógica da abundância é justamente o contrário: tem recurso pra todo mundo sim (a tecnologia trabalha pra isso) e, ao invés de estocar, você pode compartilhar e "desapegar".

O próprio Tiago levou esse conceito às vias de fato quando disponibilizou gratuitamente o download do seu livro V.L.E.F. (resenha aqui). O custo marginal de um livro baixado é zero (estou falando do download em si e não do processo intelectual de pesquisa e redação do livro). E já que o objetivo do livro é propagar uma ideia, de que adianta estipular e cobrar um valor por ele? Menos pessoas terão acesso e seu trabalho será apreciado apenas por uma fatia que se sujeitou a pagar por ele.

Foi lá e liberou geral.

PS.: seguindo o exemplo do Tiago, eu fiz o mesmo com meu livrinho de tirinhas e disponibilizei todas elas (e algumas até inéditas) no site www.ressuscitados.com.br (ou seja, você só compra o livro físico se estiver muito a fim de me ajudar a pagar minhas contas).

Ainda sobre a morte do intermediário e o conceito de Blockchain, Tiago exemplificou como ele vislumbra as relações profissionais de um futuro próximo. Será que as empresas como conhecemos hoje continuarão existindo? E como seria a contratação de um serviço que eu desejo?

Aqui a lógica P2P parece fazer muito sentido:
Quer contratar um DJ pra sua festa? Os algoritmos podem te sugerir o DJ mais próximo da sua localidade e mais bem recomendado de acordo com as suas exigências (e das experiências dos contratantes anteriores).
Você faz um yakisoba delicioso e está disposto a fazer dinheiro com ele? Os algoritmos podem te indicar para pessoas que estejam a fim de comer um bom yakisoba. E se você tiver uma boa reputação, melhores serão suas chances de expandir seu negócio.

Em ambos os casos, a relação de troca (o pagamento, no caso) ocorre diretamente entre o consumidor e o prestador de serviço. Sem intermediários.

E ainda: tanto o DJ como o cozinheiro do yakisoba podem exercer tantas outras funções. Podem até ser a mesma pessoa, por que não? Isso significa que um mesmo cara pode oferecer mais de um tipo de serviço desde que tenha gente interessada e que ele faça bem feito.

Eu, por exemplo, poderia me oferecer como quadrinista, apresentador, palestrante, diretor de arte, redator, roteirista... (qualquer coisa menos cozinheiro) e não precisaria de nenhum empregador me pagando um salário fixo (sendo que nenhuma demanda é fixa) sujeito às leis bizarras da CLT.

Mas e se o cara é um zero à esquerda e não tem condição de oferecer nada ou simplesmente ninguém vai querer o serviço dele?
Bom... aí entra um outro tema que nem tem como ser introduzido nesse post, até porque foge um pouco do tema da aula e, até onde eu sei, do próprio curso.

Eu sinceramente enxergo muito bem o modelo da Mesa & Cadeira (aquele projeto incrível que o Thum apresentou na aula anterior) dentro desse novo possível cenário: a contratação de um profissional ou de uma equipe surge a partir da demanda. Os problemas (quando problemas) são solucionados como algo que tem começo-meio-e-fim (como a produção de um filme).
O futurista Charles Grantham chama isso de "modelo Hollywood":

"O trabalho passou a ser baseado em projetos e só existe enquanto o projeto existir. As pessoas depois partem para outra. O que é que isto implica? Precisamos de uma espécie nova de organizadores desses projetos - os produtores - que possam descobrir e juntar recursos, como dinheiro, ideias, talentos. Por outro lado, os bons profissionais precisam de agentes que os representem e os ajudem a descobrir novos projetos."

O "modelo Hollywood" de Charles Grantham.

Ou seja, os projetos seriam como os filmes de Hollywood: o produtor contrata um diretor, uma equipe técnica, um elenco, um roteirista e tudo mais que for preciso. O filme é produzido, é lançado e todos recebem por isso. Depois, a equipe é dissolvida e a vida segue.


