terça-feira, 2 de agosto de 2016

Friends of Tomorrow - 1º/8

Ontem (1º/8) rolou a minha primeira aula do Friends of Tomorrow 2016. Como eu já tinha feito a primeira semana do curso em Porto Alegre no ano passado, me juntei ao restante da turma somente agora, em agosto.
Devo confessar que, apesar de ter achado o curso de 2015 incrível (o mais foda que eu já fiz) e do assunto em pauta ser algo que eu adoro intensamente, minha expectativa estava bem baixa. Baixa porque cheguei atolado de spoilers (intencionalmente coletados) e uma sensação de que seria impossível sofrer um impacto semelhante ao do ano passado. Conversei com pessoas que fizeram a segunda semana do curso em abril (em PoA) e todas afirmaram que a edição de 2016 foi bem menos empolgante, impactante e encantadora do que aquela de 2015. Algo que eu acho perfeitamente compreensível: aquelas pessoas que saíram do curso no ano passado com a cabeça em chamas tiveram 12 meses pra digerir o conteúdo e ir se atualizando. É difícil voltar a surpreender alguém que chega a esse nível, principalmente sendo refém do próprio sucesso, que é o caso do Friends of Tomorrow.
Ainda assim, agosto chegou e cá estou eu em São Paulo, para o Friends of Tomorrow 2016. Eu e outros 64 alunos que completam a turma.

A Volta

A aula começava às 19h e eu cheguei um pouco atrasado (por volta das 19h30). Por isso, nem deu pra interagir direito com o pessoal. O Tiago estava falando apenas para o pessoal que veio para a segunda semana (ou seja, o grupo do qual faço parte).

Entre as coisas que ele destacou na apresentação padrão, a versão "VR" do Pitfall (quem jogava Atari sabe do que estou falando) foi uma das que mais me chamou atenção.
Também fiquei positivamente surpreso com a possibilidade do próprio Tiago, que já é professor do TIP, poder se tornar professor da Singularity University ainda esse ano (!). Em novembro ele irá fazer uma "aula teste" por lá e, se tudo der certo, há chances dele passar a ministrar aulas na badaladíssima "meca do futurismo".

Todo mundo ganhou um cardboard de brinde.


APRESENTAÇÃO

Após essa fala inicial, foi a vez daquela já esperada roda de apresentação. Ao invés de fósforos, dessa vez tivemos aquelas velinhas de aniversário que soltam faisca pra todos os lados. Somente a galera da segunda semana precisou se apresentar.

"Soy el fuego que arde tu piel" (foto: Hugo Santos)

Quando chegou a minha vez, disse que eu era do Rio Grande do Sul (o Tiago até estranhou a minha presença ali, pois na cabeça dele eu tinha feito a segunda semana do curso em Porto Alegre), que eu sabia todos os placares das Copas do Mundo (...) e que esse curso poderia ser uma "Singularidade" na vida de cada um, desde que saibamos como aproveitá-lo.


O POSSÍVEL E O IMPOSSÍVEL

Depois rolou uma dinâmica. A turma foi dividida em oito grupos e a missão era a seguinte: cada um deveria apresentar ao seu respectivo grupo dois tipos de "previsões" para o futuro: um com a qual o grupo inteiro concordasse e outra que fosse completamente rejeitada. Eu já tinha as minhas duas na ponta da língua. Sobre a previsão mais "possível", eu levantei a hipótese de vivermos num mundo sem dinheiro e sem o trabalho como condição de sobrevivência (sim, EBR) graças à robotização do trabalho, ao custo marginal zero e à abundância de recursos. Mas nem todos do grupo acham que isso seria possível (compreensível).
Mas acertei em cheio ao falar sobre a previsão mais maluca e rejeitada: falei sobre a possibilidade de revivermos todas as 101 bilhões de pessoas que já bateram as botas (sim, Ressuscitados). Como não dei muitos detalhes, é óbvio que essa projeção foi rejeitada de modo fulminante.
Mas ainda precisávamos entrar num consenso sobre o que todos integrantes do grupo achavam que poderia acontecer. Foi levantada a hipótese de podermos viver uma próxima guerra. Não uma guerra mundial com armamentos bélicos como as do século XX. Uma guerra ideológica, de amantes da tecnologia contra a turma do desespero. Concordo que isso tem muita chance de acontecer quando o chip no cérebro começar a pautar as rodas de bar. E esse parecia ser o conceito unânime do grupo.

Geral achando que vai dar guerra, mano!

Seja como for, o resultado da dinâmica serviu apenas pela reflexão grupal. Não foi cobrado pelo Tiago.

De volta à "aula", Tiago apresentou um curioso slide sobre os "demonstrativos contábeis" da Perestroika/Aerolito referente à receita gerada pelo Tomorrow. Cerca de 25% é destinado ao pagamento de impostos, por exemplo. Grande parte vai para deslocamento e estadia da equipe e menos de 2% é revertido ao "corpo docente".