MINHAS CONSIDERAÇÕES

Agora a parte que eu disse que seria inevitável.
Eu considero essa parada de Bitcoin algo muito bacana e revolucionário dentro do sistema financeiro como a gente conhece. Masssss ainda não é o ideal (aliás, não existe modelo ideal). O mais próximo do ideal, pra mim, é simplesmente não haver dinheiro nenhum. Sem processo de troca. No Exchange!
Sei que isso pode parecer impossível e utópico à primeira vista mas, para quem conhece as ideias de uma Economia Baseada em Recursos, esse modelo é uma alternativa ao Capitalismo. Ou melhor, uma evolução praticamente darwiniana do Capitalismo (alternativas seriam o Socialismo e o Comunismo, que eu particularmente acho falhos). "Darwiniana" porque é fruto da Revolução Digital, da robótica, da automação, do desemprego tecnológico, do custo marginal zero, da abundância de recursos, da inclusão digital... todos filhos bastardos do Capitalismo.

EBR na mente!

Na Economia Baseada em Recursos, você não precisaria de dinheiro pra nada, porque os robôs trabalhariam de graça e dariam conta de basicamente TODAS as profissões e da geração de recursos (inclusive na fabricação de robôs que fabricam robôs que fazem mais robôs). Sobraria só aquelas profissões que a galera curte mesmo fazer: artista, atleta, piloto, professor, músico, turismólogo, assador... porque fariam até de graça se pudessem.




Además, eu vejo o Bitcoin como um processo de "transição". E acho até que ele desempenha um papel muito importante aí. Uma transição que pode enfraquecer o poder dos bancos (os "chefões finais" do sistema) e fazer as pessoas desaprenderem a usar o dinheiro (para depois reaprenderem de um outro jeito). O Bitcoin pode estar roubando a bola dos economistas e passando adiante pros nerds, pros hackers e pros engenheiros.
Pode ser um degrau entre o cartão bancário (que transformou a cédula de dinheiro em dados) e uma moeda ainda mais invisível, até que ela finalmente desapareça por completo.

E o modelo de Blockchain só reforça esse conceito, uma vez que trata rigorosamente da extinção do intermediário. Quer exemplo mais grosseiro de intermediário do que o dinheiro?

Ao término da aula eu não me aguentei e tive que emprestar pro Tiago o livro "The best that money can't buy", que eu adquiri na minha visita ao Venus Project em 2014. (Aliás, Tiago, é melhor gastar seu tempo folheando o livro do que lendo as abobrinhas que eu escrevo aqui).


AFTER CLASS

Sendo franco: a aula de hoje foi a menos legal de todas. Mas o dia de hoje foi, seguramente, o melhor do curso até agora!

E o mérito dessa vez não foi do curso e sim dos colegas que interagiram comigo. Dois deles em especial: Everton Kayser e Hugo.

Pouco antes de embarcarmos na "caravana do Hugo", a gente firmou num papo muito cyber-filosófico-transcendental. Parecia aquelas conversas de bêbado pagando de culto que se estendem madrugada adentro, sabe?

Tipo assim.

Começamos discutindo sobre modelos econômicos oriundos de uma revolução pós-Blockchain e como isso afetaria nossa noção de abundância e de escassez. Daí fomos mais adiante e falamos da semelhança entre a relação "humano X tecnologia" e a relação "humano X Deus", o que levou o Everton a apresentar sua "crença" de que "Deus é a Tecnologia". Já a minha é a mesma de Einstein e Michio Kaku: "Deus é a força da natureza". E o papo só foi ficando mais louco a partir daí, porque misturamos religião com filosofia, teoria das cordas com vida microbiana, multiverso com efeito borboleta, extinção dos dinossauros com o impacto do ser humano sobre o ecossistema... Já no carro falamos sobre universo simulado, sobre viver em forma de dados, sobre transcendência, sobre a 4ª e a 5ª dimensão, sobre ressurreição, sobre Ética & Moral, sobre Deus, sobre o sentido da vida... tudo junto e misturado!

Tão loko que deveria virar livro.

Eu desci do carro numa mistura de euforia e aquela sensação de ter tido um nocaute intelectual.

Fato: o melhor da aula foi depois da aula.

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