CAFÉ TURCO

Talvez o momento mais inusitado desse primeiro encontro tenha sido o que veio logo em seguida: a aparição do vidente!

Não gostaria de entrar para tomar uma xícara de café?

Sim, tinha um VIDENTE especialmente convidado. E o cara tinha toda a indumentária de vidente (meio estereotipado até, eu diria). Parecia o Sr. Popo do Dragon Ball, sabe? Ele e o Tiago sentaram em uma mesa (também toda esquematizada para a ocasião) para iniciar a "leitura do futuro do Tiago". A turma toda ficou de pé à volta sob a instrução de não fazer barulho para não atrapalhar a "cerimônia".
O Tiago tomou a xícara do café "made in Turkey", cuja borra revelaria o futuro do nosso teacher. O vidente pegou a xícara quase vazia para analisar a borra e, em seguida, fazer suas ponderações.
"Eu vejo um avião relacionado a alguém da sua família", disse o cara. Tiago comentou que seu pai era piloto de avião (mas segundo a página 494 do livro VLEF, ele é engenheiro e consultor). Também foi dito que havia uma pessoa importante na vida do Tiago cujo nome começava com "V". Tiago disse que o nome da sua mãe era Vera. No mais, o Sr. Popo disse coisas como: "você é um cara que possui um coração muito grande, que é muito generoso e que pensa sempre à frente, blábláblá...". Também disse que via dois filhos "a caminho" na vida do Tiago. E, segundo a "linha da vida" da mão direito do Tiago, ele viverá bem e com saúde além dos 85 anos de idade (mas o Kurzweil acha que vai ser pra sempre).

Tiago e seu momento de spoiler espiritual. (foto: Hugo Santos)

Feita a sessão "João Bidu", voltamos todos às nossas cadeiras para retomar a aula. Tiago pediu para que alguns alunos fizessem observações sobre o que viram e ainda levantou uma questão: "Quem aqui acha que isso tudo foi uma encenação? Quem acha que eu já o conhecia? Quem acha que ele já me conhecia? Quem acha que o meu pai realmente é piloto de avião? Quem acha que o nome da minha mãe é Vera?"

Hááá!! Teria sido tudo pegadinha??

Mas a dúvida só ficou no ar. Tiago não deixou claro se aquilo era uma encenação ou se o cara realmente tinha "poderes" para prever o futuro. Se for algo "sério" e expontâneo, acho válido pela discussão que o curso propõe com relação às previsões futurísticas. Se foi tudo uma encenação, também acho sensacional, pois só reforça essa ideia de que futurismo é ciência e estudo, não um "superpoder".


CATEGORIZAÇÃO X CLUSTERIZAÇÃO

De volta ao conteúdo, Tiago apresentou a sua matriz "3C - ET" (Capturar, Clusterizar, Curvas + E = explorar + "T" = "traduzir").

Uma coisa bem bacana que foi apresentada era a matriz circular, que caracteriza-se na criação de "clusters" relacionados ao futurismo. Clusters estes que, conforme agrupados e distribuidos, podem apresentar um esquema revelador.
Um exemplo interessante que foi dado foi o do Netflix, que clusteriza as preferências do usuário ao invés de "categorizá-las". Ao invés de me oferecer filmes "categorizados" (Ação; Drama; Suspense; Terror; Pornochanchada...), eles oferecem segmentos clusterizados (animes shonen; documentários sobre tecnologias emergentes; super-heróis japoneses inéditos na TV brasileira; filmes de futebol baseados em histórias reais; biografias de estrelas do rock que morreram aos 27 anos...). É bem mais personalizado e certeiro. Mas claro que isso só se faz com um conhecimento avançado em AI e machine learning.
Uma dinâmica bem legal foi feita para mostrar de forma prática e lúdica a estrutura desses clusters: Tiago pediu para que cada aluno escrevesse num post-it alguma notícia recente e interessante relacionada a futurismo. Lembrei do post que o Peter Diamandis escreveu falando sobre a "desmonetização do mundo" nos próximos 20 anos, algo que vai muito de encontro às ideias de Economia Baseada em Recursos e um mundo "pós-capitalismo".

A nossa "cloud cluster" orgânica.

Todos post-its da turma foram colocados em um enorme mural. Depois, Tiago pediu para que a turma organizasse, de forma "orgânica", todos aqueles post-its em "clusters" e o resultado foi um diagrama muito interessante. As notícias relacionadas a Inteligência Artificial foram agrupadas em uma região do mural, enquanto as que tratavam do assunto "futuro de trabalho" iam pra outro. Havia outros clusters também, mas acredito que a maioria estava relacionada a um desses dois. Acontece que, em alguns casos, as notícias ficavam num limbo entre AI e "futuro do trabalho" (tipo a minha). E isso às colocava numa região de "transição" entre um cluster e outro.
Isso me motivou a lançar um desafio a mim mesmo: cite três (ou mais) linhas de interesse aparentemente desconexas e tente estruturá-las num mesmo diagrama através dessa "nuvem de clusters". Exemplo: Tokusatsu, futebol e futurismo. Uma hora dessas, quem sabe, eu faço isso.



NOTÍCIAS DE 2026

Essa aberração está com os dias contados.

Depois foi a vez de analisarmos a tal da matriz 2x2 (já a conhecia do ano passado): o tema era "a educação do futuro" e as variáveis eram a Realidade Virtual e o Neurofeedback.
Também foi dado como exemplo o desemprego tecnológico X as profissões que a galera curte e odeia.

Foi realizada ainda uma outra dinâmica em grupos na qual deveríamos imaginar uma notícia de 2026. O grupo do qual eu fazia parte optou por apresentar aos "leitores" a aposentadoria do último empregado CLT do país. Ainda no mesmo exercício, foi solicitada uma outra previsão, desta vez relacionada à área da saúde. Eu ilustrei um sujeito utilizando seu "chip cerebral" como nutricionista particular, informando e aconselhando sobre os hábitos alimentares do usuário.



SABE DE NADA, INOCENTE!

Já na finaleira, Tiago falou sobre o tal do "Índice de Brian", que serve como uma métrica para avaliar o desempenho de um futurista. Falou também sobre "a ilha do conhecimento" e aquele velho dilema do "quanto mais eu sei, mais sei que não sei".


Se o conhecimento é uma pequena ilha, o desconhecido é um grande oceano.

Outra coisa interessante foram as comparações enganosas que tendem a nos induzir ao erro. O exemplo "afogamentos X vendas de picolé" já citado no livro VLEF. Temos uma tendência a tirar conclusões de comparativos aparente desconexos e que podem ser traiçoeiros na nossa forma de pensar e julgar as coisas.
Como indicação de leitura, ele mencionou o livro "Superprevisões - A Arte e A Ciência de Antecipar o Futuro", de Dan Gardner.

Dica de leitura.

DIREITOS IGUAIS

E, pra finalizar, tivemos um "momento reflexão" no qual discutiu-se a importância da diversidade no futurismo e no desenvolvimento de novas tecnologias. Infelizmente, o "dream team" de futuristas e protagonistas da revolução tecnológica é basicamente formado por homens brancos e ricos da América do Norte. Repare.
Não tem como não lembrar da entrevista do Neil deGrasse Tyson quando ele fala que o próximo Einstein pode estar morrendo de fome na Etiópia. E nunca vamos saber.

Pense nisso.

Eu concordo que falta mesmo trazer mais mulheres para essa discussão. Um dos exemplos mais curiosos foi o do "clips do Word" (lembra?), que nunca foi visto com maus olhos até aparecer uma opinião feminina (coisa descartada até então) dizendo que aquele olhar bagaceiro do clips sugeria algo "mulherengo e malicioso". É óbvio que um homem não teria como fazer esse tipo de observação. Mas, infelizmente, esse tipo de discussão é praticamente uma exclusividade do clube do Bolinha.
Talvez falte ao futurismo uma solução parecida com o que a FIFA proporcionou ao futebol: vale lembrar que o futebol é genuinamente um esporte britânico que, antes da sua popularização, era apenas praticado por brancos ricos de cabelo lambido. Em menos de 100 anos, o "football" virou "futebol" e hoje é praticado em todos lugares do planeta. Destaque também para o protagonismo mundial e incontestável de astros como Pelé, Eusébio, Ronaldinho Gaúcho (esse negros maravilhosos) que provaram, na prática, que o negro pode ter um papel de destaque nesse esporte sim.

No Século XIX, futebol era coisa de branco.

Por que, então, não elevar esse mesmo exemplo à revolução digital, que está acontecendo? Quem vai ser a "FIFA da tecnologia" e proporcionar a uma minoria o papel de protagonista nesse segmento?
Nas histórias em quadrinhos, pelo menos, isso já está acontecendo.

A heroína Riri Williams substituirá o magnata Elon Musk... digo! Tony Stark

O primeiro dia de aula do curso acabou e eu praticamente nem pude aproveitar a melhor coisa do Tomorrow, que foi a interação com os demais (professores e colegas).
Conversei rapidamente com o Tiago (menos de dois minutos). Com o Santi já deu pra trocar uma ideia mais informal, já que ele estava mais no suporte (a impressão que eu tenho é a de que em SP ele não tem tantos conhecidos próximos ao ponto de estar sempre interagindo com alguém).
Pude rever colegas que eu tinha conhecido em Porto Alegre durante a Master Class de abril, como o Hugo e o Marcola.
Aliás, o Hugo foi de uma gentileza incrível comigo na volta. Me deu carona até a porta de casa (e olha que era longe)! Mas a conversa com ele no carro estava tão legal que passou rápido demais.
Um cara muito gentil, atencioso e do bem.

Bom... esse foi "só" o primeiro dia.

Continua no próximo episódio. o/

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